"Na política não há mortes, na política há ressurreições"

Almoço com Miguel Coutinho, administrador da Fundação EDP

O Miguel Coutinho é homem de pontualidade britânica. À hora combinada, uma da tarde, o administrador da Fundação EDP entra no Poleiro à Rua de Entrecampos. Já não nos víamos há uns anos, quase dez, quando ele decidiu largar o jornalismo e mudar de vida. Está igual ao que sempre foi: irrepreensível no trato, alto e magro, ar bem comportado, fato impecável e à medida com lenço no bolso para compor a toilette. A imagem perfeita do arrumadinho chique. Nascido e criado no bairro de São Miguel, sabe de cor o caminho para o restaurante. "Lembro-me muito bem de vir com o meu avô e com os meus pais. Este é um restaurante de comida tradicional em que fazem questão de dizer que o importante é a matéria-prima. E acho isso fantástico. O Poleiro tem esse encanto, esse código genético, esse gosto pelos produtos e pelas tradições. Venho aqui quase todos os sábados almoçar com a minha mulher". Continuar a viver nas redondezas facilita, "mas, vivesse eu em Campolide ou em Benfica, viria sempre muito ao Poleiro".

Feita a publicidade e já de carta em punho ao mesmo tempo que se picam umas azeitonas curtidas, a conversa faz-se pelas perguntas habituais de quem tem vários quilómetros de prosa em atraso. "O que é que tens feito? E como é que vai o teu jornal?" Em 2005, Miguel foi diretor do DN durante 11 meses, a última redação por onde passou. Nessa altura decidiu que era tempo de largar o jornalismo para nunca mais voltar. "Acho que não se deve voltar ao local onde se foi feliz. Deve-se é procurar a felicidade noutros locais. E o que eu fiz da minha vida foi procurar a felicidade noutros sítios. Encontrei-a. Isto não quer dizer que não sinta, por vezes, vontade de escrever, vontade de sentir o pulso de uma redação, o stress de um fecho, a emoção que é ter uma cacha. Tudo isso são boas memórias que guardo do jornalismo, além dos muitos amigos que fiz. Mas, para mim, é uma porta que não tenciono voltar a abrir."

Mesmo que à distância da mão, Miguel não dispensa os jornais. "Se não fosse o jornalismo, seríamos, com certeza, uma democracia muito pior e uma sociedade civil muito menos empenhada e envolvida. E por isso, como sou um otimista nato, olho sempre para os media com a esperança de que os jornais se reinventem, seja no papel de que gosto muito seja noutras plataformas." O fim do Diário Económico em versão impressa é incontornável, mesmo com as petingas fritas com arroz de feijão e as pataniscas de camarão com arroz de lingueirão já estejam a arrefecer. "Vivi os meus melhores tempos como jornalista no Diário Económico. Por várias razões. Porque passámos por várias crises, por várias transformações, mudámos o formato do jornal - era broadsheet e passou a tabloide -,mudámos a cor do papel, abrimos um jornal que era estritamente económico e pusemo-lo a falar também de política e de cultura. E conheço muita gente que ainda hoje está na redação e que até há muito pouco tempo lá esteve e que são excelentes profissionais. E, portanto, olho para tudo isto com imensa tristeza. Em 2011, quando saí já como gestor - fui a primeira pessoa a sair do Grupo Ongoing -, não antecipava este descalabro e este cenário absolutamente trágico para o Diário Económico, mas já havia coisas que, obviamente, não me agradavam. Mas se me perguntassem diria que dali a cinco anos o jornal iria desaparecer? Não, não acreditava. A marca era muito forte. A marca é muito forte e só por isso é que, apesar de tudo, se mantém." Politicamente correto, resiste a nomear os culpados. "Há algumas pessoas mais culpadas do que outras. Sobretudo as pessoas que têm a obrigação de gerir bem os jornais e qualquer negócio."

"O que é que os senhores vão beber?", pergunta o empregado. Eu fico-me pela água. O Miguel pede um copo de vinho branco. "Um Esporão é sempre uma aposta segura."
Entrou para administrador da Fundação EDP há pouco mais de um ano onde gere um orçamento de milhões para distribuir por três pilares de intervenção: a cultura, a promoção da ciência e a inovação social. "A Fundação EDP é um lugar raro neste país porque é um espaço de generosidade e de otimismo e tem a possibilidade de fazer coisas que, na minha opinião, são serviço público. Temos o maior programa de investimento social privado em Portugal, EDP Solidária, que todos os anos disponibiliza 2,1 milhões de euros para projetos nas áreas da inclusão social, da saúde e da educação.

Temos uma verba muito significativa que, nos últimos anos, tem rondado mais de um milhão de euros, que apoia especialidades médicas. Isto é, apoia o Serviço Nacional de Saúde naquilo em que o Estado não consegue responder. Em 2013 apoiámos projetos na área da oncologia; em 2014, na área da pediatria; em 2015, na área da cardiologia; e neste ano elegemos como zona de intervenção os cuidados paliativos de saúde para idosos, que é uma área absolutamente crítica em que, infelizmente, o sistema não tem conseguido dar resposta." O mecenato cultural é outra das apostas da fundação.

"Graças a nós, a Companhia Nacional de Bailado continua a ter uma programação de que nos orgulhamos muito. É também graças a nós e a muitos outros parceiros que a Fundação de Serralves, a Casa da Música, a Fundação Árpád Szenes-Vieira da Silva, a Orquestra Sinfónica Juvenil e muitas outras instituições têm programações de que nos orgulhamos muito." Além do Museu da Eletricidade, "espaço permanente de exposição para novos artistas e para artistas já consagrados", a fundação prepara-se para inaugurar em outubro à beira- Tejo a primeira etapa do Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia (MAAT), "que é um grande legado à cidade de Lisboa e ao país". "O que se poderá ver no MAAT são exposições de arte contemporânea, de arquitetura, de como é que a tecnologia pode jogar com a arquitetura e com a arte contemporânea. Mas também queremos que seja um espaço para o debate de ideias sobre as cidades, sobre arquitetura, sobre os caminhos da arte e sobre outros temas muito mais abrangentes, que podem ter que ver com a política num sentido mais nobre ou, por exemplo, com temas de filosofia. Portanto, queremos que seja, de facto, um espaço de cultura." E já existe alguma programação? "O Pedro Gadanho, que vem do MoMA em Nova Iorque, começa em junho e vai começar a programar nas salas da Central Tejo algumas exposições. Queremos trazer algumas exposições que têm estado no roteiro internacional. Vamos começar por trazer uma chamada Lightopia, que esteve no Vitra Design Museum, na Alemanha. Vamos trazer também a exposição do Charles e da Ray Eames, um casal de designers, que esteve no Barbican Centre, em Londres, até há poucos meses. E em outubro, inauguramos a primeira fase do MAAT com uma instalação de uma artista francesa, a Dominique Gonzalez-Foerster."

A conversa segue o seu curso, com avanços e recuos, mas sempre com o Miguel a sublinhar a cada pergunta que o faça sair da sua zona de conforto que já não é "analista político" ou "comentador". Insisto com ele que o que me interessa é a opinião dele como cidadão. Pergunto-lhe se, no plano dos apoios sociais, os anos de crise foram difíceis para a fundação. "As solicitações são enormíssimas porque a situação do país - nós passámos por um resgate, ultrapassámos esse resgate, mas as condições sociais do país mantêm-se muito difíceis. E é claro, não tenho nenhuma dúvida sobre isso, agravaram-se com a austeridade. Quer dizer, há mais desemprego. Eu vejo isso não apenas pelos projetos que apoiamos e pelos pedidos que nos chegam, mas também pelas pessoas que são minhas amigas e pelas que conheço que tinham bons empregos e que, de repente, se viram sem soluções. As condições sociais deterioraram-se no país, isso é indiscutível. E eu não sei se vamos ter condições para ultrapassar isto rapidamente. Eu tenho confiança nos políticos. Acredito que as pessoas estão bem-intencionadas e que procuram melhorar, de facto, a qualidade de vida dos seus concidadãos e fazer, a cada momento, as melhores escolhas para o país. Agora, a questão é que partimos de problemas estruturais e problemas de fundo que não se resolvem, seguramente, numa legislatura e muitos deles, se calhar, não se resolvem numa geração. Acho que temos ainda muito a aprender com os países nórdicos. Li neste verão um pequeno livrinho escrito pelo correspondente do Financial Times na Dinamarca chamado How to be Danish, que explica como é que um país que não tem muitos recursos, e não tinha nada de particularmente relevante como atividade económica, através da cooperação, por exemplo na área da alimentação, na área do mobiliário e na área da educação, conseguiu afirmar-se através dessa atitude, que nós não temos, que é a vontade de cooperar, de saber cooperar, de achar que quem está no mesmo ramo ou no mesmo setor que o nosso não está, necessariamente, a competir connosco. A nossa cultura continua a ser uma cultura de quintas, de pequenos poderes, de desconfianças e, sobretudo, de uma grande falta de sentido de cooperação."

É a deixa perfeita para voltar à política e à solução de governo inovadora a que se chegou depois das eleições de 4 de outubro de 2015, em que o PS, tendo perdido, conseguiu chegar ao poder com o apoio do PCP e do Bloco de Esquerda. "Acho que é uma solução normal. Acho que vivemos numa democracia. Vivemos numa democracia em que o Parlamento tem um peso muito relevante e, portanto, é normal que se encontrem maiorias no Parlamento. É aí que elas se devem encontrar. Acho que quem é democrata e vive em democracia tem de aceitar que a alternância democrática é normal. E tem de aceitar outra coisa: que todos os partidos que fazem parte do sistema partidário têm o direito de ser governo ou de apoiar um governo. Portanto, não há partidos de primeira nem partidos de segunda." Não é, portanto uma geringonça? "Acho piada à palavra, mas acho que este é um governo como qualquer outro." Miguel, como aliás ninguém, não adivinha se esta solução resiste quatro anos. Limita-se a dizer que o que é desejável é que haja estabilidade e que os governos durem as legislaturas completas.

Aproveito o ano pós-jornalismo em que viveu no Brasil onde, a par de Angola, ajudou a lançar alguns projetos empresariais. O almoço acontece no dia seguinte à madrugada do impeachment de Dilma Rousseff. Diz que só viu parte do que se passou na Câmara dos Deputados porque gosta de se levantar muito cedo e por isso é quase sempre derrotado pelo sono quando a noite avança para horas tardias.

Já com a imprensa brasileira consultada, Miguel Coutinho não ficou surpreendido com o que se passou. "O que vi e os comentários que ouvi e li depois não me surpreenderam. Aquela Câmara dos Deputados é uma manta de retalhos de algumas figuras que, se calhar, na Europa não estamos muito habituados a ver nos parlamentos. Portanto, toda aquela pulsão um bocadinho circense - parecia, um bocadinho, um espetáculo de circo - não me surpreende. O Brasil tem coisas magníficas, tem tudo para dar certo, mas insiste em dar errado pela elite política que tem." O processo de destituição da presidente está agora dependente do voto do Senado brasileiro. A pergunta óbvia é se Dilma está politicamente condenada. "Não sei. Temos o exemplo do Churchill que perdeu várias eleições e que voltou sempre. Na política não há mortes, na política há ressurreições. Temos assistido a isso variadíssimas vezes e, portanto, na política nunca arrisco dizer que algo é definitivo."

Já com os cafés na mesa, falamos de futebol. Partilhamos a paixão pelo Sporting. O Miguel, tal como eu, é assíduo no Estádio de Alvalade. "Faço tudo aquilo que os adeptos têm o direito de fazer num estádio, mas tento sempre controlar-me o mais possível para não chamar nomes aos árbitros. Mas há uns que, de facto, abusam [risos]." Para Jorge Jesus só tem elogios. "Está muito na moda dizer mal do Jorge Jesus. Mas acho que o Jorge Jesus trouxe aos sportinguistas uma nova alma, uma nova paixão pelo jogo, uma nova capacidade de acreditar e de praticar melhor futebol, com alma, ir ao estádio e ter prazer. Vê-se que os jogadores estão empenhados. E isso deve-se a ele. Acho que só se pode dever a ele, não é? A equipa não mudou assim tanto. O que mudou, de facto, foi o treinador. É um líder e é isso que espero dos líderes, no futebol, nas empresas, na política, é que sejam capazes de galvanizar, de motivar e de, neste caso, pôr a equipa a fazer aquilo que ela pode fazer. Portanto, superar-se, fazer melhor em todos os jogos. E o Jorge Jesus conseguiu isso e em muito pouco tempo. E, portanto, sou um fã do Jorge Jesus. Mesmo que ele, para a próxima época, depois de ganhar o campeonato pelo Sporting, vá treinar o Futebol Clube do Porto, continuarei a dizer que ele é um grande treinador."
A conversa termina à porta do restaurante. É segunda-feira. Já só faltam seis dias para que o Miguel cumpra o ritual dos sábados ao almoço: voltar ao Poleiro.

O poleiro

Pataniscas de camarão

Petingas fritas

1 água

1 copo de vinho branco

4 cafés

Total: 42,40 euros

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