Nem só de missas, casamentos e funerais se faz a vida de um padre

A viagem do DN pelo interior do país chegou a Bragança. Conversa com um padre da terra que lançou uma obra de recuperação de arte sacra inédita na igreja nacional

Quando começou a ser padre em Sendim, sendo pastor de sete paróquias que envolvem 15 localidades de metade do concelho de Miranda do Douro, António Pires, agora com 49 anos, celebrava por ano cerca de 30 batizados e 70 funerais. Isto em 2012.

Cinco anos passados, um número permanece igual, o dos funerais, à volta de 70 por ano (durante a conversa com o DN agendou por telemóvel uma missa de 7º dia com um funcionário de uma funerária). Mas o número dos batizados desceu para menos de metade, cerca de treze por ano - "e muitas das crianças nem são daqui, vêm de fora".

António Pires, natural de Moncorvo, dá assim, com números simples, uma dimensão do que é a desertificação do interior. O distrito é Bragança, "o Nordeste, não Trás-os-Montes, isso é em Vila Real": o quinto maior distrito do país em área mas com apenas cerca de 136 mil habitantes - ou seja, uma absoluta imparidade entre população e dimensão física.

A vida de um padre, por aqui, não é coisa fácil. Conversamos na "Gabriela", em Sendim, Miranda do Douro, à volta de uma posta mirandesa suficientemente generosa para que se divida por dois. É nesta freguesia de Miranda do Douro que mora. Por essa altura já tinha ido a Bragança para assuntos na sede da diocese e regressado. Faz por mês uns quatro mil quilómetros.

O seu gosto pessoal sempre foi pela história de arte. Mas, depois de se formar em Teologia na Católica do Porto, o então bispo de Miranda e Bragança, D. José Rafael, hoje retirado, insistiu para que fosse cursar Direito Canónico para Salamanca. E lá foi, porque "Deus pode querer outro caminho", mas sempre sabendo que "o Direito não é a salvação, é só um instrumento".

O Direito Canónico faz com que hoje seja juiz no tribunal interdiocesano de Vila Real, despachando, maioritariamente, sobre processos relativos a nulidades de casamento. Também dá aulas de Direito Canónico no Instituto Diocesano Pastoral em Bragança aos que fazem o sexto ano (o ano pastoral) do seminário maior de Braga. E toma conta de duas IPSS - uma em Sendim, outra em Picote. Além das tarefas pastorais, missas, casamentos, batizados e funerais.

Mas a menina dos seus olhos está ali a uns 500 metros do restaurante onde conversamos. Chama-se Centro de Conservação e Restauração de Arte Sacra, sendo o padre António o seu responsável máximo, enquanto presidente da Comissão de Arte Sacra da Diocese de Bragança-Miranda. Do que se trata é de uma organização da Igreja que vela pelo património da Igreja e o recupera, porque "a Igreja deve cuidar do que é seu". Desde que nasceu, há cinco anos, o Centro, instalado num antigo lar de idosos de Sendim, já fez "para cima de 60 ou 70" obras de restauro na arte sacra dos templos católicos da diocese. É um trabalho, lento, de muito detalhe e de muito rigor que não se compadece com amadorismos - e em nenhuma outra diocese portuguesa há algo assim.

O Centro é da Igreja e trabalha para a Igreja mas cobra pelos seus serviços, com orçamentos previamente feitos. Não dá lucro "mas prejuízos não temos, graças a Deus". A responsável é Lília Pereira da Silva. E há quatro "operários", entre os 27 e os 32 anos, dois do distrito e dois de fora, todos formados no Politécnico de Tomar. Recuperar um retábulo do século XVIII não é dar-lhe a cor original; é repor-lhe, nas mazelas, a cor que tem hoje: "Temos de respeitar a "patine" do tempo", diz uma das restauradoras, Joana, de 32 anos.

O problema, conta o padre, é que muitas vezes a arte sacra é recuperada por "aprendizes de feiticeiros", sem controlo dos párocos, que só estragam. Enquanto falava com o DN, tratava de resolver um problema desses, na Igreja de Mascarenhas. Cinco anos passados sobre a fundação, o Centro de Recuperação de Arte Sacra de Sendim começa a ser olhada por outras dioceses. António Pires conta que já foi ali dada formação a responsáveis de cinco dioceses sobre ações preventivas na preservação da arte sacra. O que o irrita é, por exemplo, a mania de encher as igrejas de flores: "estragam tudo" e "tapam" o que deve ficar à vista: a arte sacra que delicadamente se recupera todos os dias em Sendim.

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