Uma vida de quases até à primavera marcelista dos afetos

Foi autarca, secretário de Estado, ministro, líder do PSD, fez (e desfez) coligações, mas só agora chega ao cargo de sonho

"Se o Cavaco está dentro, eu estou fora. Se não estivesse logo se veria." A frase é de há dez anos, quando o atual Presidente avançou, mas Marcelo Rebelo de Sousa já revelava, nas entrelinhas, a vontade de chegar a Belém. Uma década depois, em Celorico de Basto - terra da avó Joaquina -, acabaria por avançar, respondendo aos que o acusavam de ter um trauma com eleições.

Há muito do passado de Marcelo que o pode ajudar no mais alto cargo do Estado. Desde logo, em 1975, foi eleito deputado à Assembleia Constituinte, além de ser constitucionalista e de décadas como professor de Direito na Universidade de Lisboa (incluindo Direito Constitucional). Currículo fundamental para ser o "guardião" da Constituição - para a qual não quer mexidas.

Uma outra vida de Marcelo foi a de comentador político televisivo. Esteve quase 15 anos em antena. Agora promete que não será "analista político" e que avaliará tudo à luz do "interesse nacional".

Mas Marcelo tem tantas vidas que muitos desconfiam dessa capacidade para a tal postura que se exige a um chefe de Estado. Desde logo nos tempos no Expresso (jornal que dirigiu) conseguiu -por via de uma chaveta discreta - que fosse publicada uma frase jocosa sobre o proprietário: "O Balsemão é lelé da cuca."

Seria, mesmo assim, via Balsemão que Marcelo chegaria ao governo: chegou a ministro dos Assuntos Parlamentares (1982).

Em 1983, Marcelo lidera uma fação interna do PSD (onde estava desde 1974), a ala Nova Esperança, ao lado de figuras como Pedro Santana Lopes e José Miguel Júdice, opondo-se ao Bloco Central. O movimento vai abrindo caminho à ascensão de Cavaco Silva.

Agora, Marcelo quer ser o Presidente de todos os partidos e até parece piscar o olho ao eleitorado do PS (foi o candidato presidencial mais "costista" na campanha). Marcelo pode até tentar ter o apoio de PS e PSD caso vá a um segundo mandato a Belém. Foi isso que aconteceu com Mário Soares, cuja Presidência é referência de Marcelo.

O futuro Presidente terá um estilo parecido com as presidências abertas de Soares, mas ainda com mais "proximidade" e "afetos". Será uma espécie de primavera marcelista de afetos, que contraste com a postura mais invernosa e distante de Cavaco Silva na presidência.

E Marcelo prometeu no último dia de campanha: "Não vos desiludirei." Ou seja: promete que a primavera de afetos não seja de expectativas frustradas - como aconteceu na "primavera" do governante do Estado Novo a quem deve o nome: Marcelo Caetano.

Marcelo terá também o desafio de se descolar da imagem laranja. Foi no PSD que ficou colado à imagem do quase. Em Lisboa, chegou a ser favorito nas autárquicas de 1990, mas acabaria por perder após uma campanha louca em que mergulhou no Tejo e andou a conduzir um táxi.

Em 1996, Marcelo disse que só seria candidato à liderança do PSD caso "Cristo descesse à Terra". No fundo era estratégia para ter um apoio alargado. Traumatizado pela derrota de 1990, só avançou ao saber garantidos mais de 60% dos votos em congresso. Aí venceu, mas não conseguiu levar ao fim a coligação que fez com Paulo Portas (CDS) e saiu da liderança do partido sem ir a votos em legislativas. Ficou no quase.

Pelo meio, deu a mão, como líder do PSD, a António Guterres em três Orçamentos - experiência que diz ser fundamental para os consensos de regime que quer promover em Belém. Tentou provar que era o candidato da esquerda da direita. Para já, promete fazer tudo para aguentar Costa.

Marcelo teve agora uma vitória clara. Talvez a primeira. Promete não ser perturbador, mas ter influência. Há algo que não pode prometer e que o seu percurso demonstra: que será previsível.

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