Na hora do voto, eles desalinham da bancada. "E temos vivido bem"

Há três socialistas e dois sociais-democratas entre os deputados que votam de forma distinta do sentido de voto indicado pelo grupo parlamentar. Por coerência e consciência

Três socialistas e dois sociais-democratas são os deputados mais desalinhados das suas bancadas parlamentares, segundo uma contabilidade publicada no siteHemiciclo. Uma questão de consciência e coerência, defendem, quando ouvidos pelo DN. Só no PCP e no PEV não houve dissidências na hora do voto.

Por 35 vezes, Paulo Trigo Pereira, foi quem mais vezes votou "de forma distinta do sentido de voto indicado pelo seu grupo parlamentar", como se explica no site para esse "top dos desalinhados". Professor catedrático com doutoramento em Economia, Trigo Pereira sublinha o seu currículo para justificar as votações. "Sou dos poucos deputados independentes", entre o grupo parlamentar do PS. "Tenho a noção que poderia ser dos mais desalinhados", reconhece ao DN. "Não sendo matéria de disciplina de voto e se discordo..."

O deputado faz questão de notar que assinou um compromisso ético enquanto parlamentar socialista. "Em matérias em que há disciplina de voto cumpro escrupulosamente o sentido de voto", mesmo que pudesse discordar. No documento está prevista a disciplina de voto em moções de censura ou de confiança, no programa do Governo e nos orçamentos do Estado. A regra é a liberdade de voto.

"Do ponto de vista económico, sou moderado. Em questões de direitos sociais, sou à esquerda", descreve Trigo Pereira, acrescentando matérias de política internacional, como no caso da prisão de Luaty Beirão em Angola. "Duas palavras chave da minha ética individual: lealdade e liberdade", sintetiza. E vota em coerência com as suas posições públicas "muito claras", explica, exemplificando com "escritos" antigos, nomeadamente sobre os impostos da Madeira.

Esta região autónoma é responsável por votos desalinhados da deputada social-democrata Rubina Berardo. Eleita pela Madeira, a parlamentar considera que, em matérias que dizem respeito à região, deve "colocar a região à frente da questão partidária". Por vezes, com consequências: quando os deputados do PSD eleitos pela Madeira desalinharam da sua bancada na aprovação do Orçamento retificativo, por causa do Banif, foram levantados processos disciplinares.

"As coisas têm consequências, estou ciente disso e estou tranquila com isso." "São eleitos deputados e não governos e isso tem como consequência última a maior ligação a quem os elege", justifica ao DN.

Outras matérias onde Rubina Berardo tem votado de forma distinta é em temas de "consciência", como lhes chama. "Há pluralidade no grupo parlamentar para haver essas votações diferentes nessas temáticas", considera. São votações "mais pacíficas".

Entre o CDS, o deputado mais desalinhado é João Rebelo. Na bancada centrista há uma outra curiosidade: Nuno Magalhães, o líder parlamentar, já votou por cinco vezes de forma distinta do grupo que lidera. A explicação é simples, revela o próprio: "Dei liberdade de voto total, libertária", em questões relacionadas com touradas e uma ou outra matéria fraturante. Ou seja, cada um, Magalhães incluído, votou como entendeu.

Na bancada comunista ninguém votou de forma distinta: o alinhamento é total, votação após votação. O mesmo se passa no PEV, embora sejam só dois deputados. O que acontece é Heloísa Apolónia e José Luís Ferreira votarem de forma distinta dos seus parceiros de coligação, o PCP. No BE, há um único desalinhado: Jorge Falcato já votou por duas vezes de forma diferente dos seus colegas de bancada.

Para Trigo Pereira, votar desalinhadamente "é um direito do deputado". E explica-se: "Isto é a minha conceção. Não considero uma liberdade que me dão. Tenho direitos como deputado. E temos vivido bem", conclui.

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