"Acredito que o próximo Papa pode ser europeu, e mesmo italiano"

Mariano ​​​​​​​Fazio o número dois da Opus Dei não vislumbra uma renúncia do Papa Francisco, pese embora o estado de saúde débil, tendo em conta o facto de Bento XVI, o anterior Sumo Pontífice, ainda estar vivo.

Costumo dizer que é o meu melhor amigo, e não o digo por vaidade... é a realidade". Mariano Fazio, vigário auxiliar da Opus Dei e biógrafo do papa Francisco, acredita que o líder da Igreja "não vai renunciar", ao contrário das vozes que circulam cada vez com maior intensidade. Num encontro recente com jornalistas portugueses, em Roma, o número dois daquela organização católica justificou esta convicção "com o facto do papa emérito ainda estar vivo". Por outro lado, o sacerdote manifesta outra intuição. "Estou convicto de que o próximo Papa será europeu. Provavelmente até italiano, pois que há 400 anos não há nenhum papa de cá", afirmou.

A ligação de Mariano Fazio ao Papa Francisco é já longa. Une-os a Argentina, mas conheceram-se de perto em 2007, na assembleia dos bispos latino-americanos. Desses 21 dias em que dividiram o mesmo hotel haveria de frutificar uma amizade que dura até hoje, resultando nessa ligação que tornou Mariano no biógrafo de Francisco. À época, tratava-se apenas de Jorge Mário Bergóglio.

"Vivendo ali aquele tempo juntos, acabámos por nos tornar amigos", conta o padre Mariano, num fim de tarde de junho, à beira da Basílica de Sant"Eugénio. "No ano seguinte estava aqui, depois regressei à Argentina, e quando o Papa foi escolhido, voltei a Roma, e tenho vindo cá com muita frequência".

Das muitas histórias que partilhou com os jornalistas portugueses, o padre Mariano gosta de sublinhar uma em particular: "Um dia fui vê-lo, quando acabava de ter feito duas viagens, uma às Filipinas e outra à Costa do Marfim, e o Papa diz-me "vejo que estás a dar a volta ao mundo", e eu disse "sim, e aproveito muito para falar do santo Padre", ele do nada ficou sério, e disse-me: "aproveita para falar menos do Papa e mais de Jesus, ele é a centralidade aqui". Isso revela muito do que é a espiritualidade do Papa Francisco", sustenta.

"Sempre que precisei de uma voz amiga, ele esteve lá, tenho muitos amigos, e uns estiveram numas situações, outros noutras, mas ele esteve em todas", afirma Mariano Fázio, que faz questão de mostrar uma gravação áudio do Papa, enviada no último aniversário do padre, a felicitá-lo, pois que não atendeu o telefone por se encontrar a celebrar missa. Liga-lhe sempre, todos os anos, sem nunca falhar. "Depois ligou-me nesse dia, mais tarde, por volta das 16 horas, e quando eu ia atender fiquei sem bateria, e ele voltou-me a ligar uma terceira vez! É assim que se vê um amigo. Tenho uma experiência que me emociona, de uma amizade muito profunda com ele, uma amizade muito sincera, e tenho muitas histórias engraçadas com ele, que mostram o Papa como pessoa, o Papa como amigo", sublinha.

Ao ponto de se preocupar com a família, como fazem os amigos. "Em Novembro de 2020, em plena pandemia, a minha mãe caiu de uma cadeira que se partiu. E eu fui para a Argentina, ver como estava, e mandei uma mensagem ao secretário do Papa para ele comunicar isto ao Papa. E ele contactou-me assim que pode para saber como é que ela estava, como é que eu estava, esse tipo de coisas... depois fui para o Chile, encontrei um bispo da Opus Dei, e ele escreveu ao Papa a contar novidades sobre a recuperação da minha mãe. E o Papa respondeu, dizendo que ela iria ficar saudável "para marcar penalties em todas as partes!"".

Num ano marcado por uma série de infortúnios pessoais, que terminaram com a morte de um amigo de infância, a quem o Papa também conhecia bem, o padre Mariano teve sempre por parte de Francisco um consolo. "Em poucos meses, aconteceram-me uma série de momentos menos bons, e o Papa esteve sempre lá para mim, ele valoriza mesmo muito as suas amizades. É uma coisa um bocado argentina, nós lá celebramos o "dia do amigo", damos muita importância à amizade", afirma, revelando que "todas as vezes que pedi para falar com ele, ele recebeu-me".

Responder ao mundo com carisma

Mariano Fazio refere que o Papa tenta recorrer ao seu carisma para corresponder aos desafios do mundo contemporâneo, com dinâmica, para poder mudar o que pode ser mudado para melhor.

"Numa ocasião, falávamos dos desafios de um mundo crescentemente secularizado, eu referi que as pessoas precisavam de mais formação, que os processos eram mais lentos, e ele disse-me que só pedia aos cristãos que fossem como os primeiros cristãos, que pregavam e evangelizavam em sociedades pagãs, com base no seu testemunho e na sua vivência, na sua crença. É um ponto comum com o(s) fundador(es) da Opus Deis, cuja referência eram os primeiros cristãos", enfatiza o número dois da organização. A propósito, o vigário considera que a mesma está atualmente num processo de reestruturação, "a tentar expandir-se para outros países onde vamos regularmente mas não temos lá um centro nosso, como em Angola, por exemplo".

"Por um lado temos a falta de braços, e por outro lado, damo-nos conta que tínhamos uma estrutura demasiado "pesada" e com o desenvolvimento dos meios de comunicação agora podemos unir países mais facilmente, por exemplo, agora podemos ter uma reunião de trabalho, via zoom, mas ao mesmo tempo tentamos ter mais gente na rua, a ter contacto com a realidade do mundo. De resto, Mariano Fazio recusa a ideia de secretismo que em Portugal (e não só) gravita, por vezes, em torno da Obra - e que reconhece ter sido criada "muito à conta do livro de Dan Brow [O Código Da Vinci]".

"A nossa obra é pública, não é nenhum segredo que não possamos mostrar aos meios de comunicação", conclui.

dnot@dn.pt

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