"Sou uma iraniana que teve como amor da sua vida um português"

Almoço com Sépideh Radfar, iraniana professora na Universidade de Lisboa e dona de uma agência de viagens especializada na antiga Pérsia. (Publicado originalmente a 2 de junho de 2018)

A ideia era almoçarmos num dos restaurantes iranianos de Lisboa, mas Sépideh Radfar está com um dia complicado e a escolha acaba por ser o Origem, no Espaço Amoreiras, um dos muitos edifícios de escritórios que nasceram em volta das Torres das Amoreiras, talvez os edifícios mais reconhecíveis de Lisboa. É ali que a minha convidada tem a sua agência de viagens, especializada em Irão, o país onde nasceu há pouco mais de meio século, quando ainda lá mandava o xá e a Revolução Islâmica de 1979 era inimaginável para quem visitava uma Teerão onde as jovens usavam minissaia e os cabelos soltos ao vento. Claro que essa liberdade de vestir coexistia com uma ditadura que tinha na Savak uma polícia política temível.

No Origem pega-se no tabuleiro e escolhe-se o que se quer. O conceito-base é uma alimentação saudável, numa atmosfera simples. Numa ardósia na parede, junto às da ementa, pode ler-se uma citação do Dalai Lama: "Lar onde você se sente em casa e é bem tratado." Ora, Portugal é o lar de Sépideh há muitos anos, ela que além de dona da agência Pass Travel é professora na Universidade de Lisboa, onde coordena o Centro de Iranologia. Por isso, assim que nos sentamos já com a comida à frente pergunto como uma iraniana que nasceu em 1965 em Teerão vive em 2018 em Lisboa.

Sépideh ri-se. Sabe que sei parte da resposta, pois tivemos longas conversas durante os quatro dias que passámos juntos no Irão em dezembro do ano passado. Foi organizadora de uma viagem para jornalistas, que a convite da EuroAtlantic Airways descobriram um pouco dessa antiga Pérsia que a companhia aérea quer ligar a Portugal com um voo direto entre Teerão e Lisboa. "Depois de uma etapa de estudos superiores em Línguas e Literatura na Universidade de Teerão, fui a França para tirar o doutoramento em didática do francês e ao mesmo tempo fiz outro mestrado, em formação de formadores. Estava pois em Paris e encontrei o amor da minha vida na altura, um português que estava lá a fazer doutoramento na área da filosofia", conta, agora num tom mais sério. Depois, a rir-se de novo, explica que ele sabia muito sobre o Irão, mas ela quase nada de Portugal. E claro que "conhecemo-nos e apaixonámo-nos em francês", acrescenta. Estamos a falar do início "dos anos 90".

Muçulmana xiita como a esmagadora maioria dos 80 milhões de iranianos, Sépideh acabou por se casar com o seu português, mas antes ele converteu-se. Pergunto se tinha de ser. "Não era questão de ter de ser ou não. Perguntei o que é que achava, e ele nestas coisas era uma pessoa extremamente aberta. Para mim o mais importante era o entendimento cultural, o respeito pelas famílias. Ele respeitou e converteu-se ao islão", responde a iraniana, que na tal viagem a Teerão e Isfaão me guiou na visita não só ao mausoléu do ayatollah Khomeini, o fundador da República Islâmica, mas também a belíssimas mesquitas abertas a crentes e não crentes e onde havia sempre pessoas a oferecer chá ou comida em memória de familiares já falecidos. Recordo-me de Sépideh, com o seu enorme à-vontade, ter comentado ser "impossível alguém passar fome no Irão".

Uma filha chamada Luz

Tanto eu como Sépideh escolhemos como prato principal bulgur de frango com cogumelos, remotamente a lembrar a deliciosa cozinha iraniana, mas já lá iremos. E bebemos sumos naturais, daqueles que misturam tanta coisa que nem se percebe bem de que são. Do antigo marido, Sépideh prefere não dizer muito mais, só que "a vida conjugal não deu resultado", mas conta que dele tem uma filha nascida em Coimbra, a cidade onde se instalaram depois de acabar a tese, pois era lá professor. Chama-se Simine, tem 18 anos, e os olhos de Sépideh brilham ainda mais quando fala dessa jovem que é portuguesa mas fala várias línguas, incluindo o persa, ou farsi, que as visitas da avó ao longo dos anos ajudaram a que se fosse aperfeiçoando.

"Simine quer dizer Luz", explica Sépideh. E já agora Sépideh é "Aurora" em persa. Ambos os nomes existem em português. Falamos ainda de outros pontos em comum entre portugueses e iranianos, que fisicamente têm muitas parecenças. Ninguém diria que Sépideh não é portuguesa, como também eu passei despercebido no Irão, onde é muito comum os homens terem pele quase branca a contrastar com o cabelo negro, assim como a barba que muitos usam, a começar pelo ayatollah Ali Khamenei, guia supremo depois de suceder a Khomeini em 1989.

Sépideh e a filha viveram em Coimbra, depois um ano no Porto. Uma proposta da Universidade de Lisboa para ensinar persa acabou por a trazer para a capital de vez em 2003, mas ainda durante uns meses trabalhou entre Porto, Viseu e Lisboa, aulas e mais aulas e outros projetos, pois a iraniana é daquelas pessoas que não sabe estar parada. Até fico admirado como consegue não olhar para o relógio mesmo tendo uma reunião marcada logo a seguir ao almoço.

Viagens a um país antigo

Na Universidade de Lisboa, Sépideh ensina persa, também técnicas de tradução de francês-português. "E em breve vou ter aulas incluídas nos Estudos Asiáticos, de culturas islâmicas, culturas muçulmanas da Ásia", sublinha. A esta faceta académica acrescenta a empresarial, com uma empresa em que faz "quase tudo, tradução, formação de formadores, vistos gold" e uma agência de viagens que trabalha com um parceiro iraniano e disponibiliza percursos por cidades célebres pela beleza, como Isfaão e Shiraz, além de Persépolis, cidade com mais de 2500 anos, uma antiga capital do Império Aqueménida, o grande rival da Grécia clássica.

"Os portugueses regressam do Irão sempre muito espantados com o país, com a simpatia das pessoas, com toda a história e cultura", conta Sépideh. Mas não falta quem, à última hora, telefone com dúvidas, porque ouviu falar de algum incidente no Médio Oriente a envolver o Irão, por exemplo, na guerra civil síria. "Esclarecemos sempre as pessoas. Mostramos como a Síria nem sequer tem fronteiras com o Irão e como o país está calmo e é seguro. Mesmo assim, se na ida sempre vão com certa preocupação por causa das notícias, quando regressam voltam muito satisfeitos. E ajudam-nos a arranjar mais visitantes", sublinha a diretora da Pass Travel.

Estamos já na hora da sobremesa, cubos de manga, mas há ainda tanto por conversar que continuamos num Origem já vazio. Sei que um percurso no Irão, uma semana ou dez dias, anda perto dos três mil euros e pergunto o que se pode esperar ver num caso desses, já que o Irão é tão grande que lá caberiam três penínsulas ibéricas. "Há um percurso tradicional para uma primeira abordagem do país que é a Rota da Seda, mas não toda. Apenas metade, que começa pela província de Persépolis e depois de Shiraz a Yazd, onde vamos aos templos dos zoroastristas (num deles o fogo dura há mais de dois mil anos), a seguir Isfaão, com os palácios, as mesquitas e as pontes, e Kashan e no fim Teerão", explica Sépideh.

"Há dois grupos de portugueses que lá vão. Alguns não procuram agências de viagens para ir ao Irão. E depois há outro, os que procuram uma agência especializada sobre o Irão, que são pessoas com uma certa idade, um certo poder financeiro. Estes têm conhecimento prévio sobre o Irão, e mesmo se não têm de início, procuram saber mais. Buscam livros sobre o país para saber mais. E que Portugal controlou Ormuz no século XVI é conhecido", explica Sépideh, referindo-se à ilha no golfo Pérsico onde uma fortaleza portuguesa controlava o estreito de Ormuz.

Carlos Koorosh

Se Sépideh quase nada sabia (exagero) sobre Portugal até se apaixonar por um português, o comum dos iranianos talvez saiba um pouco sobre os Descobrimentos, admite a minha convidada. "Mas sabem muito é sobre o futebol português, sobretudo Ronaldo ou Carlos Queiroz. O campeonato do mundo está quase a chegar e vou fazer uma festa lá na Universidade para o Irão-Portugal que se jogará na Rússia", promete a professora, que olha para mim com um sorriso enigmático quando lhe pergunto por quem torcerá, se pelo Portugal de Ronaldo ou pelo seu Irão natal, treinado pelo português Carlos Queiroz, que os iranianos, posso testemunhar, admiram e tratam por Carlos Koorosh.

"Adoro o Ronaldo e a seleção nacional portuguesa. E amo o meu Irão. Tenho o coração partido entre os dois. Espero que seja jogo de empate. Mas mesmo que o Irão perca, já é bom estar lá a jogar no Mundial", diz Sépideh. Foi quase palavra por palavra o que ouvi durante a minha viagem ao Irão, se bem que por trás da modéstia das palavras se notasse a ambição de causar surpresa em terras russas. Até porque "os iranianos são um povo orgulhoso e gostam de ser bem vistos pelo mundo", sublinha Sépideh.

Passado pré-islâmico

Povo orgulhoso e "orgulhoso da sua história", sublinha Sépideh, que até compara com os portugueses. "Vejo o mesmo orgulho nos portugueses na época dos Descobrimentos. Comparo só para dizer a diferença que sinto nos iranianos: quando falamos com portugueses há uma certa classe que sabe argumentar e falar com orgulho sobre os Descobrimentos e a história de Portugal, mas no Irão até a pessoa de cultura mais popular tem muito orgulho sobre a história da Pérsia. Isto tem muito que ver especialmente com as imagens negativas que se projetam no mundo contra o Irão e a cultura iraniana, então o iraniano procura valorizar mais ainda a sua história", diz.

Esse orgulho abrange toda a história, e é partilhado pelos iranianos em geral, sejam persas, azeris ou curdos. E mesmo a religião zoroastrista, antepassada de todos os monoteísmos, continua a ser respeitada e até praticada por uma pequena minoria. Cristianismo e judaísmo também existem até hoje no Irão, com a República Islâmica a reservar assentos no Parlamento para esses grupos.

Por isso, antigos imperadores como Dario ou Ciro, zoroastristas, continuam figuras veneradas, tal como o poeta Ferdosi, muçulmano, que viveu por volta do ano 1000 e recuperou a importância do persa, perdida depois da islamização do século VII para o árabe. "É bom salientar que os portugueses que viajaram para o Irão me disseram que não conheciam nenhum país do mundo onde venerassem tanto os seus poetas. O Irão é um país de poesia. Em qualquer cidade os lugares de visita são os túmulos e mausoléus dos poetas. Ferdosi, neste caso, é o poeta que ressuscitou a língua persa. Um herói nacional também porque a obra dele é um resumo de toda a história mitológica da literatura persa. São mil e tal poemas", nota a iraniana.

Maman, c'est toi

Bebemos os cafés e avanço rápido para outro tema que nas nossas conversas em Teerão tínhamos abordado, a banda desenhada, depois filme de animação, Persepolis, de Marjane Satrapi."Reconheço--me muito naquela BD. A Marjane tem quase a minha idade, estudámos na mesma escola, na escola francesa de Teerão, mas não me lembro dela, não a conheci pessoalmente. Eu não tinha lido o livro dela, primeiro fui ver o filme. O mais engraçado é que quando fomos ao cinema, com os meus amigos, estudantes e filha, a minha filha vendo o filme, com todas as histórias que me ouve contar, diz "maman, c"est toi", assim em francês, "mãe, és tu, a tua vida, isto é sobre ti". Depois, claro, mudou, cada uma de nós, eu e Marjane, seguiu um caminho diferente na vida. Eu continuo muito a ir ao Irão. E quando volto estou tão feliz que esqueço mesmo a questão do lenço. Claro que depois de dois dias fica-se farta do lenço. Na primeira etapa é um respeito, é um código do país que é obrigatório. Mas na minha juventude muitas mulheres não usavam, como eu, e até dois anos depois da Revolução tínhamos liberdade de escolha de pôr ou não pôr. Dependia muito da idade e se era cidade ou campo. Nas cidades havia muita modernidade e a maioria não usava, mas mesmo hoje em dia a sociedade iraniana não é assim tão a preto e branco como se pinta, tem a sua diversidade própria. Isso é que é giro no Irão. Há o lado religioso mas também uma certa liberdade para que cada um viva à sua maneira, uma vez que respeite algumas linhas vermelhas".

Fico a saber que o pai de Sépideh era um militar de alta patente, que ficou no país mesmo depois da queda do xá e foi vice-comandante das forças armadas durante a guerra entre Irão e Iraque. Já morreu, mas a mãe continua a viver no Irão, tirando as temporadas que passa com os filhos que vivem fora - Sépideh tem um irmão a viver em Paris e outro nos Estados Unidos, em Boston. Também costuma vir a Portugal, e da primeira vez escandalizou-se com a neta de 1 ano não falar persa. "Simine não falava persa e a minha mãe ficou chocada, então em duas semanas a minha filha já falava persa e traduzia novelas brasileiras para a avó", conta a rir.

Pergunto a Sépideh como reagem as pessoas quando diz que é iraniana. Se fazem comentários sobre a questão do nuclear, o regresso das sanções americanas ou a subida do preço do petróleo. "Agora as pessoas são mais conhecedoras, especialmente em Lisboa, mas quando cheguei nos anos 90 era diferente. A maioria dizia "coitada, é iraniana". O conhecimento é fraco. Não percebem que os iranianos, mesmo os que vivem longe, até os dos Estados Unidos, mantêm grande ligação ao país."

Açafrão, oh açafrão!

Para acabar, e como prometido, o tópico da gastronomia iraniana. Sépideh adora ghormeh-sabzi, que é "uma mistura de sabores e aromas maravilhosos com carne - eu faço com vitela, feijão vermelho, sal e pimenta, açafrão. Come--se com um molho acompanhado com arroz. Temos o dia internacional do ghormeh-sabzi , que é por volta do início de fevereiro. Todos os iranianos no mundo inteiro fazem este prato. E quando o preparo para os amigos portugueses e franceses todos adoram, é muito bom".

Tenho boas memórias da gastronomia iraniana, muita carne grelhada, muitos vegetais também, e sempre o arroz pintado com o açafrão, a preciosa especiaria tirada de uma flor. "O açafrão é tão famoso como a arte persa. No Irão valorizamos o cuidado minucioso, na arte, na arquitetura, na vida. Açafrão é também isso, precisa de paciência, de delicadeza, para ser preparado. Cada flor é apanhada à mão", relembra Sépideh, que me desafia a provar tudo isto já, num jantar que vai fazer para os alunos em que preparará 10 a 15 pratos. Fico entusiasmado. Um pouco provocador, pergunto para finalizar, tendo em conta que não se pode beber álcool no Irão, que bebida usam para acompanhar um banquete destes por lá. "Para além da Coca-Cola e Pepsi, o iraniano adora o doogh, que é iogurte com água com gás e sal", responde-me Sépideh. Não digo que substitua bem o vinho, este doogh, mas que é saboroso e refrescante posso garantir. Provei-o no Kassab, uma churrasqueira de Teerão onde Sépideh em dezembro me levou.

(Publicado originalmente a 2 de junho de 2018)

Restaurante Origem

> 2 bulgur de frango com cogumelos

> 2 sumos naturais

> 2 copos de manga em cubos

> 2 cafés

Total: 20,30 euros

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG