"O cosmopolitismo das cidades é bom para a saúde mental"

O historiador inglês percorreu bibliotecas e viajou milhares de quilómetros para concluir que, da Mesopotâmia às megalópoles, as cidades mais vibrantes e poderosas são aquelas que têm tudo à mão e que são capazes de atrair a maior percentagem de forasteiros.

Depois de ter detalhado a luta pelas liberdades civis (What Price Liberty?), a ascensão e declínio da marinha britânica (Empire of the Deep) ou a década de 1850 (Heyday: The Dawn of the Global Age), o londrino Ben Wilson dedicou-se ao progresso da urbe em Metrópoles - A história da cidade, a maior criação da civilização. De Uruk, na Mesopotâmia, à nigeriana Lagos, passando por Lisboa, o historiador pega na mão do leitor e mergulha-o numa história que é, também, a da humanidade.

O que o levou a escrever Metrópoles?
Vários motivos. Uma razão era sobre o que estava a acontecer no mundo pré-pandemia, a ascensão de um certo tipo de cidade global que estava a tornar-se predominante. A ambição do livro cresceu à medida que fui explorando o território. Fui questionando as condições da urbanização não só pelo mundo fora como ao longo do tempo. Tornou-se claro para mim que a cidade representa o futuro e que é necessária uma reavaliação para ajudar-nos a compreender em que ponto estamos.

"As melhores cidades, como Tóquio ou Hong Kong, têm um emaranhado de usos, têm tudo o que é necessário perto, não só necessidades materiais, mas de coisas pelas quais vale a pena viver."

Em cada dia chegam 200 mil pessoas às cidades de todo o mundo. Dá a entender que isso não é necessariamente mau. Porquê?
Quando se falava, durante a pandemia, na saída das pessoas da cidade, ou sobre o futuro da cidade pensava para comigo que isso eram problemas de luxo do norte quando, na realidade, o nosso tempo é caracterizado por migração em massa para as cidades. Porque vão para as cidades? Porque menos pessoas trabalham na agricultura, passou de 47% para 28% em 20 anos. Do ponto de vista individual, os migrantes beneficiam das cidades. Os filhos têm taxas de literacia maiores, têm melhores perspetivas de emprego e melhor acesso à saúde. A esperança média de vida cresceu fortemente em paralelo com a urbanização, tal como o crescimento da classe média. E não só do ponto de vista pessoal, para muitos países a urbanização é o caminho rápido para sair da pobreza. O progresso económico urbano tornou-se uma característica chave no mundo desde a década de 1980. Muitas pessoas não vão para as cidades, são as cidades que vão ter com as pessoas, ao crescerem de forma tão rápida que engolem a paisagem semi-rural, semiurbana e esta mudança rápida de habitat, esta ligação entre cidades e áreas rurais, está a tornar-se numa parte central da paisagem global . É profundamente preocupante a forma como se está a urbanizar, não tanto pela quantidade de pessoas que chega às cidades; é a forma como se está a organizar e a velocidade a que se produz, uma urbanização cada vez mais rápida do que as infraestruturas e que põe em causa espaços de biodiversidade. No futuro penso que iremos assistir a uma urbanização bem feita porque fará parte da luta contra as alterações climáticas. As cidades criam muitos problemas pelos recursos que gastam e pela pegada carbónica, mas criam muitos empregos. Grande parte da força de trabalho não é oficial, é a economia cinzenta do urbanismo faça-você-mesmo, com pessoas a fornecerem e a suprirem as falhas dos governos locais, no transporte, no que for necessário, em especial em África.

Uma das maneiras de combater as alterações climáticas, segundo escreve, é tornar os subúrbios mais densos em habitação, mas também com serviços para que as pessoas se desloquem a pé. Esta é a chave?
Creio que é uma parte muito importante. As cidades têm muito a perder com as alterações climáticas. Num clima mais instável, com aumento de temperatura, chuvas mais fortes, áreas urbanas maiores, torna-se muito perigoso, em especial nos países pobres. As cidades podem combater isto de várias formas. Uma delas é usar a chamada infraestrutura verde, com áreas verdes, fornecer cursos de água naturais para absorver o excesso de água, plantar árvores para baixar a temperatura. Em termos de baixar a pegada carbónica, a única maneira é viver de forma mais sustentável. E o que faz cidades como Deli ou Pequim menos habitáveis é a poluição dos automóveis. Viver nos subúrbios torna as pessoas mais gordas e não é bom para a saúde física nem mental. O objetivo dos subúrbios era serem a anticidade por vários motivos, entre as quais segregarem: aqui é o sítio para trabalhar, ali para comprar e acolá para viver. As melhores cidades, como Tóquio ou Hong Kong, têm um emaranhado de usos, têm tudo o que é necessário perto, não só necessidades materiais mas também culturais, de desporto, de boa comida ou de café, de coisas pelas quais vale a pena viver. A densidade e o cosmopolitismo das cidades é bom para a saúde mental, em especial quando se é novo, é uma grande experiência. Isso faz parte da sustentabilidade, é o outro lado da moeda de plantar árvores ou de criar áreas verdes. Portanto, é pensar de uma forma urbana e estendê-la a lugares que víamos como o oposto da cidade. Há um grande apetite da geração millenial de evitar os custos da cidade, mas de manterem um estilo de vida urbano num bairro caminhável.

"Ser uma cidade aberta é duro, não se realiza sem custos sociais. Lisboa é um exemplo acabado, foi quase uma cidade-estado com o seu cosmopolitismo em oposição aos valores da cruzada."

A primeira cidade que se conhece, Uruk, foi fundada e depois conheceu o declínio graças em parte às alterações climáticas. Devemos sentir esperança ou desesperança em relação às nossas capacidades para enfrentar as mudanças?
Essa é a questão. As cidades são adaptáveis e é isso que quero transmitir ao longo do livro, é essa capacidade de continuar a adaptar-se e a sua resiliência. Mesmo em cidades que foram quase apagadas da face da terra como as da Mesopotâmia, ou Varsóvia e Hiroxima, das mais dizimadas na II Guerra Mundial, viram as pessoas a querer voltar e ter a cidade de volta a funcionar. O aviso a reter é que as cidades podem muito facilmente ser arrasadas se não se adaptarem. O problema dos maias foi não terem meios para prever e compreender a forma como o clima sofre alterações. Nós estamos numa posição muito melhor, embora algumas cidades possam tornar -se inabitáveis devido à subida do nível do mar, como Lagos, Xangai ou Nova Iorque. Um dos problemas das cidades é não haver circularidade. A comida deveria ser produzida localmente e os restos alimentavam os campos num anel agrícola muito produtivo à volta da cidade. Cada cidade sofre com as alterações climáticas, mas a ideia de urbanização não. Copenhaga testemunhou uma tempestade muito intensa em 2011 e em vez de esperar pela próxima adaptou a cidade às águas pluviais, o que passa por exemplo, por tirar muito asfalto. E as medidas podem mitigar os efeitos, mas não impedem as alterações climáticas, mas quero pensar que as cidades podem adaptar-se rapidamente. Essa é a nossa melhor hipótese.

"Quando se perde [o capital humano] há uma queda rápida. As cidades não são os seus edifícios, são acumulações de conhecimento (...) e o que as põe no mapa não se consegue medir, como a comida ou a qualidade de vida."

A sua vinda a Lisboa atrasou-se porque perdeu o passaporte nos Países Baixos. No final do século XV Lisboa perdeu para Amesterdão o capital humano, o que é algo que não dá para pedir uma segunda via.
Pois. Lisboa passou de um lugar marginal na Europa para o centro do mundo e à beira de se tornar na porta de entrada da Europa, com um enorme cosmopolitismo, com o acesso ao comércio mundial, o que de certa forma constrói as cidades, como o fluxo de bens de locais como Malaca trazidos para a Europa pelo mar. Essa posição única perdeu-se devido à intolerância, ao virarem as costas aos judeus, que foram fundamentais em progressos científicos e comerciais. Estes foram para cidades mais tolerantes como Antuérpia e Amesterdão e Lisboa voltou a ser periférica. Quando se perde isso há uma queda rápida. As cidades não são os seus edifícios, são conjuntos de processamento de dados, são acumulações de conhecimento. As cidades mais inovadoras e poderosas são as que têm taxas mais altas de residentes que nasceram fora da cidade. Não tanto pelas pessoas ricas que trazem capital, que é algo que as cidades tentam atrair desesperadamente, mas o que as põe no mapa são coisas que não se conseguem medir, como a comida, a qualidade de vida, que está muito ligada ao cosmopolitismo da gastronomia. Bagdade era assim no século IX, o seu poder estava refletido na comida. O capital humano trazido pela imigração torna os lugares com mais capacidades, assim como as pessoas, traz jovens inovadores e empreendedores. Ser uma cidade aberta é duro, não se realiza sem custos sociais, nem sempre é muito popular. O meu país votou pelo Brexit. Os ganhos económicos nem sempre se refletem nos desejos do resto do país e pode haver ressentimento porque o sistema de valores é outro e a velocidade das mudanças é muito maior do que na sociedade tradicional. Lisboa é um exemplo acabado, foi quase uma cidade-estado em oposição aos valores da cruzada com o seu cosmopolitismo. As cidades sempre foram descritas como locais de vício. Por muito que gostemos das cidades, há sempre quem se rebele e esteja contra elas, há uma constante tensão histórica.

As cidades são sobretudo feitas de acidentes ou de planeamento?
As cidades crescem de forma incrementada, estão sujeitas a desastres e a sucessos. As que crescem de forma orgânica em comunidades tendem a ser as mais resilientes. O problema das cidades planeadas é que são-no com um objetivo e ficam presas a essas ideias. As coisas tendem a mudar de forma muito rápida. Fui a Songdo, na Coreia do Sul, uma cidade nova que custou dezenas de milhares de milhões, que deveria ser de tecnologia de ponta. O problema é que a tecnologia tem 10 anos, está datada. A Tóquio moderna cresceu a partir dos estragos da II Guerra e foi construída bairro a bairro, as pessoas tinham uma grande autonomia quanto à forma de construir o bairro. É por isso que há uma grande mistura entre edifícios de escritórios, comércio local, restaurantes, oficinas automóveis, tudo misturado, o que torna o lugar muito entusiasmante. O planeamento é importante, mas repare-se em Los Angeles. Foi construída para a classe média urbana branca e agora a maioria das pessoas é latina. Os latinos não querem conduzir tanto, têm uma cultura de rua e com isso vieram as vendas de comida na rua, o que cria vida noturna. Criar uma cidade perfeita é uma contradição em termos, o que não quer dizer que não tenha sido tentado e que não vá ser tentado.

Entre outras, viajou até Lagos e Mumbai, cidades que o deixaram impressionado. O que têm estas cidades de único?
Em Lagos um dos locais mais interessantes é a Otigba computer village, que começou com pessoas a reparar máquinas de escrever, daí para reparar computadores e agora graças a um efeito de aglomeração há dezenas de milhares de pessoas a comprar, vender e reparar, mas também a desenvolver software. É uma área muito densa na qual se transacionam milhares de milhões de dólares por ano. O que acho interessante em Lagos é que as suas falhas geram uma espécie de auto-organização. É uma história de esperança numa cidade disfuncional. Também estão a querer recriar um mini Dubai, com a multiplicação de edifícios altos e arranha-céus. Mumbai tem obviamente um grave problema de habitação e os bairros de lata obrigaram as pessoas a envolverem-se, é um reflexo do falhanço completo de construir novos edifícios. As cidades indianas são um pesadelo ecológico. Dharavi faz lembrar Lagos porque é um bairro de lata empreendedor, é conhecido como o bairro de lata de mil milhões de dólares, porque numa milha quadrada tem perto de um milhão de pessoas que fazem parte substancial da reciclagem da cidade.

Se tivesse uma máquina do tempo que lhe permitisse viajar para uma das cidades de que se ocupa no livro, qual escolheria?
Oh, tantas. Atenas, porque a vemos como uma cidade de mármore, mas a cidade em que Sócrates viveu era uma mistura de vielas, bairros de imigrantes, com muita discussão e conversa pública. Adorava ver Uruk, como é que aquela cidade funcionava, porque muito ainda nos é desconhecido.

cesar.avo@dn.pt

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