Tabaco, álcool e obesidade responsáveis por quase metade dos casos de cancro no mundo

Os autores investigaram como 34 fatores de risco comportamentais, metabólicos, ambientais e ocupacionais contribuíram para mortes e problemas de saúde relacionados com 23 tipos de cancro em 2019.

DN com agências
A indústria de tabaco continua a enganar os consumidores© Miguel Pereira/Global Imagens

Quase metade dos casos de cancro em todo o mundo pode ser atribuído a um fator de risco conhecido, principalmente tabaco ou álcool, segundo um grande estudo global divulgado na revista científica Lancet, reforçando o peso de fatores comportamentais no risco de contrair a doença.

O estudo, conduzido como parte de um vasto programa de investigação financiado pela Fundação Bill Gates, concluiu que 44,4% das mortes por cancro em todo o mundo foram atribuídas a um fator de risco conhecido. Ou seja, quase metades das mortes por cancro registadas no mundo em 2019, num total de 4,45 milhões de mortes, devem-se a causas evitáveis, como o tabaco, principal fator de risco, o consumo de álcool ou o excesso de peso.

O estudo analisou o impacto de 34 fatores de risco e confirmou o que já é amplamente conhecido - que o tabaco é de longe o maior fator contribuinte para o cancro, respondendo por 33,9% dos casos, seguido pelo álcool com 7,4%.

Mais de metade de todas as mortes masculinas por cancro foram atribuídas a esses fatores de risco, e mais de um terço das mortes femininas, segundo o estudo.

"Este estudo ilustra que o cancro continua a ser um grande desafio de saúde pública que está a crescer em magnitude em todo o mundo. O tabagismo continua a ser o principal fator de risco para o cancro globalmente, embora existam outros fatores importantes que também contribuem", disse o Dr. Christopher Murray, diretor do Instituto de Métricas e Avaliação de Saúde da Escola de Medicina da Universidade de Washington e coautor do estudo.

Usando os resultados do estudo Global Burden of Diseases, Injuries, and Risk Factors (GBD) 2019, os autores investigaram como 34 fatores de risco comportamentais, metabólicos e ambientais e ocupacionais contribuíram para mortes e problemas de saúde relacionados com 23 tipos de cancro em 2019.

Entre 2010 e 2019, as mortes por cancro devido a fatores de risco aumentaram 20,4% globalmente, de 3,7 milhões para 4,45 milhões. A saúde precária devido ao cancro aumentou 16,8% no mesmo período, de 89,9 milhões para 105 milhões de pessoas com incapacidade.

Cancro da traqueia, brônquios e pulmão são os de maior incidência

Os principais tipos de cancro atribuídos a fatores de risco e que resultaram em mortes, em homens e mulheres, foram os cancros da traqueia, dos brônquios e do pulmão, que representaram 36,9% de todas as mortes por cancros atribuídos a fatores de risco.

Seguiram-se cancro de cólon e reto (13,3%), cancro de esófago (9,7%) e cancro de estômago (6,6%) em homens, e cancro de colo do útero (17,9%), cancro de cólon e reto (15,8%) e cancro da mama (11%) em mulheres.

O estudo aponta diferenças entre os sexos: homens assumem mais riscos comportamentais e ocupacionais

Os investigadores encontraram diferenças em homens e mulheres em duas categorias principais: riscos comportamentais e riscos ambientais e ocupacionais. Em relação aos riscos comportamentais, os homens (33,2%) tiveram quase quatro vezes mais incapacidade por cancro atribuídos ao tabagismo do que as mulheres (8,9%). Em relação ao consumo de álcool, os homens (7,4%) tiveram mais de três vezes mais incapacidade por cancro do que as mulheres (2,3%).

Examinando os riscos ambientais e ocupacionais, os investigadores descobriram que os incapacitados por cancro eram três vezes maiores entre os homens (3,9%) do que as mulheres (1,3%), sugerindo que os homens podem ser mais propensos do que as mulheres a trabalhar em locais com maior risco de exposição a cancerígenos.

Países desenvolvidos, os mais afetados

As cinco regiões com as maiores taxas de mortalidade por cancro devido a fatores de risco foram a Europa Central (82,0 mortes por 100.000 habitantes), Ásia Oriental (69,8), América do Norte (66,0), América Latina e sul (64,2) e Europa Ocidental (63,8).