Liderar o PS foi a melhor escola para gerir conflitos

António Guterres invocou exemplos da vida pessoal e política para convencer a ONU de que será o melhor secretário-geral

Gerir conflitos e crises pelo mundo fora é um dos papéis que o secretário-geral da ONU mais vezes tem de protagonizar. Ora, para António Guterres, que liderou durante dez anos o Partido Socialista, essa é uma qualificação que faz parte de si. "Não há nenhum trabalho em que seja preciso lidar tanto com crises como na liderança de um partido. A minha vida tem sido gerir crises", garantiu na audição ontem em Nova Iorque, perante os representantes dos Estados membros das Nações Unidas.

O ex-alto-comissário para os Refugiados apresentou-se firme, discurso fluido, passando sem qualquer hesitação do inglês para o francês, deste para o espanhol e de novo para o inglês. Recordou a importância do diálogo e na capacidade do secretário-geral da ONU para o promover. "Não devemos querer dar lições a ninguém ou ser arrogantes, devemos ser humildes e fazer os outros compreender que todos queremos o bem comum", sublinhou. Outra vez, recordações da experiência em Portugal. "Quando fui primeiro-ministro, uma das coisas de que me acusavam era investir demasiado no diálogo. Acho que na ONU isso é uma vantagem", salientou.

Não podemos continuar a mandar missões de manutenção de paz para sítios onde não há paz

Para exemplificar melhor porque entende que as migrações devem ser vistas como um "instrumento importante" no desenvolvimento das sociedades, principalmente as ocidentais, invocou uma situação familiar. "Não podemos sobreviver sem as migrações. O melhor exemplo que posso dar é o da minha mãe. Sempre que a visito em Lisboa nunca vi uma portuguesa a tomar conta dela", confidenciou.

Novas políticas de apoio às "migrações legais", fazendo que sejam uma "opção de vida e não um ato de desespero" e combate "sem tréguas" ao terrorismo, ao radicalismo, ao racismo, ao antissemitismo e ao islamofobia estão na lista de prioridades de Guterres. A palavra de ordem, como fez questão de sublinhar repetindo três vezes, é a "prevenção". E esta "prevenção" tem por base três pilares fundamentais da ONU: os direitos humanos, a paz e segurança e o desenvolvimento. Tudo com um apoio de parcerias com organizações regionais. "Não podemos continuar a mandar missões de manutenção de paz para sítios onde não há paz", disse.

Mónica Ferro, especialista em Nações Unidas e professora no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, destaca a audição de António Guterres como a "mais bem preparada",até ao momento. "Como professora dava-lhe um excelente", assinala. Mónica Ferro registou "um discurso apelativo, que até provocou mais perguntas, muita energia no discurso inicial" e a sua "frontalidade a lidar com o elefante branco na sala, que era o facto de não ser mulher". Quanto a isto, diz esta académica, Guterres "compromete-se com um roteiro concreto, com metas e datas marcadas, para a paridade nos cargos que estão sob a sua dependência e em promover essa mesma política na generalidade da organização". Mónica Ferro acredita que, quando até há um movimento na ONU (com 56 países) a defender que, pela primeira vez na história, seja uma mulher a liderar, será Helen Clark, ex-primeira-ministra neozelandesa a "principal rival" do português. "Têm um percurso político muito semelhante e também conhece bem a máquina da ONU, pois dirige atualmente o maior programa da organização que é o programa para o desenvolvimento. E, claro, é mulher."

Na sua página do Facebook, a secretária de Estado dos Assuntos Europeus, Margarida Marques, considerou "brilhante" a prestação de António Guterres. É, aliás, o governo português que está a financiar esta candidatura , como confirmou o próprio em resposta aos jornalistas depois da audição. "É uma campanha muito barata. O governo português paga-me as viagens, o hotel e algum apoio logístico. Não vai com certeza fazer ultrapassar os limites orçamentais a que está sujeito", revelou, com ironia.

Ontem, já depois de começarem as primeiras audições dos candidatos (Igor Luksic, de Montenegro e Irina Bukova, da Bulgária), surgiu um novo concorrente, o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros da Sérvia, Vuk Jeremic. Neste momento há nove candidatos ao mais alto cargo diplomático do mundo, ocupado atualmente pelo sul-coreano Ban Ki-moon: além dos quatro já referidos (António Guterres, Clark, Luksic, Bukova e Jeremic), há concorrentes da Moldávia, da Macedónia, da Eslovénia e da Croácia.

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