Mais de 40% dos militares contratados admite que a carreira os desiludiu

Quase metade dos jovens disseram ter recebido informação prévia sobre as Forças Armadas que não correspondia à realidade.

Aumentar o salário dos militares voluntários e contratados seria importante para atrair e manter os jovens nas fileiras. Porém, são os próprios a dizer que as principais razões para o seu afastamento das Forças Armadas (FA) são outras e decorrem da sua vivência profissional.

Esta informação foi dada ontem pelo diretor-geral de Recursos da Defesa Nacional, Alberto Coelho, numa conferência organizada pela Comissão parlamentar de Defesa sobre as dificuldades e desafios do recrutamento militar - onde o "passa-palavra" de quem está nas fileiras é um fator importante no interesse e motivação dos potenciais candidatos ao ingresso nas FA.

"Poderá ser relevante" aumentar os salários, pois a diferença entre o que ganham as praças e o valor do salário mínimo é já inferior aos 40 euros - e acabar com a imposição de o pagar apenas 196 euros nos primeiros quatro meses nas fileiras ajuda, assumiu Alberto Coelho. No entanto, "a atuação mais urgente e prioritária é dentro do percurso profissional" dos voluntários e contratados, argumentou o responsável, avançando alguns números: 38,9% desses militares - no conjunto dos três ramos - revelaram-se insatisfeitos e 24,5% mostraram-se indiferentes; "quase 46%" afirmaram ter recebido informação no momento do ingresso que depois "não correspondeu" à realidade; cerca de 43% disseram não ter concretizado as suas expectativas iniciais.

Também o anterior chefe do Estado-Maior da Força Aérea, general José Pinheiro, alertou para os efeitos do "passa-palavra" quando os ramos são incapazes de dizer aos candidatos quando podem iniciar a recruta (dada a incerteza na obtenção das autorizações das Finanças para concretizar as incorporações).

"Se a "geração milénio" não tem a resposta na hora desinteressa-se e vai buscar outro tipo de interesses", registou José Pinheiro. E como "o passa-palavra é fundamental, este tipo de incerteza, este tipo de cortes, de quebras de cadeia, acabam por ter influência negativa" na atração dos jovens, assinalou também o general. Acresce que a falta de efetivos causa sobrecarga de trabalho nos que estão - o que "desmotiva algumas especialidades, mais sacrificadas, porque o seu tempo operacional é contínuo" e se repercute no "passa-palavra" para quem está fora das FA e é um potencial candidato às fileiras.

"A culpa nunca é do cliente"

À margem da conferência, o ministro da Defesa disse ao DN estar em fase de conclusão um estudo com base em inquéritos feitos junto dos contratados, onde se "procura perceber porque motivo alguém que inicia a sua carreira pode depois ter, a meio do percurso, uma opinião muito mais negativa que aquela que tinha inicialmente".

"Isso não é normal", declarou Azeredo Lopes, lamentando que essa perceção negativa e muitas das desistências (em muitos casos pagando indemnizações) ocorram "logo numa fase tão prematura" do respetivo contrato. Para o ministro, importa "ter a humildade de perceber" que "a culpa nunca é do cliente" - leia-se dos jovens.

Daí a importância, como referiu perante os participantes na conferência realizada no Parlamento, dos resultados do referido estudo para serem adotadas "medidas concretas" em matéria recrutamento e retenção dos jovens nas fileiras - em vez de fundadas em "meras impressões ou convicções".

É certo que até ao final de 2017, reconheceu Azeredo Lopes, "o jovem pagava literalmente para poder ter o privilégio de estar nas FA" ao receber apenas 196 euros durante os primeiros quatro meses de vida militar. Mas, até perante os recorrentes apelos para se regressar ao modelo de serviço militar obrigatório (SMO), o ministro da Defesa lembrou ao DN que "as dificuldades de recrutamento não se colocam apenas ao nível das praças" - o que parece reforçar a mensagem de que o valor do salário (mais alto nas categorias de oficiais e sargentos) não é o principal fator de afastamento e ou desilusão com a carreira militar.

"Quando falamos do regresso do SMO, tendemos a replicar modelo que conhecemos, mas aquilo que está a desenhar-se" nos países onde a questão tem vindo a ser debatida e até aprovada - como em França e na Suécia - "fica muito aquém do sistema universal", assinalou o governante.

Outro dado também referido por Alberto Coelho e que aparenta ir no mesmo sentido resulta das diferenças significativas - sendo os salários iguais - que há entre militares dos diferentes ramos: se em pelo menos um existem "70% dos militares" a dizer que recomendam o ingresso de amigos nas FA, noutros há o mesmo nível percentual de contratados a dizer que fariam o contrário.

Helena Carreira, investigadora de questões ligadas às FA e que está envolvida nos estudos em curso no Ministério da Defesa, considerou "uma urgência" concretizar-se o processo de certificação dos cursos ministrados nas Forças Armadas, algo anunciado há anos para os voluntários - e até antes do fim do SMO. "Não ter feito isso talvez explique os problemas de retenção", alertou a professora universitária.

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