A alegria de ter um coração cheio de amor, não de relíquias

É de amor que se fala nesta coluna. Histórias verdadeiras, contadas pelos leitores. Um exclusivo DN/The New York Times

Desde há um ano que não sou capaz de entrar numa livraria sem ver a capa azul e cor de areia do livro best-seller de Marie Kondo, Arrume a Sua Casa, Arrume a Sua Vida. A sua publicação coincidiu com a minha decisão de começar a preparar-me para uma nova vida noutro lugar, qualquer lugar que não fosse São Francisco.

Com isso em mente, comecei a reparar em inúmeros artigos online sobre destralhar, a maioria dos quais repetia sentimentos zen semelhantes aos do livro de Kondo: "Compre experiências e não coisas." "Guarde apenas as coisas que inspiram alegria."

A calma que transmitem deixa--me doente de ansiedade.

Tenho tentado obedecer a estes princípios e diminuir os meus pertences, inspirada pela promessa distante de uma nova vida e por um não tão recente namorado com tendências minimalistas. Noutra vida, ele poderia ter sido o autor daqueles artigos.

Com o incentivo dele vendi as minhas luvas de boxe, o meu teclado e a minha bicicleta. Eliminei todos os passatempos que não podem ser facilmente transportados através das fronteiras. Vendi ou doei a maior parte dos meus livros e roupas, até a minha cama. Quero ter a certeza de que quando fugir finalmente para construir a minha nova vida secreta tudo o que possuo vai caber numa mala de ca-bina.

Foi assim que, há alguns meses, dei comigo a vasculhar o meu roupeiro à uma da manhã, com a mão pousada sobre o ombro de uma gabardina traçada cor de malva. Há quatro anos gastei 35 euros para a adaptar aos meus ombros estreitos, o valor mais elevado que alguma vez tinha gasto numa única peça de roupa. Desde então, só usei o casaco meia dúzia de vezes, e arrependi-me sempre enquanto tremia no nevoeiro da noite de São Francisco, com o tecido fino a absorver o calor do meu corpo e o capuz destacável a voar da minha cabeça. E, no entanto, continuava a guardá-lo, com um sentimento de culpa, no fundo do roupeiro durante todos estes anos.

"Guarde apenas as coisas que inspiram alegria", lembrava a mim mesma. "Mas tu não compreendes", apetecia-me responder.

Anos atrás, admirara aquele casaco na minha mãe, quando era suficientemente pequena para desaparecer dentro dele. Quando procurava fotografias antigas da minha mãe - um passatempo favorito da infância - lá estava ela naquele casaco, à frente da universidade onde em tempos tinha trabalhado, empoleirada numa rocha nas cataratas do Niágara, sempre a sorrir, feliz, apesar das dificuldades por que tinha passado na China, onde tinha sido condenada a trabalhos forçados e, depois, como imigrante com o meu pai nos Estados Unidos.

No dia da cremação da minha mãe levei uma caixa com as suas roupas favoritas para as levar com ela. "Para o caso de ter frio", expliquei ao funcionário da agência funerária. Incluí o vestido comprido de flores que usou para ir a Nanjing visitar o irmão que não via há 24 anos, uma camisola vermelha que usara durante dias a fio, uma camisa de seda suave. Mas tinha ficado com este casaco. Não podia livrar--me dele agora, não por uma razão tão frívola como destralhar. O casaco fazia parte do memorial que eu tinha construído e de que só agora me estava a começar a aperceber.

Havia outros objetos: o tubo do batom de cieiro com sabor a morango que a minha mãe tinha usado no hospital, blusas que o meu desgosto tinha tornado demasiado grandes para eu vestir, um garrafão de plástico com 500 origamis que tinha feito durante a elaboração da minha tese. Tudo aquilo eram coisas que tinham sido compradas ou feitas com muito amor, que tinham ainda mais significado por, em tempos, termos tido tão pouco.

Lembrei-me como, há menos de uma década, a peça de roupa mais cara que alguma vez tinha comprado tinha sido o vestido para o baile de finalistas, um vestido tipo saco, cor de pêssego, que me assentava mal e que eu encontrei nuns saldos por 13 euros e, mesmo assim, tive de pensar muito antes de o comprar. Nessa vida antiga, as coisas materiais representavam o amor e, agora, estes objetos restantes eram tudo o que eu tinha.

A minha mãe foi a minha primeira melhor amiga, o que é uma maneira ridiculamente inadequada de dizer que era o meu mundo, de uma maneira terrível e, de alguma forma, pouco saudável. Eu não era próxima do meu pai, que sempre tinha sentido como distante e desaprovador.

Em criança, detestava as amigas da minha mãe que a criticavam, não compreendendo ainda a diferença entre o insulto e a brincadeira. Mais tarde, fingia gostar de vinagre para ser mais parecida com ela. Na escola secundária dizia aos meus amigos que não podia sair com eles porque preferia conversar com a minha mãe. Na faculdade, eu era "independente" porque sabia que lhe poderia ligar, em vez de a outra pessoa, e ela nunca me iria julgar muito severamente.

Tinha 15 anos quando ela ficou doente e 19 quando morreu. Durante esse período, muitas das minhas outras amizades tornaram-se distantes e estranhas, e eu era muito imatura e estava demasiadamente preocupada para sair com rapazes. Licenciei-me dois meses depois e apareço nas fotografias com um sorriso falso e amigos que já não me diziam nada. Os conflitos sobre os cuidados de fim de vida da minha mãe tinham-me afastado ainda mais do meu pai. Agora não tinha ninguém e receava nunca mais vir a ter ninguém na minha vida. Quem poderia compreender-me ou amar-me tão plenamente?

Quando voltei a casa da faculdade, pela última vez, não havia nenhum pequeno embrulho em cima da minha cama, não havia blusas de seda em segunda mão, nem gardénias perfumadas flutuando numa taça com água. Não havia nenhuma voz bondosa para colmatar a distância entre o meu estoico pai e a sua zangada e desgostosa jovem filha.

Nesse último ano de vida da minha mãe, tinha tentado evitar pensar sobre o que estava a acontecer rodeando-me de coisas novas. Enchi a minha mesa com origamis. Pesquisei e comprei coisas online, um monte de objetos baratos mas bonitos, para substituir os que a minha mãe me dava antigamente. Pelo menos, enquanto navegava na internet e, depois, quando recebia a encomenda daí resultante, vivia um pequeno momento de euforia.

Sempre que me sentia triste ou ansiosa e não queria pensar, abria o meu computador portátil, procurava as secções de saldos das lojas online e acrescentava itens desejáveis ao meu carrinho virtual. Este hábito durou anos, enquanto passava as minhas noites na pós--graduação a tentar entorpecer a minha tristeza e a minha solidão com camisas de cambraia e vestidos florais, da mesma maneira que outros abusam do álcool ou da heroína. Dias difíceis no laboratório eram seguidos de encomendas à minha porta.

A primeira vez que uma das minhas cobaias experimentais morreu, eu vi naquele rato moribundo os últimos momentos da minha mãe. Em resposta a isso fui chorar para a casa de banho e, em seguida, comprei um vestido de renda às flores. Quando tive de injetar 40 tumores no mesmo número de ratos, comprei a minha primeira camisa de ganga.

A minha longa recuperação, depois de ter sido hospitalizada com uma pneumonia, levou a inúmeros pares de brincos e batons baratos. O fim do meu primeiro amor não correspondido criou um desejo repentino por novos ténis de corrida. Uma noite, enquanto estava sentada a chorar à frente de um microscópio sem uma boa razão, encomendei o meu primeiro par de calças de treino.

Nesses dias da minha pós-graduação acordava muitas vezes a horas estranhas, apesar da terapia de compras. Sentia com frequência a minha cara molhada na almofada e percebia que tinha sido apenas um sonho, a minha mãe continuava morta e tudo que eu podia fazer era rabiscar poemas no meu diário até ficar cansada de dar ouvidos ao meu próprio pesar. Quando a escrita não era o suficiente para me acalmar, navegava por mais uns quantos catálogos online e dobrava mais uns origamis até sentir as mãos dormentes. Adicionei todas essas coisas ao memorial.

Ao longo desses quatro anos, acumulei um armário cheio de roupas frívolas, dissequei um número deprimente de ratos, escrevi mais de cem poemas e dobrei 500 origamis. Enquanto isso, sofri de doenças, traumas e desgostos de amor suficientes para compreender finalmente que a vida vai continuar a avançar inexoravelmente, mesmo que, por vezes, de forma terrível. Estou a começar a perceber que ela também consegue ser deliciosa, se deixar. O meu amor não diminui se deixar cair a tristeza. Estou quase pronta para acreditar nisso.

Com a ajuda do tempo, da distância e, a contragosto, do lembrete de Kondo para guardar apenas o que "inspira alegria", estou finalmente a conseguir separar-me das minhas relíquias e avançar em direção a uma vida que sinto como minha. Doei as blusas que não me serviam e as compras por impulso. Deitei fora o batom de cieiro da minha mãe. (Ainda estou a trabalhar no casaco.)

No mês passado esvaziei o garrafão de cinco litros cheio de origamis e queimei-os numa fogueira numa praia de São Francisco. "É um ritual de limpeza", explicava o meu namorado aos estranhos que passavam enquanto eu atirava, um a um, aqueles 500 origamis para as chamas.

Ao observar as suas asas carbonizadas a lançarem centelhas cor de laranja na luz azulada do crepúsculo, lembrei-me de um filme que tinha visto com o meu namorado no início do nosso relacionamento. Na cena de abertura, monges budistas erguiam as mangas das suas vestes cor de laranja para construir uma intrincada mandala de areia colorida, colocando no lugar um grão microscópico de cada vez, um processo que demorou semanas.

Quando a mandala ficou completa, eles varreram a imagem e começaram de novo.

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