"As 50 sombras de Grey" é o livro mais lido na cadeia de alta segurança

"A Guerra dos Tronos" e "A Rainha do Sul" completam o top 3 dos livros requisitados pelos 87 presos mais perigosos do país. Na única prisão de segurança máxima do país, a biblioteca tem 4372 títulos ao dispor dos reclusos

No estabelecimento prisional de Monsanto, o único do país com a classificação de prisão de alta segurança, estão os 87 presos mais perigosos do país, todos eles suspeitos ou condenados por mais de um crime, sendo os mais frequentes assaltos violentos, homicídios e tráfico de droga. E o que gostam de ler estes condenados? Segundo dados oficiais avançados ao DN pela Direção Geral de Reinserção e Serviços Prisionais (DGRSP), o livro mais requisitado na biblioteca de Monsanto é o romance erótico "As cinquenta sombras de Grey", logo seguido da saga "A Guerra dos Tronos" e do best seller "A Rainha do Sul" - sobre um império de narcotráfico construído por uma mulher - e que já foi adaptado para uma série de sucesso norte-americana que estreou ontem, no canal Fox Life, em Portugal.

José Prata, da Lua de Papel (grupo Leya), editora da obra "As cinquentas sombras de Grey", comentou assim a preferência dos reclusos: "À primeira vista o facto surpreende-me, julgaria sempre que leriam sobretudo livros de outros géneros, como thrillers, ou desenvolvimento pessoal (que nos pedem muito das prisões). No entanto, dado que a série é tão transversal, e que durante vários anos foi o livro mais lido em Portugal (inclusive em bibliotecas públicas, ou hotéis, como já foi noticiado), acho que é apenas a transposição do fenómeno para dentro das quatro paredes".

Mas em Monsanto os presos têm muitos outros livros à escolha. A biblioteca da cadeia dispõe de 3738 títulos em língua portuguesa e de 634 em línguas estrangeiras. Os livros que são distribuídos pelas prisões são doados por particulares ou pelos municípios onde as cadeias estão implantadas. Monsanto tem, à semelhança das outras 48 cadeias do país, reclusos que prestam serviço na biblioteca, tomando nota das requisições e devoluções, bem como da catalogação, de acordo com orientações dadas pelos técnicos.

Os reclusos podem também pedir a um técnico para encomendar um título específico que depois pagam a pronto pagamento, ou pedir aos familiares para lhes trazerem livros nas visitas. Há também programas de incentivo à leitura. Na cadeia de Vale do Sousa, por exemplo, uma técnica estabeleceu um protocolo com a Associação Nacional de Escritores para todos os meses levar à prisão um escritor para falar com os reclusos.

21 horas por dia nas celas

Os presos de Monsanto têm muito tempo para ler. Passam 21 horas por dia nas suas celas individuais, com direito a uma hora e meia de recreio de manhã e outra equivalente à tarde. Só podem partilhar opiniões sobre o que leram nesse escasso tempo de ar livre no pátio ou então através das janelas das celas (este tipo de comunicação é permitido).

Os prisioneiros são colocados neste regime de segurança sempre que a sua "perigosidade" for incompatível com outro, como definido pelo Código de Execução de Penas. Mas podem ter uma atividade à escolha, na biblioteca, em artesanato ou a fazer peças para uma empresa, mas apenas dentro do período de recreio. Também há ginásio, desportos coletivos e aulas de yoga. A prisão tem ainda uma sala equipada para as visitas conjugais. E é das poucas do país que tem lugares de sobra: a lotação é de 202 presos e só lá estão 87.

Apesar de não haver atualmente nenhum preso de Monsanto inscrito no ensino superior, existem 20 reclusos que estão a frequentar ações de ensino por módulos.

A DGRSP informou ainda que dos 87 reclusos, 78 são condenados e 9 são preventivos. Dos condenados, há 26 que estão em regime aberto em secção separada. Todos eles cometeram mais do que um crime, sobretudo furto (48 crimes), roubo (38 crimes), homicídio (26 crimes) e tráfico de droga (24 crimes). Monsanto é a única cadeia em Portugal de onde nenhum preso até hoje conseguiu fugir.

"Há uma grande iliteracia"

Rui Abrunhosa Gonçalves, psicólogo da Justiça, responsável pela conceção de alguns programas de acompanhamento a reclusos, considera que "há uma grande iliteracia na população prisional" - a maior parte dela tem apenas o primeiro ciclo do ensino básico. "Muitos presos vêm sem hábitos de leitura básicos, não lêem jornais, são infoexcluídos. As prisões esforçam-se por incentivar a leitura mas isto está muito contratualizado: tem de se perguntar ao preso se está interessado. Devia ser obrigatória a frequência de cursos que os levassem a ter mais hábitos de leitura". E o "impacto psicológico" da leitura como "fonte de entretenimento" não é de descurar. "É importante lerem, Mesmo que seja "As Cinquentas Sombras de Grey"", comentou. J.C.S.

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