Açores. Promover a região como um todo

Mais do que só divulgar a natureza, a gastronomia, o mar... arquipélago constrói uma comunicação integrada. E beneficia de eventos como o Festival internacional dos Açores que, após nove anos de pausa, regressa para (re)conquistar o público nacional e internacional.

O arquipélago não escapou incólume à pandemia. Como refere a Direção Regional do Turismo dos Açores o turismo na Região estava numa rota ascendente, a ganhar uma importância económica muito relevante. Em 2019, por exemplo, registaram-se se mais de 3 milhões de dormidas - o valor mais alto de sempre - "e as perspetivas eram de continuar a crescer muito significativamente em 2020, o que foi acompanhado, também, pelo crescimento da oferta". Infelizmente veio a pandemia e, com isso, houve uma quebra superior a 70% nas dormidas.

Curiosamente o posicionamento dos Açores, a par de ser o primeiro arquipélago do mundo certificado internacionalmente como Destino Sustentável tornou-se uma vantagem, dado o "novo" perfil do turista e uma maior consciencialização pelo meio ambiente. A prova está em que o "ano de 2021, mais concretamente o período de verão, superou muito positivamente as expetativas iniciais". Todas as medidas - sanitárias, vacinação, confinamento, etc - permitiram que os Açores fossem o primeiro ponto do país onde se registou a reativação da atividade de navios de cruzeiro. Por outro lado, e segundo informações da Direção Regional do Turismo dos Açores, a aposta no turismo interno e a criação da Tarifa Açores, que permite viagens interilhas para residentes a preço máximo de 60 euros estão a levar a que o público português esteja, na fase pós-pandemia, a descobrir os Açores.

Mas o selo da sustentabilidade não é a única "fonte" de turistas para a região. Este ano o arquipélago e nomeadamente a ilha do Faial teve uma ajuda extra. O Festival Internacional dos Açores. Um evento com renome nacional e internacional, que esteve ativo durante 15 anos e que, por vicissitudes profissionais dos dois organizadores, ficou em suspenso em 2012. A verdade é que, apesar disso, nove anos depois, quando regressou a sua fama no arquipélago continuava intacta. E isso notou-se não só no atendimento do público - é certo que o Festival decorreu na ilha do Faial, que houve certos constrangimentos ao nível da aquisição dos bilhetes e inclusive dos transportes aéreos para a ilha - mas também, e isto é importante, na aceitação por parte dos artistas.

Dizem que a música é uma língua universal. O que talvez explique o sucesso do Festival Internacional dos Açores. Isso e o facto de apostar em promover tudo o que de bom há no arquipélago e de fazer questão em envolver a comunidade. A prova está em que, mesmo depois de nove anos de interrupção - e de a pandemia ainda vigorar, com todas as suas restrições - o festival regressou em força.

Este é muito mais do que um simples festival de música. Porque envolve as comunidades musicais locais, porque mais do que ter concertos pretende dar a mostrar e promover o arquipélago. Nas suas várias valências. Como se fosse uma espécie de pacote promocional do que de melhor há nos Açores.

Tiago Nunes, diretor do Festival e simultaneamente da associação CULTURXIS - um grupo de jovens músicos de Coimbra que se entusiasmou e "pegou" no festival e lhe deu nova vida - não só não deixou morrer o festival como fez questão de retomar contacto com os fundadores do mesmo. O resultado? Adriano Jordão e Jorge Forjaz ficaram com o título de diretores honorários.

A explicação para a decisão do retomar de um festival já existente foi simples. "Não fazia sentido ficar parado no tempo", afirma Tiago Nunes, acrescentando que "não fazia sentido criar um novo nome se havia um festival que tinha tanta história", pelo que fazia mais sentido "continuar a dar-lhe vida".

E dar-lhe vida mantendo o espírito original. Uma festa de música que envolve outras atividades e que mostra a região onde o festival se realiza. Incluindo a interação com o Conservatório e com as crianças, através de ações de sensibilização e de workshops de música. Ou não fosse Tiago ele próprio músico - pianista para ser mais exata.

Mais do que música, uma missão

Tudo seria mais fácil se o festival fosse realizado em São Miguel. A infraestrutura já existe, é uma ilha mais populosa, com vários tipos de públicos, melhores acessos.... no entanto a escolha recaiu sobre o Faial. Por um lado pela ligação a Villa-Lobos, o compositor brasileiro, mas de origem faialense. Acontece que, na opinião de Tiago Nunes, o Faial já estava, há algum tempo, parado em termos musicais, e fazia falta um pequeno festival. Mesmo que não cause um grande impacto - consequências, principalmente, da pandemia - vai deixar a sua marca e ficar na memória de quem assistiu os concertos possibilitando o passa palavra para edições futuras. Para Tiago isso faz toda a diferença, nomeadamente no que concerne aos mais novos, dado que não é comum existir interação entre os artistas e os potenciais artistas de palmo e meio.

A edição deste ano já foi e a equipa já está a trabalhar na do próximo ano. "Será certamente noutra ilha, talvez não só numa ilha", refere Tiago Nunes. A localização ainda não está escolhida, mas, durante a conversa com o Diário de Notícias, o diretor do festival avançou com algumas possibilidades: Terceira e Faial ou Graciosa, São Jorge. Independentemente da escolha o certo é que o objetivo é "abrir o festival". E apostar, e muito, na promoção do evento nos mercados externos, principalmente naqueles onde há ligação direta (e histórica) com os Açores.

Mas Tiago tem uma ambição muito específica: retomar o auge das últimas edições do festival, em que ele circulou pelas várias ilhas do arquipélago. Porque os Açores não é só "São Miguel, só Terceira ou só Faial".

O poder do histórico

15 anos de história não se devem deitar fora. Devem ser aproveitados e potenciados. Principalmente quando, ao retomar um evento, se faz o contacto com o passado, ao ir "buscar" os dois fundadores e torná-los parte ativa da configuração do novo festival. E isso foi, nalguns casos, determinante. Regina Freire, soprano portuguesa, por exemplo, que participou no Festival Internacional dos Açores este ano, confessou, ao Diário de Notícias, que entre as razões que a levaram a aceitar o convite constaram nunca ter estado nos Açores, mas, principalmente, o poder trabalhar com nomes importantes do mundo da música. Quer com Adriano Jordão, com Luísa Tender... Além de fazer parte da história do festival. Do recomeço do festival. Além de que ter sido a única cantora a participar "é um privilégio muito grande".

Por outro lado, cantar obras de compositores portugueses (ou de origem portuguesa) no local onde viveram e nasceram "tem uma carga emocional e histórica" diferente, que não teria ao ser cantada noutro local.

Promover os Açores "lá fora"

Mais do que apenas levar (boa) música aos ilhéus o festival é, também, uma forma de promover o arquipélago no exterior. Seja pela qualidade dos músicos que compõem o programa - eles próprios promovem as ilhas ao divulgar onde irão atuar - mas também pela própria imagem criada, ao longo dos anos, pelo evento. Não é por acaso que a Direção Regional do Turismo dos Açores afirme que o evento, pelo seu cariz internacional, acrescenta, de forma natural, exposição mediática em vários potenciais mercados emissores. Ou seja, contribui para "aumentar a notoriedade do nosso destino, não só ao nível nacional, mas também internacional, nomeadamente no mercado brasileiro". Isto porque o programa deste ano foi dedicado a esse país. Por outro lado, "atendendo à excelência dos artistas e à relação afetiva dos mesmos com os Açores, a Região ganha um palco diferente de comunicação à escala internacional, sobretudo num mercado com caráter emergente, o Brasil, cujas afinidades histórico-culturais com os Açores mantêm uma expressão bem vincada através de uma diáspora que continua viva e que constitui, certamente, um veículo promocional".

Ou seja, há aqui uma interligação entre os objetivos do festival e o posicionamento do turismo dos Açores. "Este apelo à origem e à cultura açoriana integra-se na perfeição com o posicionamento da Região enquanto destino sustentável, que preserva e respeita o que de mais genuíno tem. Portanto, o Festival Internacional dos Açores poderá produzir vários impactos no turismo da Região, incluindo a diversificação da animação cultural, o aumento da notoriedade internacional, o efeito promocional direto e indireto, e o reforço do posicionamento do destino."

dnot@dn.pt

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