A máquina de fazer fantasmas nasceu com o século XVII

O século XVIII levou a palco uma nova forma de apresentação teatral que explorava o horror dos espetadores. Almas penadas, fantasmas, a personificação da morte, entre outros temas do macabro, mereceram encenação nas fantasmagorias. Uma expressão de terror beneficiária dos desenvolvimentos nas técnicas de projeção de imagens ainda no século XVII.

Perto de um milhão de almas encontram a última morada nos 44 hectares do cemitério de Père-Lachaise em Paris, necrópole que recua as suas origens ao século XIX, com nome de batismo cunhado no jesuíta François de la Chaise, confessor do rei Luís XIV. Père-Lachaise compete em número de visitantes com alguns dos monumentos consagrados da capital francesa. O cemitério regista anualmente mais de três milhões de entradas na demanda das sepulturas de figuras com obras e feitos a granjear a imortalidade. Honoré de Balzac, Oscar Wilde, Cyrano de Bergerac, Eugène Delacroix, Jacques-Louis David, Auguste Comte, Maria Callas, Isadora Duncan, Frédéric Chopin, entre dezenas de outros ilustres, povoam o campo sagrado de Père-Lachaise.

Próximo do túmulo de Jim Morrison, vocalista da banda de rock The Doors, falecido em 1971, ergue-se o sepulcro de uma outra vedeta dos palcos que encontrou a morte em 1837. Étienne-Gaspard Robert, belga de Liège, homem do espetáculo, também inventor, suscita a peregrinação de um considerável número de curiosos e admiradores à vasta necrópole parisiense. Sob os glóbulos oculares despidos de vida de quatro crânios alados que encimam o túmulo, apresentam-se ao olhar do visitante dois painéis talhados na pedra. Uma das cenas, exorta a paixão e os feitos de Robert, pioneiro no balonismo, com 59 voos em balão de ar quente, entre eles um recorde de altitude, alcançado em 1803, ao subir nos céus acima dos 7.000 metros. Na face oposta do túmulo, esculpe-se um quadro de terror. A morte, figurada em entes fantasmagóricos, visita os vivos. Entre o público há horror, desmaios e fugas. O retábulo na sepultura de Étienne-Gaspard Robert é mais do que uma alegoria à vida e à morte, é a expressão dos espetáculos que o belga levou a palco ao longo de décadas, as fantasmagorias.

Robert, ou Robertson como era conhecido no meio artístico, afirmou-se na segunda metade do século XVIII, como expoente de um género de espetáculo ao qual, nos recursos e estratégias em palco utilizados, os primórdios do cinema virão a prestar tributo no final do século XIX, início do século XX. As fantasmagorias assumiam-se como uma forma de teatro de horror, assentes na projeção de imagens demoníacas, fantasmagóricas, acompanhadas de efeitos sonoros, por vezes odoríferos e, não raro, subjugando a assistência a choques elétricos, privação do sono, jejuns obrigatórios e ingestão de drogas. Como fim último, o de animar o público de condições emocionais orientadas para acolher com crença e temor toda a horda de entidades fantásticas que desfilavam em palco.

Na sua origem, os espetáculos de fantasmagoria foram beneficiários de uma invenção nascida ainda no século XVII, pelas mãos do padre jesuíta Athanasius Kircher. O

epidiascópio, mais tarde batizado de lanterna mágica, pelo dinamarquês Thomas Walgenstein, consistia num jogo de lentes e uma lâmpada de azeite, cuja ação conjunta projetava imagens pintadas em chapas de vidro. Vetusta forma de animação que propiciava projeções diáfanas, em fumo, condição primeira para as "aparições" em palco. A estas, somava-se um século XVIII que via nascer o Romantismo, a sua atração pelo bizarro e sobrenatural e o romance gótico com os seus segredos passados revelados, manuscritos ocultos, profecias, cortejo de personagens enredadas em castelos, ruínas, florestas e pântanos. Matéria-prima para criar no público a vontade de pagar pelo susto e, com este apetite mórbido, o surgimento de uma nova casta de empresários do espetáculo, os do teatro de horror. Entre eles, o francês Paul Philidor, conhecido no meio artístico como Phylidor, que em dezembro de 1792 anunciava o seu espetáculo de aparição de fantasmas. Numa França envolta nos temores suscitados pela Revolução de 1789, Phylidor encenou em palco, até 1793, com recurso à lanterna mágica, um espetáculo de sobrenatural com materializações em palco de personalidades do passado. Um sucesso parisiense que não encontrara, anos antes, aceitação em Berlim. Em 1789, Phylidor fora expulso da capital do Reino da Prússia, acusado de fraude. Viena, capital austríaca, rendera-se de 1790 a 1792 ao "domador" de fantasmas que, na época, beneficiava nas suas projeções da cintilação da lâmpada a óleo inventada, em 1880, pelo francês Aimé Argand, cujo brilho equiparava ao de dez candelabros.

A mesma Prússia que expulsava Phylidor, deixara-se ludibriar pelo apelidado "fabricante de fantasmas", Johann Georg Shrörfer, charlatão, dono de uma cafetaria, autor de alegadas sessões espíritas, aspirante a maçom, mais tarde rendido às fantasmagorias. Em 1774, Shrörfer encenou uma apresentação que fez história frente à corte, reunida no palácio de Dresden, espetáculo onde não faltaram atores, ventriloquismo, fumos aromatizados e espelhos côncavos. Assustador, mas ainda distante da apresentação que, perto de 20 anos volvidos, Étienne-Gaspard Robert, levaria a Paris, a um convento devoluto. Robertson desenvolvera, entretanto, o seu fantascópio, um engenho para "criar fantasmas" o que, na prática, se traduzia na adaptação da lanterna mágica a um engenho de quatro rodas. Expediente que permitia ao operador afastar e aproximar o projetor da tela o que imprimia a ilusão de movimento. Para o criador de fantasmagorias o espetador tinha de experienciar e estremecer perante o horror. Terror que atravessou o Atlântico, da Europa para os Estados Unidos à boleia de espetáculos encenados por discípulos de Robertson. Em maio de 1803, Nova Iorque conheceu a primeira apresentação de Fantasmagoria. A fronteira que avançava a oeste e todos os mitos e medos que albergava, nutriam de temor espetáculos como os de Martin Aubée, antigo assistente de Étienne-Gaspard Robert, entretanto obrigado a revelar os truques que usava em palco. Robertson respondia em tribunal após fazer aparecer em palco o espetro do monarca Luís XVI, executado em 1793. A população receava que o homem que reinventara a fantasmagoria resgatasse para a vida o rei deposto no decurso da Revolução Francesa. Em 1985, o cineasta belga Pierre Levie filmou Merci Monsieur Robertson, homenagem da Sétima Arte ao homem que um século antes do nascimento do cinema determinou alguns dos movimentos futuros da captação de imagem de que é exemplo o zoom.

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