Tensão crescente em Bangui coloca militares portugueses à prova

Soldados já estão a treinar defesa dos quartéis na capital da República Centro-Africana para prevenir ataques de grupos muçulmanos

Após um primeiro mês de atuação e confrontos armados contra gangues criminosos no bairro PK5, em Bangui, os paraquedistas portugueses ao serviço da ONU na República Centro-Africana (RCA) - assim como os militares que comandam a missão de treino da UE - estão mergulhados num ambiente de tensão crescente, admitiram ontem fontes militares ao DN.

Para esse agravamento contribuem as movimentações de grupos armados muçulmanos a norte da capital e noutras zonas do país, vistas como demonstração de força contra os militares e polícias da ONU e da RCA que procuram expulsar e desarmar os bandos criminosos daquele bairro muçulmano.

Com outras fontes a admitirem que os ex-Seleka estão a juntar forças para atacar a capital da RCA, os quartéis dos capacetes azuis e da UE presentes em Bangui começaram a treinar os seus dispositivos de defesa - como foi ontem o caso do Campo Moana, onde estão os militares portugueses que comandam a missão europeia de treino das Forças Armadas (FA) do país (EUTM-RCA).

Desde meados deste mês que dois dos mais importantes grupos de ex-Seleka (FPRC e MPC) estão a coordenar esforços em Kaga Bandoro e ameaçam atacar Bangui, depois de semanas a atribuírem motivações religiosas antimuçulmanas à Operação Sukula - e em particular aos capacetes azuis do Ruanda.

Esta operação, lançada em março pelo comandante operacional da Missão Multidimensional Integrada das Nações Unidas para a Estabilização da RCA (MINUSCA), já tinha motivado o ataque da última noite de março contra uma patrulha portuguesa da ONU no PK5. Os autores foram grupos criminosos que o tenente-general Balla Keita quer expulsar do último reduto muçulmano em Bangui, considerado o pulmão económico da cidade.

A 8 de abril, várias unidades da ONU, das FA e das Forças de Segurança Interna tentaram prender o líder de um desses grupos. A operação, que provocou mais de 20 mortos e dezenas de feridos, encontrou tal resistência que obrigou a chamar os portugueses - a Força de Reação Rápida da MINUSCA. Mas com esses grupos criminosos a explorar politicamente a situação, os movimentos de ex-Seleka iniciaram protestos contra a Operação Sukula em vários pontos da RCA.

Ataques contra civis, raptos de governantes locais e membros de organizações não-governamentais ou mesmo bloqueios ao envio de ajuda humanitária foram alguns dos casos registados. A agravar o ambiente de tensão está a eventual perceção, por parte dos muçulmanos, de que os rivais cristãos - os Anti-Balaka - estejam a colaborar com as FA e de Segurança Interna da RCA no PK5, reconheceram as fontes.

Daí que, a par de novos confrontos entre grupos criminosos do PK5 e as forças da MINUSCA e da RCA, tenha aumentado o risco de violência entre comunidades cristãs e muçulmanas em Bangui (ver infografia). Exemplo disso foram os acontecimentos de 8 de abril: a operação no 3º Distrito da capital estendeu-se a áreas católicas no 5º Distrito.

Tropas da RCA treinadas pela UE

A referida presença das FA da RCA no terreno ou a sua participação em operações conjuntas com a MINUSCA foi reiniciada já com os militares portugueses à frente da EUTM-RCA. O comandante é o brigadeiro-general Hermínio Maio, que em janeiro assumiu a liderança da missão europeia encarregue de treinar, formar e capacitar as tropas locais desde 2014.

Já com dois batalhões (cerca de 1300 soldados), prevê-se que em julho se conclua o treino operacional dos 700 militares que vão formar o 3º batalhão, indicou uma das fontes. A EUTM-RCA reciclou ainda 350 oficiais e 500 sargentos e validou o treino operacional das unidades das FA locais constituídas no estrangeiro, precisou a mesma fonte.

"É preciso que se consiga formar umas FA nacionais na RCA, englobando elementos de todas as forças intervenientes no conflito, sendo necessário desmobilizar e desarmar grande parte dos seus combatentes", disse o coronel Nuno Pereira da Silva. Para isso, realçou este oficial do Exército na reserva, "Portugal tem uma experiência acumulada" nesse tipo de reformas nos processos de paz de Angola e Moçambique. Acresce que "não perdemos a escola da guerra de guerrilha e contraguerrilha desde os tempos" da guerra colonial, visível na atuação dos Comandos na RCA - longe de Bangui - ao longo de 2017.

Miguel Machado, tenente-coronel paraquedista na reforma, lembrou ao DN que o atual contingente de capacetes azuis portugueses também acabou por ser empregue em condições onde a experiência adquirida no Kosovo em ações de controlo de tumultos, onde "evitar baixas civis era primordial", tem sido "uma enorme mais-valia" no PK5.

A verdade é que, esta semana e com a tensão a crescer em Bangui, os capacetes azuis portugueses foram enviados numa patrulha de vigilância e reconhecimento para norte da cidade. Mas, na terça-feira, a operação transformou-se de súbito numa ação de socorro e proteção quando uma carrinha sobrelotada perdeu uma roda à frente da coluna da ONU, despistou-se, capotou e passou mesmo por cima de uma habitação, informou ontem o Estado-Maior General das FA.

O "aparatoso acidente" na povoação de Bogournou levou a patrulha a criar de imediato "um perímetro alargado" de segurança, perante o risco de ataque dos grupos armados a operar na região, enquanto outros militares socorriam a dezena e meia de feridos. "Apesar de não ser a nossa missão primária, tem bastante impacto tanto para a confiança da nossa força, que colocou em prática os conhecimentos médicos e de socorrismo avançado que fazem a diferença para salvar vidas, bem como para a criação de laços com os locais", contou o sargento-chefe André Pena.

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