"A pólio era a doença que mais medo metia. Os filhos facilmente a podiam ter"

Graça Freitas, subdiretora-geral da Saúde, fala sobre a poliomielite, uma doença que os portugueses deixaram de ter há 30 anos mas que continua a matar no mundo

Um grupo de 155 países está a alterar a vacina contra a pólio. Portugal também?

São países que usam a vacina da pólio oral e com vírus vivo. Tem os três vírus (1, 2 e 3) e o 2 já foi erradicado do planeta. A vacina viva traz um risco muito pequeno de transmitir a doença e retirou-se o vírus 2 para não haver risco. Nos países desenvolvidos, como Portugal, há anos que usam a vacina inativada.

Que consequências tem a doença?

Manifestava-se de várias formas: pessoas que não tinham sintomas, outras que ficavam com sequelas graves - a paralisia infantil - que são para a vida inteira. Infelizmente, há casos em que as paralisias eram tão extensas que afetavam os músculos respiratórios e as pessoas podiam morrer. Era a doença que mais medo metia a todos, porque sabiam que facilmente os filhos a podiam contrair. A descoberta da vacina na década de 1950, uma viva e outra inativada, foi considerada um dos maiores avanços da medicina.

Portugal registou o último caso em 1986. Qual o impacto da vacina?

Entre 1954 e 1965 foram registados 2945 casos com paralisia e 345 mortes. E muitas aconteciam na infância. Até 1 ano registaram-se 67 mortes e até 2 anos mais 82. A 4 de outubro de 1965 lançámos uma grande campanha de vacinação que permitiu em dois anos vacinar mais de três milhões de crianças até aos 9 anos. A doença praticamente desapareceu num ano. Foi uma campanha incrível. Em todo o país instalaram-se dezenas de postos de vacinação, os padres tocavam o sino, a população juntava-se e chegavam os médicos e os enfermeiros. Muito do sucesso do Programa Nacional de Vacinação (PNV) deveu-se à pólio. Foi a primeira vacina a ser introduzida e de repente viram-se resultados.

Há risco de termos novos casos?

Faz em dezembro 30 anos que ocorreu o último caso. É pouco provável, mas enquanto existirem pequenas bolsas a probabilidade de casos importados para a Europa não é zero. Temos um programa de vigilância em funcionamento. Os médicos têm de notificar todos os casos de paralisia em qualquer pessoa que tenha até 15 anos. O caso é investigado até ser descartado.

A crise migratória eleva o risco?

A probabilidade é pequena. Mas uma das grandes recomendações é atualizar a vacinação e à cabeça está a pólio. Os refugiados que chegam estão vacinados, ou no país de origem ou no campo de refugiados onde ficaram. O risco é um pouco mais elevado, mas mantém-se pequeno.

Esta crise torna ainda mais importante o plano de erradicação?

A quantidade de dinheiro que ainda se investe para erradicar a pólio é imensa. Coloca-se a questão, a nível mundial, se vale a pena gastar este dinheiro para erradicar esta doença. Sim, vale. A varíola foi erradicada em 1980 e o vírus nunca mais apareceu. Queremos fazer o mesmo.

Após 1988, com a resolução para a erradicação da pólio, o número de casos desceu 99%. O que foi feito?

Nessa altura, muitos países mais pobres e menos desenvolvidos não tinham capacidade de comprar e montar campanhas de vacinação. A vacina oral exige uma rede de frio, pois fica facilmente inativada pelo calor. Em 1988 criou-se um movimento global, com financiamento de diversas instituições, que permitiu aos países mais pobres comprar vacinas e ter uma logística mínima para as administrar.

Afeganistão e Paquistão têm a doença. Que riscos traz?

Há uma tendência de controlo nessas zonas. Tem de haver um esforço dos governos para erradicar a doença. Se não houver fenómeno de guerra ou crise política vai ser possível chegar à eliminação e erradicação. Mas nunca estivemos tão perto. Este ano tivemos 14 casos.

Recentemente uma equipa de vacinação no Paquistão foi atacada.

Tem acontecido, mas também há o contrário. Países que fizeram tréguas para vacinar crianças de um lado e de outro. As campanhas dependem sempre da vontade e do apoio político. O que se espera é que os governos locais façam a sensibilização e arranjem forma de proteger os profissionais de saúde.

Nigéria, Síria, Iraque são exemplos recentes do difícil que é erradicar.

É por isso que todos concordam que vale a pena investir na erradicação. O critério para se considerar área erradicada ou eliminada é que nem o vírus nem a doença sejam detetados pelo menos três anos depois do último caso. Mantém uma vigilância e vacinação muito apertada porque estão há pouco tempo sem casos. Podem ser uma porta aberta e por isso precisam de ajuda internacional e têm de ter vontade de serem ajudados. Nunca estivemos com a situação tão controlada.

Estamos na Semana Mundial da Imunização. O nosso PNV mantém-se um sucesso?

Continua a ser, mas para se manter temos de estar sempre a analisar o comportamento dos vírus e bactérias, como se comportam as vacinas, se o número de doses é ótimo e a idade de imunização. Nos países mais ricos, onde ninguém viu estas doenças, há uma inversão da perceção do risco. Em Portugal não, mas há em alguns países um abrandamento da vacinação e pode ser por complacência. É uma atitude que temos de combater. Estamos protegidos porque nos vacinamos. Só a varíola está erradicada.

Vamos ter novas vacinas?

Estamos a estudar se a vacina contra o HPV deve ser mais abrangente, as vantagens e efeitos da vacina da meningite B. Estamos em fase de revisão da vacina da BCG, porque Portugal atingiu níveis de controlo compatíveis com a Europa e avaliamos a passagem de vacinar todas as crianças para apenas os grupos de risco. É o que faz a Europa inteira.

Exclusivos