"Sofri uma reprimenda por salvar soldados feridos na 'terra de ninguém'"

Entrevista ao major-general do Exército, juiz militar no Porto, Raul Luís Cunha

O que é que o levou a escolher a carreira militar?

Aos 10 anos quis ir para o Colégio Militar mas, depois de ter sido dificilmente admitido, regressei a Moçambique. Quando terminei o liceu concorri à Academia Militar, mas acabei por ir para a Faculdade de Medicina em Lourenço Marques. Mas, ao fim de dois anos, decidi seguir o meu sonho e concorri de novo à academia.

O que o levou a preferir o Exército aos outros ramos?

Frequentava o Clube Militar e muitos dos meus amigos eram filhos de militares, sobretudo do Exército.

Quando entrou para o Exército e para que especialidade?

Em 1972. Tive logo de optar entre a Engenharia e as Armas e não hesitei em escolher as Armas. No fim do 1.º ano tive de optar entre Infantaria/Cavalaria e Artilharia e escolhi as primeiras. No final do 2.º ano já hesitei, mas decidi pela Infantaria e nunca me arrependi. Depois surgiu a possibilidade de concorrer para o curso de ranger nos EUA e, tendo-o frequentado com sucesso, só passei a considerar a carreira nas Forças Especiais. A seguir tentei ingressar nos paraquedistas (então na Força Aérea) mas o Exército não autorizou. Fui para Lamego, onde se estavam a dar os primeiros passos para a reativação das Operações Especiais e fui o diretor e instrutor dos primeiros cursos para graduados.

Mas também se especializou como comando e paraquedista...

Por convite, frequentei o Curso de Comandos, que terminei em 1984. Quando o Regimento de Comandos foi extinto, aceitei a aventura da transição para os paraquedistas. Foi assim que, com muito orgulho, acabei por ser um dos raros oficiais que possui as três qualificações "especiais" do Exército: ranger, comando e paraquedista.

Aceitou ir para a Brigada Aerotransportada Independente. Foi dos que sofreram ameaças de morte?

Comandava o Batalhão de Comandos 12 e, como sempre considerei que não faz sentido um comando sem qualificação de paraquedista, aderi logo e fui seguido pela maioria dos oficiais e por cerca de 50% das praças. Só na classe de sargentos a adesão foi menor e, aí sim, terá havido muitas pressões para que não fossem. Mas, sinceramente, não acredito que tenha havido ameaças de morte...!

Como decorreu esse processo?

Teve aspetos positivos e negativos. Os quadros do Exército que optaram pela transição "pagaram" bem a sua opção, tendo de frequentar os cursos de qualificação aeroterrestre e de se submeter a exames clínicos e físicos - com tabelas de referência para jovens de 21 anos.

Sentiu-se "traído" com a reativação do Regimento de Comandos?

De maneira nenhuma! Senti-me "traído", isso sim, quando tendo feito o possível, com instruções do chefe do Estado-Maior do Exército, para os comandos receberem a qualificação de paraquedismo militar, o curso foi cancelado. Fiquei sempre magoado com essa decisão, que impede essas forças de serem consideradas na plenitude como Forças de Reação Imediata.

Quais foram as outras experiências mais marcantes?

A mais marcante foi, na ex--Jugoslávia, ter conseguido salvar a vida a dois soldados croatas feridos na "terra de ninguém", apesar do intenso fogo do outro lado e que deixou a minha viatura como um queijo suíço. Curioso foi que essa ação tenha merecido uma reprimenda superior (com alguma razão, pois de certo modo violei o estatuto de neutralidade) e a proibição de mencionar esse facto à imprensa. Também muito positivo foi no Kosovo ter liderado, ao serviço da ONU e durante três anos, cerca de 50 observadores de 26 nacionalidades diferentes.

E pela negativa?

Impressionou-me a extrema crueldade que o ser humano é capaz de perpetrar quando em situações de conflito (sobretudo as forças paramilitares e radicais), que pude constatar quando nas trocas de corpos nos checkpoints tínhamos de verificar as condições dos cadáveres e podíamos ver as mutilações a que tinham sido sujeitos.

Agora é juiz militar. Que balanço faz à integração da justiça castrense no sistema nacional?

Bastante positivo. O sistema revela ser mais do que suficiente para as necessidades. Por outro lado, permite a familiarização dos oficiais com o processo judicial.

Que diferenças encontra entre ser militar e civil?

Embora possa parecer estranho, digo sempre que os militares têm muito mais sentido cívico do que os civis. Penso que são mais disciplinados, mais respeitadores da lei e, sobretudo, com um muito mais arreigado amor à pátria e aos concidadãos. Infelizmente, constato que no meio civil muitos se sentem no direito de dar a sua sentença, o que mais grave se torna quando em funções políticas de responsabilidade os seus atos ou omissões afetam as capacidades de defesa do país.

Como vê o papel atual das Forças Armadas em Portugal?

A resposta terá de ser um pouco formal. O artigo 273.º da Constituição diz claramente: "A defesa nacional tem por objetivos garantir a independência nacional, a integridade do território e a liberdade e a segurança das populações contra qualquer agressão ou ameaça externas."

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