Após 200 anos de extinção, os veados voltaram à serra da Lousã

Investigador da Universidade de Aveiro destaca o potencial económico, cinegético e turístico dos veados que são um ex libris da região

A ausência de algumas folhas tenras nas silvas indica que estiveram a alimentar-se por aqui. As marcações territoriais nas árvores (troncos esfolados) confirmam-no. Debaixo de um carvalho português, uma "cama de veado". "Estão perto", anuncia com entusiasmo Carlos Fonseca, o investigador da Universidade de Aveiro responsável científico pelo programa de reintrodução destes cervídeos na serra da Lousã, onde estavam extintos há cerca de 200 anos. Vinte e dois anos após a chegada dos primeiros veados à serra, existem hoje aproximadamente três mil animais a viver em estado selvagem numa área superior a cem mil hectares.

Estamos na zona norte da serra, a que foi menos afetada pelos incêndios. Passamos do concelho da Lousã para o de Miranda do Corvo, onde encontramos mais vestígios da presença da espécie. Desta vez são excrementos. Ao longe, avistamos duas fêmeas. Carlos Fonseca explica que, se a reportagem fosse feita depois do dia 15 de setembro, seria mais fácil observar veados. É nessa altura que começa a brama, um período no qual ecoam pela serra fortes bramidos dos machos que cortejam as fêmeas.

Foi no dia 3 de março de 1995 que começou o programa de reintrodução de veados na serra da Lousã, coordenado pela Unidade de Vida Selvagem (UVS) do Departamento de Biologia da Universidade de Aveiro (UA). "Ao longo de vários anos, foram reintroduzidos 120 animais [proveni- entes da Zona de Caça Nacional da Contenda e da Tapada de Vila Viçosa] em locais muito específicos. A partir das bolsas iniciais foram-se expandindo, de tal forma que a última contagem - de 2016 - dava cerca de 3000 animais num território imenso de quase cem mil hectares, desde aproximadamente o rio Zêzere a sul, o Mondego a norte, A1 para o litoral até muito próximo da serra da Estrela", recorda Carlos Fonseca, coordenador da UVS.

Caso de sucesso

O programa tinha como objetivo devolver à serra da Lousã a espécie, cuja extinção terá ocorrido há mais de 200 anos por "redução do habitat, mas também devido a perseguição por parte do homem e, eventualmente, a algum episódio de doença". Foram feitas algumas projeções, mas "o cenário atual supera qualquer uma". "Dentro do que são os processos de reintrodução de espécies animais selvagens na Europa, nomeadamente de um grande cervídeo como o veado, este é um dos casos de maior sucesso ao nível do continente europeu, pelos números e pela aceitação social generalizada", destaca o investigador. Refere-se a "uma certa assunção de marca territorial associada ao veado, que é usado desde o setor desportivo às marcas territoriais, ao artesanato".

Além da grande vantagem que é a "reposição da biodiversidade que existia", há, segundo Carlos Fonseca, cada vez mais interesse em incluir o veado na economia local. "Gradualmente, as pessoas vão dando valor ao recurso do veado. É uma espécie importante para a caça, num território onde esta tem uma grande relevância." Na altura da brama, "há observação de veados associada à fotografia de natureza". Segundo o docente da Universidade de Aveiro, "ao conservar estas espécies guarda-chuva, estão a ser conservadas uma série de outras espécies e ecossistemas de que estas estão dependentes".

Conflitos com o homem

Apesar do enorme do sucesso, existem focos de conflito com a população. "Em algumas zonas, e eventualmente perante alguma falta de alimento, os animais descem um pouco, aproximam-se das aldeias e provocam prejuízos nas hortas e culturas agrícolas." Cabe aos municípios e entidades gestoras de zonas de caça tentar reduzir o conflito "através da prevenção e do controlo da população". Há casos, exemplifica, em que são fornecidas redes e estacas para vedação.

Embora a espécie seja caçada desde 2006, "foi feito um plano global de gestão para a região, que está a ser implementado, mas há falta de regulamentação". Todos os meses, conta o investigador, "há uma comissão que avalia os troféus de caça a nível nacional (veado, javali, corço) e, neste momento, o recorde nacional de veado está na serra da Lousã". Isso quer dizer, prossegue, que existem aqui "animais de altíssima qualidade, sob o ponto de vista da sua condição física, compleição". Detentora do "troféu mais pesado e maior de todo o país", a serra da Lousã tem condições "para albergar uma população de qualidade e livre de doenças".

À medida que percorremos os diferentes concelhos, avistamos mais animais entre as árvores. Tímidos, afastam-se logo que sentem as portas do jipe a abrir, dificultando a fotografia. É no concelho de Penela que encontramos mais. Além deste, o programa envolve os municípios da Lousã, Pampilhosa da Serra, Figueiró dos Vinhos, Góis, Miranda do Corvo, Pedrógão Grande e Castanheira de Pera.

Desde o início do programa que a Universidade de Aveiro faz, "de forma regular e sistemática, "o censo dos animais, fundamentalmente na altura da reprodução, que é, aproximadamente, de 15 de setembro a 15 de outubro". Carlos Fonseca explica que "a observação direta com telescópio e binóculos é complementada com contagens de índices de presença ao longo do ano", nomeadamente de excrementos. Com esta monitorização, é possível perceber as tendências populacionais e recomendar ações de gestão de acordo com indicadores biológicos e sanitários obtidos.

À Câmara Municipal de Penela chegam queixas de munícipes devido aos estragos que os veados provocam nas culturas agrícolas. Luís Matias, presidente da autarquia, diz que é necessário criar condições, entre as quais algumas infraestruturas, para que a espécie permaneça na zona de montanha. Quanto ao turismo, não tem dúvidas de que o potencial é enorme.

Qual a importância do programa de reintrodução dos veados para os concelhos envolvidos, nomeadamente para o de Penela?

Do ponto de vista ecológico e ambiental, é importante. Foi extraordinário e tem um grande potencial turístico, mas não deixa de ser também um problema para a agricultura, uma vez que estes animais têm vindo a aproximar-se cada vez mais de aglomerados urbanos e feito elevados estragos nas culturas. Eu diria que tem tanto de potencial como de problema. Isso também tem que ver com o facto de, após a reintrodução das espécies no biótipo da serra da Lousã, não se ter tido o devido cuidado na criação de melhores condições para que os animais permanecessem na zona de montanha. É um trabalho que devia ter sido feito de forma diferente.

Costuma receber muitas queixas dos munícipes?

Sim. Temos sempre inúmeras queixas. É cada vez maior a conflitualidade social que existe relativamente não só aos animais em si, mas depois às entidades gestoras das zonas de caça, como as associações de caçadores e o próprio Instituto de Conservação da Floresta. Considerando esta conflitualidade social, é um problema de difícil resolução e que devia merecer alguma atenção por parte do Ministério da Agricultura e da Secretaria de Estado das Florestas.

Na sua opinião, como é que o problema se pode resolver?

Há duas ou três formas de o fazer. No que diz respeito à correção de densidades, recordo que na zona de caça nacional não é feita qualquer ação nesse sentido há cerca de 20 anos, o que cria dificuldades. É necessário também que na zona de caça nacional e onde foram reintroduzidas estas espécies sejam criadas infraestruturas necessárias para a permanência dos animais lá. Estamos a falar de pontos onde se possam alimentar, culturas para que não tenham de se socorrer das zonas agrícolas para se alimentarem. Existe, ainda, um outro projeto que associa também uma componente de investigação e desenvolvimento com a Universidade de Aveiro, que é a criação de um centro de investigação dos ungulados da serra da Lousã, onde se pretende ter um cercado biológico com cerca de 400 hectares, para explorar de outra forma o potencial turístico desta reintrodução, com observação, estudo do desenvolvimento dos animais.

Do ponto de vista turístico, qual a importância dos veados para a região?

A importância que têm hoje é muito residual. É um produto turístico fortíssimo, mas que precisa de ser estruturado e qualificado. Não temos empresas a fazer observação dos cervídeos em nenhum concelho. O que é feito é de forma casuística e não organizada. É óbvio que existe esse potencial. Os sete municípios envolvidos estão a constituir uma associação de desenvolvimento da serra da Lousã, que procura exatamente criar condições para o aproveitamento do melhor potencial e de recursos endógenos que existem na serra.

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