Marcelo quer políticos exemplares para o povo. Mas o povo não estava lá

O Presidente da República voltou às comemorações do 5 de Outubro para pedir aos políticos que sejam exemplo de humildade e independência. Na Praça do Município não havia muitos populares para o ouvir

A meteorologia pode explicar: estava sol, muito sol, um sol baixo de outono, e na Praça do Município, em Lisboa, ali no meio não havia como lhe escapar. A arrumação da praça também pode ajudar a explicar: com as cadeiras do poder e dos convidados de honra dispostas defronte dos Paços do Concelho, sobravam os lados e atrás para acompanhar a cerimónia dos 106 anos da Implantação da República. Mas lá atrás via-se pouco mais do que o palanque das câmaras de televisão (melhor ver pela TV mesmo).

Estava longe o pouco povo que ali foi, o mesmo que tomou a praça a 5 de outubro de 1910 para saudar a República, o mesmo que Marcelo Rebelo de Sousa procurou trazer para o centro da política nos dias de hoje. Foi o Presidente quem o disse: "O 5 de Outubro está vivo, mas só se nós todos lhe dermos vida para que mais e mais portugueses possam rever-se na República democrática, para que mais portugueses possam acreditar em Portugal."

Pelo exemplo é que vamos, defendeu Marcelo. "O exemplo dos que exercem o poder é fundamental sempre para que o povo continue a acreditar no 5 de Outubro", justificou ainda o Chefe do Estado, na que foi a sua primeira cerimónia da Implantação da República do seu mandato - e que voltou à rua, em dia feriado reposto.

É outra explicação possível: em dia festivo, com a abertura de um novo museu em Lisboa, o sol a pedir mar, as pessoas evitaram a Baixa. O Presidente da República voltou a participar na cerimónia, depois da ausência de Cavaco Silva em 2015, justificando-se então com as eleições da véspera e de que precisava refletir sobre a situação.

Ladeado de três socialistas (o primeiro-ministro, António Costa, o presidente do Parlamento, Ferro Rodrigues, e o anfitrião presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina), Marcelo Rebelo de Sousa recordou que "está vivo o princípio de que todo o poder político é temporário, não se transmite por herança nem comporta a escolha do sucessor, está vivo o princípio de que todo o poder político é limitado, sujeito a controlo por outro poder político e sempre pelo povo".

Nos sete minutos e 43 segundos de discurso, o Presidente da República defendeu que "a razão de ser de desilusões, de desconfianças, de descrenças" nasce do "cansaço perante casos a mais de princípios vividos de menos".

Marcelo expôs de onde vem esse cansaço: "De cada vez que um responsável público se deslumbra com o poder, se acha o centro do mundo, se permite admitir dependências pessoais e funcionais, se distancia dos governados, aparenta considerar-se eterno, alimenta clientelas, redes de influência de promoção social, económica e política." Não houve nomes, mas pela cabeça de muitos passaram casos de justiça recentes como os que envolvem o antigo primeiro-ministro José Sócrates.

Arrumada a questão de regime - segundo o Presidente, a República não está hoje em causa nem os portugueses querem o regresso "a uma ditadura, aberta ou disfarçada, permanente ou temporária" -, Marcelo Rebelo de Sousa destacou a necessidade de quem exerce o poder de dar o exemplo de "constante humildade, de proximidade, de frugalidade, de independência, de serviço pelos outros, de todos os outros, mas com natural atenção aos mais pobres, carenciados, excluídos".

Do outro lado do palanque presidencial, António Costa tomou devida nota, como apontaria no final aos jornalista. "Eu acho que felizmente temos hoje cada vez mais uma sociedade mais informada e portanto mais crítica, e mais exigente, isso implica de todos nós um esforço acrescido para valorizar e dignificar a vida política", disse o primeiro-ministro. "A primeira forma de o fazer é retomar um valor há muito tempo esquecido, que é prometer e cumprir, cumprir aquilo que se promete, cumprir os compromissos que se assumem", atirou, repetindo um argumento que tem sido a sua senha sobre a governação.

Como manda a tradição, o outro discurso da manhã foi do presidente da Câmara de Lisboa. Fernando Medina fê-lo pela segunda vez nessa qualidade, alternando o seu discurso entre o elogio em causa própria da obra que vai fazendo no município e a defesa da "solução política saída do quadro parlamentar".

Há um ano, Medina pedia "um novo ciclo de compromisso", ontem disse que se deve "reconhecer" que a maioria parlamentar de esquerda que apoia o governo PS "está a dar resposta à vontade expressa pelos portugueses nas eleições: prosseguir uma política de recuperação gradual dos rendimentos, sem rutura no quadro do relacionamento europeu".

A um ano das autárquicas, o presidente da Câmara de Lisboa também teve as suas farpas para a única candidata conhecida à autarquia, a presidente do CDS, Assunção Cristas, sentada de verde republicano na primeira fila.

"Em Lisboa não estamos à espera de outro tempo ou de outro vento", atirou, numa referência à frase com que Cristas se apresentou como candidata. "Tenho o vento de Lisboa colado à minha pele e a água do Tejo colada à minha alma", disse então a líder centrista, que não foi saudada na longa lista protocolar lida por Medina. Só Passos Coelho foi nomeado como "presidente do PSD".

O autarca socialista saudou também a celebração "numa praça aberta ao povo". Pena que o povo estivesse longe e quase ausente.

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