Mais de 44 mil doentes foram mais de quatro vezes às urgências num ano

Retrato da Administração Regional de Saúde Lisboa e Vale do Tejo mostrou que cerca de um terço dos utilizadores frequentes tem mais de 70 anos

Em 2015, mais de 44 mil doentes da região de Lisboa foram mais de quatro vezes às urgências hospitalares. Os utilizadores frequentes são sobretudo idosos e os principais motivos que os levaram ao hospital foram situações de doenças crónicas e do âmbito do apoio social. O retrato está a ser feito pela Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo (ARSLVT), com base nos dados de 2015, e que já permitiu eleger um conjunto de medidas a implementar, como reforçar a comunicação diária entre as equipas dos hospitais e dos centros de saúde, para reduzir as falsas urgências.

O retrato preliminar da região está traçado. Em 2015, cerca de 45% das urgências foram pulseiras verdes, azuis e brancas (falsas urgências) e 44 283 utilizadores (4,5%), de um universo de 988 mil, foram mais de quatro vezes a este serviço hospitalar, o que os torna utilizadores frequentes. Ainda não é possível apurar por quantos episódios de urgência foram responsáveis e qual a percentagem que justificaria ou não a ida ao hospital.

Nesse ano, segundo dados da Administração Central do Sistema de Saúde, os hospitais de Lisboa e Vale do Tejo realizaram 2,2 milhões de urgências. Esta é a segunda maior região de saúde do país, com 3,6 milhões de utentes inscritos nos centros de saúde. Tem 15 agrupamentos de centros de saúde e 21 hospitais, é uma das que mais falta tem de médicos de família e a que nos últimos anos tem registado a percentagem mais alta de falsas urgências.

"A população está a envelhecer e é essa a população mais debilitada, que geralmente fica internada, com mais doenças. Ainda somos a região mais carenciada de médicos de família, embora estejamos a melhorar substancialmente. No ano passado contratámos 140 médicos de família e 80 clínicos reformados, o que permitiu aumentar a cobertura para que não existam falhas. Quem precisar, tem um médico para lhe prestar assistência nos cuidados de saúde primários", diz ao DN Rosa Matos, presidente da ARSLVT.

Cerca de um terço dos utilizadores frequentes tem mais de 70 anos. Os principais motivos que os levaram às urgências foram situações de descompensação de doença cardiovascular, respiratória, psiquiátrica, neurológica e do âmbito do apoio social. "Muitos dos nossos idosos vivem sozinhos, esquecem-se de fazer a medicação, outros desconhecem o que têm de fazer. Há também a questão económica, em que não têm dinheiro para levar todos os medicamentos. Pode haver situações em que o doente não tem o seguimento que deveria no centro de saúde, que espero que seja uma percentagem mínima. É um conjunto de fatores que pode levar à descompensação", refere.

Quanto aos casos de cariz social, Rosa Matos lembra que é um reflexo da solidão. "A noite é terrível e mesmo não tendo um problema de saúde, as pessoas precisam de apoio e procuram carinho. Qual o sítio que está aberto 24 horas por dia e é quente? Temos de fazer a ligação entre a saúde e os serviços sociais, paróquias, autarquias", diz.

A ARSLVT já está a analisar os números de 2016, de modo a ter um retrato global continuado, ao mesmo tempo que, com os dados de 2015, está a estudar o perfil de utilizadores de cada um dos hospitais da região. "As populações de cada zona são diferentes e posso ter características diferentes que precisem de respostas direcionadas."

Para já, têm o perfil de um grande hospital que mostrou que 4,4% são utilizadores frequentes e que realizaram 16% das urgências. Em média foram 5,4 vezes a este serviço e fizeram 6,5 consultas no centro de saúde no mesmo período e 84% tem médico de família atribuído. "O que vemos neste caso é que os grandes utilizadores das urgências são também grandes consumidores de cuidados de saúde primários e têm assistência. É este grupo que temos de trabalhar", diz.

Estão já a ser implementadas medidas como o reforço da articulação entre as equipas dos hospitais e as dos centros de saúde, reforçar a comunicação interna entre os médicos com envio diário de informação por parte das urgências aos centros de saúde, dados sobre quem foi internado, quem terá altas nas 72 horas seguintes e que cuidados vai precisar. A aposta passa também pela ligação mais próxima com serviços sociais e instituições de solidariedade, lares, autarquias e rede de cuidados continuados e ainda formação dos utentes para que saibam lidar melhor com a sua doença. "Este é um trabalho conjunto que já está a ser feito, primeiro nas zonas onde a situação é mais prioritária", explica.

Mudanças são precisas

Os motivos de descompensação podem ser vários, diz Miguel Guimarães, bastonário dos médicos, desde faltar às consultas ou não fazer a medicação: "Não tem que ver com os médicos de família. Um dos grandes problemas é que a estrutura familiar é mais pequena, mais fraca". A Ordem tem feito várias propostas para melhorar as urgências. "Temos de ter mais médicos de família, centros de saúde abertos até mais tarde, com capacidade de pedirem exames simples. Mas mesmo isto só funciona se existir um grande programa de informação e educação para que as pessoas percebam em que situações devem ir aos centros de saúde e quais são urgências", aponta o responsável, que considera que a organização das urgências é fundamental. Uma das propostas é a criação de equipas dedicadas e maior articulação com lares e cuidados continuados.

Rui Nogueira, presidente da Associação dos Médicos de Família, explica que muitas vezes é o médico de família que encaminha o doente em descompensação para o hospital. As urgências acabam por ser a porta de entrada. "Uma consulta de especialidade prioritária tem de ter resposta em 30 dias. Para uma descompensação é muito tempo. Deveria haver um mecanismo para uma consulta rápida, em dois ou três dias", diz, sugerindo que nas grandes cidades existem urgências básicas, que permitam drenar casos que não precisam de urgências tão especializadas como as dos grandes hospitais.

Medidas implementadas em Lisboa e Vale do Tejo

Hospitais e centros de saúde mais próximos

Nas consultas de teledermatologia estão envolvidos quatro hospitais e nove agrupamentos de centros de saúde. Desde o início de 2016 é possível fazer diagnóstico precoce de cancro da pele num centro de saúde, que envia a imagem ou faz a consulta em direto com um médico especialista de um hospital. Foi também possível reduzir os tempos de espera com este método. A teledermatologia representa já 6% do total das primeiras consultas da especialidade.

Obesidade: Projeto@prender.mais

Este é um projeto de identificação, prevenção e controlo da obesidade infantil no concelho das Caldas da Rainha. Os promotores do projeto são a Câmara Munici-pal, o agrupamento de centros de saúde Oeste Norte e a Associação nacional de Animação e Educação. A iniciativa passa por rastrear as crianças do primeiro ano do 1.º ciclo para identificar as que têm excesso de peso e obesidade e fornecer consultas especializadas de nutrição para reduzir a prevalência.

"Saúde a seu lado" em Odivelas

Este é o nome da unidade de cuidados na comunidade do agrupamento de centros de saúde Loures-Odivelas. Uma equipa multidisciplinar com áreas prioritárias de intervenção tendo em conta as características da população local. Fazem intervenção junto de pessoas dependentes e dos cuidadores, junto de grupos em risco de exclusão social, de pobreza, de violência ou de negligência, e aposta em ações para promoção da saúde.

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