"A imuno-oncologia pode ser a chave para a cura do cancro"

Bruno Silva Santos, vice-presidente do Instituto de Medicina Molecular, é um dos 30 especialistas que elaboraram o documento estratégico sobre a importância da imuno-oncologia em Portugal

Um grupo de 30 especialistas portugueses - entre médicos, investigadores, políticos - apresentam hoje publicamente e ao Ministério da Saúde um documento estratégico sobre a importância da imuno-oncologia em Portugal, a que chamam Consenso Estratégico. Deixam várias conclusões, como a necessidade de formação dos médicos e novas formas de medir o custo/eficácia dos tratamentos como a qualidade de vida dos doentes. Considerada uma das maiores inovações para a área do cancro, é a resposta para casos de doença avançada em que tratamentos como a quimioterapia não resultam. Os resultados são promissores - mais tempo e qualidade de vida -, mas os tratamentos são caros.

O que é a imuno-oncologia?

A imuno-oncologia (I-O) refere-se a estratégias terapêuticas de cancro baseadas na ativação do sistema imunitário. Em particular, os tratamentos atuais ativam os linfócitos T, um tipo de glóbulos brancos capaz de reconhecer células tumorais e de matá-las - com a grande vantagem desta resposta ser duradoura, pois os linfócitos T têm uma vida longa (ao contrário de drogas químicas como as usadas em quimioterapia).

Em 2013 foi considerada o grande avanço científico. É a chave para a cura do cancro?

A grande mudança nestes 15 anos foi a descoberta dos mecanismos usados pelo tumor para "parar" os linfócitos T e o desenvolvimento de fármacos que bloqueiam esses mecanismos, permitindo assim a ativação dos linfócitos T e a sua função anti-tumoral. A I-O pode ser a chave para a cura devido à durabilidade da resposta dos linfócitos T, que pode dificultar o "regresso do tumor" - note-se que a recaída/ recidiva de tumores que resistem à terapia é o grande problema em muitos tipos de cancro.

Quais as principais conclusões do documento que vão apresentar?

A inovação e o valor que a I-O representa; a sua aplicação no tratamento do cancro - respostas clínicas, efeitos secundários, qualidade de vida dos doentes; a fase ainda precoce da utilização dos fármacos disponíveis, com necessidade de conhecer biomarcadores (parâmetros que permitam prever a resposta) para a seleção dos doentes que possam beneficiar da I-O; a necessidade de formação em I-O dos profissionais de saúde; a necessidade de um registo oncológico nacional único onde a administração e monitorização da utilização destes fármacos seja gerida; necessidade de reestruturação do SNS tendo em atenção o impacto do cancro numa população em envelhecimento.

O que esperam que possa acontecer com base neste documento?

Uma discussão alargada entre os vários intervenientes, questionando os recursos disponíveis, a distribuição desses recursos, os custos associados, o sistema de gestão da I-O a nível nacional.

O grupo faz uma recomendação em relação aos custos.

O Consenso salienta que existe um subfinanciamento da oncologia e iniquidade do tratamento de acordo com a área de residência. Indexado, está o subfinanciamento do SNS como um todo. Salienta que o preço da medicação deverá ser alvo de negociação com as farmacêuticas para que se encontre um equilíbrio sustentável.

A imuno-oncologia é inovação real?

Sem dúvida. Revolucionou o tratamento do melanoma avançado, está a dar esperança a um grupo de doentes com carcinoma do pulmão, e na investigação clínica há resultados notáveis em leucemia, entre outros. Os mecanismos por detrás destes sucessos são inovadores - por exemplo, os "checkpoints imunes" foram descobertos recentemente e deverão dar o Prémio Nobel da Medicina aos respetivos cientistas, encabeçados por Jim Allison. É uma mudança de paradigma que produz resultados clínicos.

Quem pode beneficiar realmente com estes tratamentos?

Para já, a evidência é clara para melanoma e carcinomas do pulmão e do rim; os resultados clínicos em bexiga e cabeça/ pescoço também são promissores. Muito outros estudos estão em curso. Mas é importante salientar que além dos fármacos já disponíveis, há uma longa lista de inovação a ser testada. Por exemplo, as chamadas imunoterapias celulares, baseadas na injeção de células em vez de anticorpos, está a ter muito sucesso em certos tipos de leucemia.

Quais os ganhos que se conseguiram até agora?

Os resultados são variáveis, dependendo do tipo de cancro. Os melhores são com o ipilimumab, para o tratamento do melanoma, com doentes vivos há dez anos que estariam sem perspetiva de vida ao fim de dois anos. É um grande avanço. Existem efeitos secundários, mas são controláveis e desaparecem ao fim de algum tempo. São reações do foro autoimune, como alguma dificuldade na função hepática. Mas temos comprimidos para controlar essa situação. São efeitos em nada semelhantes aos da quimioterapia.

Está a ser praticada em Portugal e com que resultados?

Sim, a experiência é sobretudo com ipilimumab, com resultados semelhantes aos internacionais, nomeadamente no tratamento do melanoma avançado. E há diversos ensaios clínicos em curso em instituições hospitalares portuguesas, dos IPOs ao Hospital de Santa Maria.

O Consenso refere a diferença de resultados dos ensaios e a necessidade de haver mais informação sobre efeitos secundários. Esta pode ser uma solução menos segura do que se pensa?

Não é uma questão de ser menos segura - os efeitos secundários são invariavelmente do foro inflamatório e autoimune, geralmente controláveis. Mas precisamos de ter uma história de avaliação a mais longo prazo para documentar esta segurança e a melhoria da qualidade de vida atribuída à I-O.

Porque é que existem doentes, nas mesmas circunstâncias, que não obtém resultados?

Ninguém é igual a outra pessoa, sobretudo no que ao sistema imunitário diz respeito. Por isso as respostas são heterogéneas. Faltam-nos biomarcadores que nos esclareçam o que é comum aos doentes que beneficiam e que os distingue dos que não respondem às estratégias de I-O atuais.

O que está a acontecer em investigação nacional e internacional?

Imensa coisa. Em traços gerais procuram-se novos anticorpos para ativar os linfócitos T e estuda-se o potencial de expandir e ativar populações especificas destes no laboratório, para depois serem injetadas nos doentes. Há uma diversidade de estratégias possíveis, e cada uma poderá ser mais indicada para um tipo de cancro. Acredito que teremos vários tratamentos inovadores de I-O a surgir na próxima década.

O consenso diz que a maior inovação não são os medicamentos caros, mas a redução dos fatores de risco, como o tabaco. Porque é que não se tem apostado na prevenção com investimento a sério?

Vou dar uma opinião muito pessoal, em nada vinculada no Consenso: porque o ser humano não é suficientemente racional - e gosta de arriscar (mesmo a sua saúde). Toda a gente sabe os malefícios do tabaco, que é a maior causa de cancro, que no caso do pulmão aumenta imenso a probabilidade de desenvolver cancro... Os maços de tabaco não podiam ser mais explícitos... E os fumadores continuam. As pessoas não se importam de arriscar a sua vida, e acham/ esperam que o mal só surja aos outros... Isto não é exclusivo do eixo tabaco/ cancro, veja-se o que está a acontecer com o aumento do sexo desprotegido e a subida dos indivíduos infetados por VIH. Por isso não tenho grande fé em maior sucesso de campanhas de prevenção.

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