A amazona que deixou o Uruguai para realizar sonho paralímpico

Alfonsina Maldonado tem 31 anos e está há dois em Portugal. Dentro de uma semana, estreia-se com o cavalo Da Vinci de Cal Rey na 'paradressage', no Rio de Janeiro

Uma vela acesa colocada junto ao berço de Alfonsina Maldonado, numa noite de tempestade em que tinha faltado a eletricidade na sua terra natal no Uruguai, mudou-lhe a vida. Ela tinha seis meses e, claro, não se lembra do incêndio, mas repete quase como se fosse uma lenga-lenga as consequências: "Estive 32 dias em coma, um ano e meio numa incubadora e, até aos cinco anos, com interrupções, internada no hospital com tratamentos muito duros." Hoje, com 31 anos, continua a fazer tratamento - "tenho dores constantes, sempre" - mas o seu rosto não é de alguém em sofrimento. O sorriso é um misto de nervosismo e de felicidade por estar à beira de cumprir um sonho: participar nos Jogos Paralímpicos na disciplina de dressage, na qual cavaleiro e cavalo parecem dançar na arena.

A paixão por estes animais já vem de pequena. A família sempre viveu no campo, perto da cidade de Florida, e o avô era fanático por cavalos. "Contam que depois do acidente ficava doente e com febre porque queria andar a cavalo", diz durante uma pausa do treino no Hipódromo da Bairrada, no concelho da Anadia, onde vive há dois anos. Sentada na cozinha de armários azuis da Casa do Cruzeiro, recorda que "sem consciência", dizia ao cirurgião que "quando fosse grande" representaria o Uruguai. "Ele dizia que para isso tinha que me deixar curar. Então eu relacionava a cura com sair do hospital, andar a cavalo e cumprir o meu sonho. Era uma motivação extra para esquecer a dor."

Então pensei, não me interessa, o mundo é muito grande e vou cumprir o meu sonho

Mas chegar aos Jogos Paralímpicos, como agora no Rio de Janeiro, seria impossível ficando no Uruguai. "Não era de uma família com um estatuto económico alto e o desporto é muito elitista. Além disso, não tinha cavalo e não há treinadores. Então pensei, não me interessa, o mundo é muito grande e vou cumprir o meu sonho." Alfonsina tinha 21 anos quando deixou o Uruguai com o curso de técnica agropecuária e de equinoterapia (terapia com cavalos). O destino foi Barcelona. "Fui sem conhecer nada nem ninguém. Foi duro. Os primeiros dois anos que estive em Espanha trabalhava de forma gratuita a troco de casa, comida e um treino por dia."

Foi em Espanha, já depois de ter falhado a ida aos Jogos de Londres de 2012, que conheceu o português Francisco Cancella de Abreu que disse que a treinaria para o Rio de Janeiro. "Então vim para aqui para poder estar na sua casa e treinar com ele, era uma oportunidade única. Ele é um supertreinador, muito conhecido", diz Alfonsina. A aposta resultou e a cavaleira conseguiu qualificar-se para os Paralímpicos, onde se estreia no próximo domingo. E o sonho, que começou por ser só dela, de repente é o sonho de todo um país. O Uruguai vai estar pela primeira vez representado na dressage e, para os uruguaios, Alfonsina é uma estrela.

Afinal, é possível fazer o desporto mais caro do mundo sem ter sequer dez euros na tua carteira

Envergonhada, a cavaleira conta que o seu rosto está nos autocarros do país. Tudo por causa do cartaz de promoção do livro El desafio de vivir , que a editorial Planeta a desafiou a escrever. É uma biografia motivacional, uma versão alargada das palestras que dá. "Envolvi todo o país neste sonho. As pessoas escrevem-me, ligam-me. E a minha mensagem é sim, podes cumprir os teus sonhos apesar das dificuldades. Só tens que te esforçar, esforçar, esforçar", repete, acrescentando a rir: "Afinal, é possível fazer o desporto mais caro do mundo sem ter sequer dez euros na tua carteira."

Nome de artista, ADN de campeão

O cavalo hanoveriano Da Vinci de Cal Rey tem nome de um dos mais famosos artistas do renascimento e o ADN de um campeão. É filho de Desperados, que montado pela cavaleira alemã Kristina Broring-Sprehe, juntou há dias no Rio de Janeiro a medalha de bronze na dressage individual e a de ouro por equipas ao título de campeão do mundo e da Europa. Mas o sangue não se vê quando Alfonsina treina com ele alguns passos no picadeiro, usando uma ligadura no braço danificado pelo incêndio e umas rédeas especiais, ou tenta que fique quieto para as fotografias, no meio das moscas que teimam em rondar.

Da Vinci tem quase dez anos e é filho de um campeão, mas Alfonsina só o começou a treinar há ano e meio. Ela sonha com a medalha, mas o treinador é mais realista e diz que uma posição "a meio da tabela" é muito boa tendo em conta as circunstâncias. Em Espanha, Alfonsina começou a competir com Fandango e, já em Portugal, a aposta era Zig-Zag Da SasaJe. Mas quando iam começar as provas de qualificação, o cavalo lesionou-se.

É um cavalo que não te permite erros, que se estás nervosa ele bloqueia

Foi então que surgiu Da Vinci: 600 kg (ela tem só 48 kg), 1,82 metros de altura na cernelha (ela nem lhe chega aos "ombros") e uma personalidade muito difícil. "É um cavalo que não te permite erros, que se estás nervosa ele bloqueia e não faz os exercícios... É muito difícil entrar numa prova paralímpica e não estar nervosa", desabafa. O nervoso é ainda maior porque, na tribuna, vão estar os pais. "Eles nunca me viram numa prova. Vai ser a primeira vez." Ela já lhes disse que não quer saber onde vão estar sentados, para não cair na tentação de os procurar e não conseguir concentrar-se. "É melhor beber uma caipirinha antes..."

Verdadeiros heróis

Por causa do stress e dos nervos, Alfonsina admite que houve alturas em que apanhou "broncas" do treinador. E que sentir-se assim a deixou com raiva. "Pensei, como posso sentir-me assim se vou cumprir o meu sonho, como posso não me concentrar?" A solução foi fazer silêncio, tentar acabar com a pressão e pensar em desfrutar da experiência do Rio de Janeiro. Até porque sabe que vai estar rodeada de heróis.

"Chateia-me que os media não deem a mesma atenção aos paralímpicos que dão aos atletas olímpicos", desabafa, dizendo que são os primeiros que têm não só de enfrentar a sua deficiência, mas enfrentar o desporto com muitas dores. "Porque todos têm muitas dores", defende, explicado que "os paralímpicos são os verdadeiros desportistas". Por isso, para Alfonsina, os jogos que começam já na quinta-feira, no Rio, são "as olimpíadas dos heróis reais".

Os paralímpicos são os verdadeiros desportistas. Estas são as olimpíadas dos heróis reais

Mas o que se faz depois de cumprir um sonho. "Não sei o que vai acontecer depois, o futuro é totalmente incerto", conta. A sua filosofia é simples: "Temos que aprender a viver o aqui e agora, o hoje." No amanhã, não está fora de hipótese poder voltar para o Uruguai. "Estou sozinha há dez anos, com muita solidão, são dez anos em que renuncias a tudo por um sonho e também quero alguma tranquilidade." Mas será que isso significa desistir de estar dentro de quatro anos nos próximos Jogos Paralímpicos? "Ainda falta muito para Tóquio, falta muito para o campeonato do mundo e tudo pode acontecer." O Da Vinci, que a dona estará a pensar vender o que implica que Alfonsina terá que procurar outro cavalo, chegou quando faltavam cinco meses para terminar as classificações. "O universo saberá."

Fama internacional

Depois de ter interrompido as palestras motivacionais para se concentrar para os Jogos, Alfonsina já tem uma marcada para 600 pessoas. Surpreende-se sempre que as pessoas queiram ouvir a sua história. "Há umas semanas recebi um e-mail com um espanhol muito estranho e era de um jornal alemão. Pensei, engaram-se na pessoa. Eles têm os melhores atletas em tudo, sobretudo em equitação, e pensei que se tinham enganado no cavaleiro." Mas não era engano. "O meu contacto tinha sido dado pela FEI [Federação Equestre Internacional], que lhes disse que eu tinha uma história incrível. Surpreende-me porque não me chamam pelos resultados, mas pela minha história e trajetória".

Surpreende-me porque não me chamam pelos resultados, mas pela minha história e trajetória

Em breve, o seu livro estará também traduzido em inglês. "Quando a editorial Planeta falou comigo e pediu que escrevesse o livro eu disse que não era escritora, mas já era um prestígio pensarem em mim". No final, levou mais de um ano e meio a escrever com a ajuda de um tutor. "É muito difícil e intenso relatares a tua própria vida." O sucesso do livro no Uruguai, onde em 2014 foi nomeada "atleta do ano", não devia tê-la surpreendido, mas surpreendeu. "Quando fui lançar o livro no Uruguai fiquei seis dias no país. Ao terceiro dia, fui a uma livraria num centro comercial perguntar pelo livro e estava esgotado. Fiquei super feliz. É incrível a repercussão que teve."

Apesar de ser conhecida no seu país, ainda hoje é alvo de discriminação: "Ainda hoje as pessoas olham." Não será como no primeiro dia de colégio, quando uma colega olhou para ela e lhe chamou "maneta de merda". Contudo, Alfonsina ainda recorda quando foi pedir apoio a uma marca de desodorizantes e, na reunião de marketing, lhe perguntaram porque a deviam apoiar. A sua resposta foi simples: "Porque a mim me falta uma mão mas também uso desodorizante. E vocês esquecem-se que não são só as raparigas bonitas e perfeitas que usam desodorizante. E têm que mudar a atitude em relação a isso."

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