A "visão" digital que levou uma empresa à liderança mundial

Há 16 anos a Vision-Box lançou-se no mercado a converter sistemas de videovigilância para o digital. Hoje está em mais de 80 aeroportos internacionais com tecnologia de ponta e lidera o mercado

Estamos em 2001. Uma pequena empresa de software lança-se no mercado, dedicando-se à substituição dos antigos sistemas de videovigilância analógicos por novos equipamentos digitais. Saltamos 16 anos para a frente, até ao verão de 2017. A mesma empresa está no top 40 das que mais investem, internamente, em investigação e desenvolvimento (I&D). Internacionalmente, é líder de mercado em soluções digitais e biométricas para o controlo fronteiriço e processamento de passageiros. Está presente em mais de 80 aeroportos. Em julho, anunciou um acordo de três anos para equipar todos os aeroportos da Austrália com a sua tecnologia de reconhecimento facial.

"O céu é o limite" - divisa amplamente reproduzida nas paredes da sede da Vision-Box, em Carnaxide - não é apenas uma referência à aposta preferencial no mercado aeroportuário. Parece também a proclamação do cumprimento de uma meta que a empresa assumiu para si desde que se resumia a pouco mais do que os fundadores, atuais CEO e chairman, Miguel Leitmann e Bento Correia.

30% do mercado global

Não foi um voo sem sobressaltos. Miguel Leitmann recorda, sem conseguir esconder uma nota de nostalgia, quando os dois participavam em todas as fases do negócio, da montagem dos equipamentos à venda. "Não foi assim há tanto tempo. Na verdade, só há poucos anos não estamos envolvidos em todos os processos", conta, revelando que atualmente a empresa emprega "talentos, os chamados geeks de todas as áreas, do software e hardware às próprias vendas".

Mas também não têm dúvidas de que esta ligação integral a todos os aspetos da própria empresa contribuiu para o seu sucesso. Bento Correia lembra que tudo nasceu com a intenção de trazer para o mercado civil soluções que já existiam nas indústrias aeroespacial e da defesa. E o facto de ambos terem conhecimentos técnicos, associados a uma noção do que poderia resultar bem em termos comerciais, moldou a trajetória do negócio.

Por exemplo, na decisão de conceberem e montarem integralmente os equipamentos de reconhecimento biométrico e facial que hoje podem ser encontrados em aeroportos e muitos outros serviços - nacionais e estrangeiros - relacionados com a identificação de cidadãos, em vez de simplesmente concessionarem o software que desenvolveram. "Temos uma vantagem. Mostramos o valor acrescentado de uma forma que não é fácil de imitar para um cliente que só tem uma componente, uma peça de software. É um produto final, que tem toda a solução embebida."

Isso não significa que não tenham de se adaptar às exigências específicas de uma clientela muito especial: "A nossa forma de venda é muito específica", conta Miguel Leitmann. "Dizemos à pessoa: "Venha ter connosco, sentamo-nos à mesa com o cliente e desenvolvemos com ele a solução", conta. Ainda assim, admite, "80% a 90%" do produto acaba por ser baseado em soluções já desenvolvidas pela Vision Box. "Americanos, russos, bielorrussos, chilenos, ingleses, franceses, italianos, chineses..." contam-se entre as nacionalidades que regularmente lhes entram pela porta dentro.

No seu segmento, a empresa conta com uma quota 30%, liderando confortavelmente. "A empresa que vem atrás de nós, que é francesa, tem uma quota entre os 8% e os 9%." E com produtos, como a última versão do sistema Happy Flow, que permite a identificação do passageiro sem que este tenha de parar enquanto percorre uma passadeira, não será fácil destroná-los.

"Portugal é pequeno para justificar uma empresa como a nossa"

Bento Correia e Miguel Leitmann, fundadores da Vision-Box, assumem que a empresa foi pensada de raiz para se afirmar internacionalmente. O certo é que continuam a manter a base de operações e a recrutar no país. Explicam ainda como o know-how do que se fazia na indústria aeroespacial e da defesa lhes permitiu liderar no mercado civil.

Como é que, em pouco tempo, uma empresa de software criada em Portugal chega ao mercado internacional e lidera no seu segmento. Este crescimento foi pensado desde o início?

Bento Correia (BC) - Quer o Miguel quer eu, nenhum de nós trabalhou em projetos exclusivamente dedicados ao país. Eu fazia carreira de investigação, o Miguel foi lá para fora, teve outras empresas que criou também, mas sempre ligadas à atividade global. Portugal é um país muito pequeno para justificar a existência de uma empresa como a nossa. E hoje em dia no software também: qualquer atividade tem uma natureza global. Não faz sentido reduzir o alcance a um país tão pequeno como Portugal, com dez milhões de habitantes. É um bom país para se fazer experiências, para se testar ideias, para experimentar coisas mas depois para crescer e ir para fora. E de facto nunca esteve nos nossos planos autolimitarmo-nos ao país.

Foi uma empresa pensada de raiz para esse mercado global?

BC - Até pelo nome, que é uma marca criada para o mercado global, para a internacionalização.

E começa pelo software, que era onde tinham mais conhecimento acumulado, mas rapidamente inclui o hardware...

BC - Começa por uma tentativa de trazer para o mercado civil muitos dos desenvolvimentos que estavam a ser feitos ligados aos mercados aeroespacial e da defesa, como projetos de visão artificial, de deteção automática de objetos em imagens infravermelhas, planeamento da aterragem de uma nave não tripulada em Marte só com visão por computador, com câmaras estereoscópicas e lasers radar... a tecnologia começou a ter maturidade suficiente para trazer isto para o mercado civil. Os primeiros projetos essencialmente eram sistemas de visão artificial e começámos a aplicar isto em videovigilância. Eram coisas que já fazíamos para a indústria da defesa há 20 anos.

Tinham a vantagem de saber o que não existia no mercado civil e poderia ser bem-sucedido?

Miguel Leitmann (ML) - A nossa experiência permitia-nos vender soluções que estávamos confiantes que iam resolver [essas necessidades]. Este é um mercado de nicho, um mercado em evolução, o que os nossos clientes nos pedem geralmente não existe, portanto tem de haver algum à-vontade em termos tecnológicos de saber realizar e executar aquele projeto. E isso é mais ou menos o que nós temos vindo a fazer nos últimos anos. Além disso, conseguimos estabelecer standards dentro do mercado. Há três ou quatro anos que o mercado começou a estandardizar-se em termos de regras de jogo. Como é que eu automatizo um controlo de fronteiras.

No fundo, entraram no mercado quando este estava a começar a estruturar-se?

ML - É sempre a pergunta sobre o que é que está lá primeiro. Nós temos a sensação - podemos dizer a arrogância - de termos desenvolvido esse mercado. Esse mercado não existia quando começámos.

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