Oeiras. Um duelo que junta vários antigos presidentes

Com a mais alta taxa de residentes com ensino superior, com um rendimento per capita acima da média nacional, Oeiras tem o mais extenso painel de candidatos às eleições - nada menos que 13. À cabeça, está o que será o duelo mais personalizado destas autárquicas: Isaltino vs Vistas

Um presidente, um ex-presidente, o ex-presidente do concelho ao lado e o vereador que avança contra o líder do executivo camarário. O líder de décadas do concelho e o seu delfim são as principais figuras numa disputa que se vai medir em votos a 1 de outubro próximo, e que culmina uma história de uma aliança que se desfez em zangas e acusações.

Oeiras tem o maior painel de candidatos destas autárquicas. Tem Paulo Vistas vs Isaltino Morais. Joaquim Raposo, que depois de 17 anos na Amadora tenta reconquistar uma câmara que foge há décadas ao PS. Ângelo Rodrigues, atual vereador da autarquia, que encabeça agora a candidatura do PSD/CDS. E Heloísa Apolónia, número um pela CDU. São nada menos que 13 os candidatos, na eleição mais concorrida da área metropolitana de Lisboa - e provavelmente do país.

Passados quatro anos sobre a eleição que o levou à presidência da Câmara de Oeiras - então com Isaltino como candidato a presidente da Assembleia Municipal e o slogan "continuidade" - Paulo Vistas garante que não se desviou do caminho traçado em 2013: "Acho que Oeiras está e estará no caminho certo e se alguém saiu desse caminho foi o dr. Isaltino". Porquê? "Desconheço". E se o atual líder camarário tem ouvido críticas do outro lado, contrapõe que elas não têm grande fundamento: "Deixou de se falar de Oeiras? Se calhar ainda bem. Deixou de se falar por maus motivos". O atual presidente da Câmara reclama para o seu mandato o reequilíbrio da situação financeira da autarquia - "uma herança pesada que nos foi deixada" -, o pagamento das dívidas das empresas municipais e uma "liquidez de 67 milhões de euros", a par de uma longa lista de obras no concelho - "Estamos de consciência tranquila com aquilo que foram os nossos compromissos".

Isaltino Morais faz outro balanço. "Não fulanizo a política. A questão aqui tem a ver com o rumo do concelho. E, nesse sentido, fiquei, tal como os oeirenses, desiludido com a sua governação", diz o ex-autarca, acrescentando que o concelho de Oeiras "deixou de ser visto como a referência em que se tinha transformado". "Oeiras estagnou, quando os vizinhos não estagnaram, e é hoje um município sem rumo, sem pensamento ou estratégia de desenvolvimento. A força de Oeiras sempre residiu na visão estratégica, sabíamos para onde queríamos ir. Tenho ouvido muitas queixas de oeirenses em relação a problemas que pensávamos resolvidos, como por exemplo, a limpeza urbana", aponta Isaltino Morais, que já se viu envolvido numa polémica judicial a propósito de supostas irregularidades no processo de recolha de assinaturas para a sua sua candidatura, mas que no final não impediu a sua corrida autárquica.

Um duelo muito particular

Qualquer que seja o resultado das autárquicas, as contas também vão fazer-se sobre este duelo particular. Presidente da câmara durante 24 anos, Isaltino já passara de influente barão do PSD a proscrito (viu a sua candidatura vetada por Marques Mendes, então líder do partido, por ter sido constituído arguido devido à omissão de contas bancárias na Suíça). Em 2005, integrou nas listas Paulo Vistas (também vindo do PSD) como candidato a vice-presidente e nome apontado à sucessão. O cenário repete-se em 2009 quando Isaltino, já a contas com uma condenação (então a sete anos de prisão efetiva), vence novamente as eleições com 41,5% dos votos. Já em 2013, meses antes das eleições autárquicas, Isaltino é preso para cumprir dois anos de pena efetiva, por fraude fiscal e branqueamento de capitais, e Vistas assume a candidatura à presidência, ainda sob a sigla da IOMAF na sua formulação original: Isaltino, Oeiras Mais à Frente. Foi o princípio do fim: o crescente afastamento entre ambos redundaria, em abril deste ano, no anúncio da candidatura de Isaltino à câmara que liderou durante décadas.

E o que dizem os outros candidatos de tudo isto? Joaquim Raposo, do PS: "É um espetáculo lamentável que um conjunto de pessoas com origem num mesmo partido se digladie desta forma". Heloísa Apolónia, da CDU: "A questão dos padrinhos é uma trapalhada desprestigiante para o concelho de Oeiras. Aquilo que pedimos aos munícipes é que tenham em conta o quadro de candidatos que se está a apresentar".

Mobilidade e habitação

Mobilidade/transportes e habitação são as duas áreas, apontadas a uma voz pelos candidatos autárquicos, como prioridades para o próximo mandato. A começar pelas ligações a Lisboa, mas também pelas intermunicipais. Quem vive no interior do concelho, em Porto Salvo ou Barcarena, e não tenha veículo próprio "tem um recolher obrigatório a partir das sete, oito da noite", aponta a cabeça-de-lista da CDU (que, já agora, tem como candidato à presidência da Assembleia Municipal um outro ex-presidente de câmara, no caso de Vila Franca de Xira). "Não se compreende, num município que não chega a ter 46 km quadrados", corrobora Ângelo Pereira, o vereador de Paulo Vistas (que governa em coligação com os sociais-democratas) que agora se candidata como número um pelo PSD/CDS/PPM/MPT, elegendo como prioridades também a higiene urbana e a segurança. Já Heloísa Apolónia destaca a Habitação: "A câmara criou um programa, o Habitar Oeiras, mas só 10% estão programados. A este ritmo como é que se consegue dar resposta a um problema que é essencial no concelho?".

Joaquim Raposo, que liderou a câmara da Amadora durante 17 anos, quer ver a linha de Cascais reabilitada e a fazer, em Alcântara, a ligação à Expo - é uma das propostas que avança na área dos transportes. Promete um programa municipal de arrendamento num concelho em que "os jovens não têm condições para se fixar". E sublinha que Oeiras é, a esta altura, "o terceiro concelho mais envelhecido da região metropolitana de Lisboa" - e que as políticas públicas têm de dar resposta a este cenário.

Também Isaltino destaca a habitação - "vamos desenvolver uma nova geração de políticas de habitação, disponibilizando novas casas para desdobramento de famílias numerosas nos bairros municipais" - a que junta a mobilidade e transportes ou a educação.

Paulo Vistas admite que "é muito difícil" a um jovem que nasceu em Oeiras manter-se ali. "Mas isso é sinónimo de que Oeiras tem qualidade", acrescenta. A habitação também é uma das apostas para o futuro: "Não se pode pedir que se faça em quatro anos aquilo que demora oito ou 12 a fazer".

Além dos candidatos já citados (todos com representação na câmara, com exceção de Isaltino), avançam para as eleições autárquicas em Oeiras o Bloco de Esquerda, o Livre, o PAN, o "Nós Cidadãos", o PTP, o PCTP/MRPP, o PNR e mais uma candidatura independente.

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