Dezenas de casos suspeitos lançam alerta sobre varíola-dos-macacos

DGS revelou a existência de 14 casos oficiais na zona de Lisboa, mas há mais suspeitos. Doença está a provocar surtos em países europeus. Não está relacionada com orientações sexuais.

Rui Frias
Erupções cutâneas numa criança africana infetada com varíola-dos-macacos.© WHO/Nigeria Center For Disease Control

Catorze casos confirmados e, pelos menos, outros dois em análise com forte probabilidade de se tratarem também de infeções por varíola-dos-macacos, uma doença rara endémica de zonas selvagens de África que agora chega pela primeira vez a Portugal, numa altura em que têm sido também reportados surtos noutros países europeus, como Reino Unido e Espanha.

A revelação foi feita ontem ao início da noite através de comunicado da Direção-Geral da Saúde. Algumas horas antes a DGS tinha informado que "foram identificados, neste mês de maio, mais de 20 casos suspeitos de infeção pelo vírus Monkeypox [varíola-dos-macacos], todos na região de Lisboa e Vale do Tejo". Fonte hospitalar já tinha avançado à CNN Portugal que o Centro Hospitalar Lisboa Central (CHULC) tinha realizado análises aos vários casos suspeitos, que horas mais tarde foram confirmados pelo Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge (INSA) com a presença do vírus.

Apesar de, nos três países europeus em que foi detetada neste último mês, a doença ter sido diagnosticada sobretudo entre homens com relações homossexuais, esta não é uma doença relacionada com orientações sexuais, esclarece ao DN o infeciologista Jaime Nina, professor do Instituto de Higiene e Medicina Tropical.

Mas de que doença falamos, afinal? Descoberta em 1958 no Congo (onde em 1970 se registou o primeiro caso humano), a varíola-dos-macacos "entra numa família muito grande de vírus [Ortopoxvírus], conhecida há muito tempo, e da qual o mais conhecido é o vírus da varíola humana", conta o infeciologista. Ora, se a varíola humana foi "considerada erradicada em 1976", e as pessoas deixaram de ser vacinadas, reportando-se apenas "casos esporádicos", este vírus que agora chegou a Portugal também "não apresenta historial de transmissão comunitária", diz Jaime Nina.

Os 14 doentes confirmados até agora são todos do sexo masculino, jovens, e estão estáveis, apresentando lesões ulcerativas.

Como vírus zoonótico que é, "a transmissão faz-se por contacto direto com um animal infetado [geralmente roedores ou macacos] ou então por contacto direto com pessoas que estiveram em contacto com um animal infetado", refere o especialista, sublinhando que os casos conhecidos até hoje "são esporádicos". De resto, sublinha, o R0 desta doença - número médio de contágios causado por cada pessoa infetada - "é inferior a um".

Os contágios, esclarece, acontecem sobretudo por "contacto direto de pele", através de lesões de pessoas infetadas ou fluidos corporais - daí poder ter sido espalhada por contacto sexual, mas não é provocada pelos hábitos sexuais. "[Os casos] foram identificados em contexto de atendimento numa clínica de doenças sexualmente transmissíveis porque apresentavam lesões genitais. É verdade que são casos de homens que têm sexo com homens, mas essa pode só ter sido a forma como foi dado o alerta. Não está descrita, classicamente, a via de transmissão sexual [como passível de causar esta infeção]", esclareceu ontem, também, Margarida Tavares, diretora do Programa Nacional para as Infeções Sexualmente Transmissíveis e VIH.

Os primeiros cinco doentes confirmados eram todos do sexo masculino, jovens, e estavam estáveis, apresentando lesões ulcerativas. Quanto aos restantes nove a DGS não divulgou informações.

"São situações muito ligeiras do ponto de vista clínico, embora ainda estejamos a acompanhar a evolução", apontou Margarida Tavares, dizendo que ainda não foi identificada a origem do surto, mas que, dos que se sabe, os doentes "não viajaram do continente africano", nem terão "relação com os casos reportados no Reino Unido" - onde o primeiro caso confirmado foi de um homem que viajou da Nigéria.

Para já, nenhum dos doentes estará internado e estão todos a ser acompanhados, desde casa, por médicos do Centro Hospitalar Lisboa Central. "É uma doença relativamente benigna para os seres humanos", diz Jaime Nina.

rui.frias@dn.pt