Apoio dado a alunos em risco reduz chumbos em 14%

Programa que combate insucesso escolar permitiu a não reprovação de 80 alunos em dois anos e uma poupança de 400 mil euros

Repetente do 7.º ano, sete negativas no primeiro período e um grau de ansiedade acima da média nos momentos de avaliação. Este era o retrato de Mariana (nome fictício) que chegou com 13 anos à EB 2,3 de São João da Talha, em Loures, com a natural ambição de passar de ano. Mas as notas que exibia indiciavam novo chumbo. Começou a ser acompanhada por Leonor Santos, professora e mediadora do programa da Associação EPIS - Empresários pela Inclusão Social para combater o insucesso escolar.
"Ela estudava, mas não conseguia ter resultados. O que fizemos foi gerir a ansiedade nos momentos de avaliação, arranjar técnicas de concentração", conta ao DN Leonor Santos. Com o "acompanhamento de proximidade", Mariana passou para o 8º ano. Frequenta atualmente o 9º e "já não tem negativas".
A intervenção dos mediadores reduz em 14% a probabilidade de chumbo de alunos em risco de insucesso escolar. Esta é uma das conclusões do estudo que hoje será divulgado, que avaliou o programa "Mediadores para o Sucesso Escolar", e cujo objetivo é combater as retenções do 7º ao 9º ano, através do reforço de competências não cognitivas dos alunos, como a autoestima, a motivação, a dedicação e a organização.

A investigação comparou o desempenho escolar de 2311 alunos selecionados aleatoriamente para participação no programa e 648 de um grupo de controlo. Todos estudantes com risco de insucesso (várias negativas no início do ano, por exemplo), de forma a garantir que as diferenças se ficavam a dever apenas à participação no programa. "Verificámos uma diferença muito significativa em termos de sucesso escolar", explica o autor do estudo, Pedro Martins, especialista em educação, do Queen Mary na University of London e NovaSBE. Em termos percentuais, o programa de recuperação reduziu em 14% a probabilidade de retenção.

O estudo foi feito com um universo de 3 mil alunos, de 55 escolas de Lisboa, Setúbal e Açores, que foram acompanhados por 57 mediadores (professores do Ministério da Educação), nos anos letivos 2014/15 e 2015/16. Estes desenvolveram uma média de 13 sessões individuais ou coletivas com os alunos, de cerca de 20 minutos a cada duas semanas.

400 mil euros poupados

Os valores de referência mostravam que 80% dos jovens transitavam pelo menos um ano, 43.6% os dois e 20% reprovavam ambos. "Com esta intervenção, a percentagem [de aprovação em ambos os anos] aumenta cerca de 10% a 15%". Neste caso em particular, o trabalho de mediação traduziu-se num aumento de 80 jovens que não reprovaram nenhum ano. Segundo o autor do estudo, isto permitiu reduzir a despesa pública em 400 mil euros, atendendo a um custo de 5.000 euros por aluno por ano.
"Como os professores já são remunerados, o Estado não paga mais. A relação entre o custo-benefício é extremamente proveitosa", destaca Pedro Martins, que acredita que "os resultados poderão ser extrapoláveis para o resto do País". Uma das preocupações da EPIS, explica, é "não dispersar os recursos", daí que seja feito "um processo de análise dos perfis dos jovens muito rigoroso para perceber quais os que estão em maior risco de insucesso escolar".

Os mediadores podem ser psicólogos financiados pela EPIS ou professores com formação dada pela associação. Neste caso, eram todos docentes com disponibilidade de horário. "Poderá fazer sentido a mobilização de parte do tempo destes professores para programas com esta natureza", sugere o antigo secretário de Estado do Emprego, destacando que o insucesso escolar ainda é um "grande problema". De acordo com os dados mais recentes da Comissão Europeia, Portugal tem uma taxa de retenção de 15.1% no 3º ciclo e é o quinto País com maior abandono escolar.

Leonor, professora de História, dedica 12 horas por semana ao acompanhamento dos alunos EPIS, um trabalho que envolve professores e pais. E que resulta quase sempre em sucesso". "Quando o aluno vê resultados do seu esforço e empenho, é raro regredir".
Lançado em 2007, o programa - que conta com um investimento de 45 milhões de euros - já permitiu apoiar mais de 21 mil alunos. Ao DN, Diogo Simões Pereira, diretor-geral da EPIS, diz que terá permitido evitar o chumbo de "mais de 2430 alunos nos 1.º, 2.º e 3.º Ciclos".

Exclusivos

Premium

Ferreira Fernandes

A angústia de um espanhol no momento do referendo

Fernando Rosales, vou começar a inventá-lo, nasceu em Saucelle, numa margem do rio Douro. Se fosse na outra, seria português. Assim, é espanhol. Prossigo a invenção, verdadeira: era garoto, os seus pais levaram-no de férias a Barcelona. Foram ver um parque. Logo ficou com um daqueles nomes que se transformam no trenó Rosebud das nossas vidas: Parque Güell. Na verdade, saberia só mais tarde, era Barcelona, toda ela.

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

Dos pobres também reza a história

Já era tempo de a humanidade começar a atuar sem ideias preconcebidas sobre como erradicar a pobreza. A atribuição do Prémio Nobel da Economia esta semana a Esther Duflo, ao seu marido Abhijit Vinaayak Banerjee e a Michael Kremer, pela sua abordagem para reduzir a pobreza global, parece indicar que estamos finalmente nesse caminho. Logo à partida, esta escolha reforça a noção de que a pobreza é mesmo um problema global e que deve ser assumido como tal. Em seguida, ilustra a validade do experimentalismo na abordagem que se quer cada vez mais científica às questões económico-sociais. Por último, pela análise que os laureados têm feito de questões específicas e precisas, temos a demonstração da importância das políticas económico-financeiras orientadas para as pessoas.

Premium

Marisa Matias

A invasão ainda não acabou

Há uma semana fomos confrontados com a invasão de territórios curdos no norte da Síria por parte de forças militares turcas. Os Estados Unidos retiraram as suas tropas, na sequência da inenarrável declaração de Trump sobre a falta de apoio dos curdos na Normandia, e as populações de Rojava viram-se, uma vez mais, sob ataque. As tentativas sucessivas de genocídio e de eliminação cultural do povo curdo por parte da Turquia não é, infelizmente, uma novidade, mas não é por repetir-se que se deve naturalizar e abandonar as nossas preocupações.