Mar revolto em Vila do Conde. Poder dos socialistas em risco

Zangaram-se os socialistas em Vila do Conde, que governam no concelho desde o 25 de Abril. Atual presidente que sucedeu a histórico autarca do PS avança como independente. À direita, candidato da coligação PSD-CDS faz as contas e sonha com a vitória

Desemboca-se defronte para o oceano, áspero como é a norte, a fustigar as rochas, a avenida logo ali e a Igreja do Senhor dos Navegantes, uma barca em frente ao mar das Caxinas, comunidade piscatória das terras de Vila do Conde. É uma primeira linha de assimetrias que se traça neste concelho, acusa quem desde as primeiras eleições autárquicas de 1976 sempre esteve na oposição.

O concelho só conheceu uma cor no Portugal democrático, a do PS, dirigido durante 32 anos por um dos políticos que assim inscreveram o seu nome no paleolítico autárquico, Mário de Almeida, e que prolongou a sua influência no município como presidente da Assembleia Municipal desde 2013.

Agora, os socialistas correm o risco de ser apeados dos paços do concelho: a presidente eleita, Elisa Ferraz, sucessora de Mário de Almeida, entrou em rutura com os seus e avança como independente, com o movimento NAU (Nós Avançamos Unidos). Sobre isso, a atual presidente da Câmara de Vila do Conde prefere não falar ao DN. Falam os seus adversários, como Constantino Silva, que lidera uma coligação PSD-CDS e faz as contas a 2013 para melhor sonhar. "Há quatro anos, o PSD teve 14 mil votos, o PS 18 mil e o CDS mais de mil. Não posso esquecer que Elisa Ferraz está há 16 anos no poder, primeiro como vereadora, depois como vice-presidente de Mário de Almeida. Não deixa de ser socialista", aponta.

Elisa Ferraz reivindica para si o trabalho autárquico. "Temos um projeto que é reconhecido", e chama a si uma "grande bandeira": Vila do Conde foi "um dos municípios exemplares" a sair do PAEL (Programa de Apoio à Economia Local), senha para um programa de resgate financeiro, que impôs constrangimentos.

António Caetano, o atual vice--presidente e agora cabeça-de-lista do PS, confia que os eleitores de Vila do Conde valorizem os mais de 40 anos de poder socialista. "O projeto do PS é largamente validado e sufragado" desde 1976, sublinhando que este projeto "acrescentou qualidade de vida aos vilacondenses". Sim, mas - responde a oposição com reticências. Há lugares sem saneamento básico, há uma rede viária deficiente, os impostos são altos. E o rol de queixas e falhas vai-se desfiando e não cabe no espaço deste texto.

Assimetrias é a palavra que (quase) todos repetem quando falam sobre o município. Quem está na oposição, sociais-democratas e centristas, comunistas ou bloquistas, aponta o dedo aos socialistas. Quem tem estado no poder reconhece que é preciso dar atenção às freguesias. É por isso que Pedro Martins, o candidato da CDU, fala na necessidade de "eliminar a assimetria entre as freguesias e a sede de concelho", mas também na cidade de Vila do Conde. "O núcleo mais histórico, a zona ribeirinha, tem sido privilegiado relativamente a Caxinas. E todos os outros lugares são esquecidos, resumem-se a dormitórios."

Também António Louro Miguel, do BE, aponta a necessidade de apostar nas "infraestruturas de que o concelho carece", notando que o investimento "é muito assimétrico", como é também a rede rodoviária. É necessário, diz, "desencravar as freguesias do Interior".

Constantino Silva aponta idêntico retrato: "Há uma discrepância e injustiça enorme no investimento municipal: as freguesias [fora da sede] do concelho representam 60% da população e 30% do investimento. Há uma assimetria enorme, a cidade tem qualidade de vida, está muito bonita, mas nas freguesias falta tudo", diz quem não tem saneamento na sua casa de Macieira da Maia.

Não é só conversa da oposição. Elisa Ferraz reconhece que - agora com "um projeto novo" que "gostaria de alargar a todo o concelho" - é preciso resolver o "problema grave" no município que é o da rede viária, facilitando a "mobilidade interfreguesias", abrindo vias que fazem parte do plano diretor municipal. E António Caetano aponta para a necessidade de "reforçar a coesão social" num projeto em que as freguesias terão "toda a atenção" do PS.

O que separa, afinal, as diferentes candidaturas são diagnósticos mais fundos. A atual presidente defende-se com as contas "saudáveis" que agora é possível apresentar e que são para manter. "É preciso continuar a investir, partir para projetos que não comprometam a saúde financeira do município", avisa Elisa Ferraz. Que quer manter uma "gestão de proximidade" que contemple as "questões sociais", em "sentido lato", que atenda às "necessidades das famílias". António Caetano quer o PS a governar por mais quatro anos, apostando no "reforço do apoio ao movimento associativo, juntas e paróquias e outros parceiros sociais", "incentivando-os mesmo a assumir competências" nas suas áreas. O socialista quer recuperar aquele que diz ter sido sempre um "desígnio" do partido no concelho que é o "da educação".

O candidato do PSD-CDS, Constantino Silva, quer levar o saneamento e a água a todo o concelho, renegociar o preço da água (ele que aponta o dedo à privatização da empresa), equilibrar o investimento municipal e construir um Museu do Mar nas Caxinas. Pedro Martins diz que a CDU vai avançar com um plano estratégico para desenvolvimento do concelho e reduzir o passivo. E o BE vai propor um orçamento participativo e uma política de ação social efetiva.

A 1 de outubro todos esperam o melhor resultado, mas no mar revolto de Vila do Conde o barco da maioria socialista de 41 anos parece estar definitivamente em perigo.

Exclusivos

Premium

João Taborda da Gama

Linhas cinzentas

Era muito arrogante, mas era verdade, e como era verdade e era arrogante eu não me cansava de o dizer, quando na minha vida a arrogância e a verdade tinham um peso maior do que hoje. E o que era verdade é que já tinha ido mais vezes a Paris do que a Cascais e o que era arrogante era dizê-lo em todo o lado, junto de quem quer que fosse, mesmo quem nunca tivesse ido a Paris, ou a Cascais, e quisesse. Tenho vindo aqui mais vezes nos últimos tempos descobrir novos nomes, novas terras, pôr caras nas terras, de Bicesse, que em criança achava ser em Angola, a Pau Gordo, que não sabia que existia.

Premium

Viriato Soromenho Marques

Na hora dos lobos

Na ação governativa emergem os sinais de arrogância e de expedita interpretação instrumental das leis. Como se ainda vivêssemos no tempo da maioria absoluta de um primeiro-ministro, que o PS apoiou entusiasticamente, e que hoje - acusado do maior e mais danoso escândalo político do último século - tem como único álibi perante a justiça provar que nunca foi capaz de viver sem o esbulho contumaz do pecúlio da família e dos amigos. Seria de esperar que o PS, por mera prudência estratégica, moderasse a sua ação, observando estritamente o normativo legal.

Premium

Rogério Casanova

Arquitectura fundida

Uma consequência inevitável da longevidade enquanto figura pública é a promoção automática a um escalão superior de figura pública: caso se aguentem algumas décadas em funções, deixam de ser tratadas como as outras figuras públicas e passam a ser tratadas como encarnações seculares de sábios religiosos - aqueles que costumavam ficar quinze anos seguidos sentados em posição de lótus a alimentar-se exclusivamente de bambu antes de explicarem o mundo em parábolas. A figura pública pode não desejar essa promoção, e pode até nem detectar a sua chegada. Os sinais acumulam-se lentamente. De um momento para o outro, frases suas começam a ser citadas em memes inspiradores no Facebook; há presidentes a espetar-lhes condecorações no peito, recebe convites mensais para debates em que se tenciona "pensar o país". E um dia, subitamente, a figura pública dá por si sentada à frente de uma câmera de televisão, enquanto Fátima Campos Ferreira lhe pergunta coisas como "Considera-se uma pessoa de emoções?" ou "Acredita em Deus?".

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Ler e/ou escrever

Há muitos anos, recebi um original de ficção de uma autora estreante que pedia uma opinião absolutamente sincera sobre a sua obra. Designar por "obra" o que ainda não devia passar de um rascunho fez-me logo pensar em ego inflamado. Por isso decidi que, se a resposta fosse negativa, não entraria em detalhes, sob o risco de o castelo de cartas cair com demasiado estrondo. Comecei pela sinopse; mas, além de só prometer banalidades, tinha uma repetição escusada, uma imagem de gosto duvidoso, um parêntese que abria e não fechava e até um erro ortográfico que, mesmo com boa vontade, não podia ser gralha. O romance propriamente dito não era melhor, e recusei-o invocando a estrutura confusa, o final previsível, inconsistências várias e um certo desconhecimento da gramática.