João Lagos: "Passei o fim de ano com Ricardo Salgado, na casa dele"

Almoço com o empresário João Lagos

Antes de chegar à mesa reservada no Vela Latina - onde já almoça Jorge Sampaio e hão de sentar-se, noutra mesa, José Eduardo Moniz e Marques Mendes -, João Lagos vai distribuindo saudações pelos empregados com quem se cruza. "Vinha aqui muito porque tinha o escritório mesmo aqui ao lado, isto era quase a cantina dos almoços de negócios." Razão suficiente para que ninguém estranhe o pedido de um prato que não aparece na lista: bife grelhado, mal passado, com ovos mexidos e arroz branco a acompanhar. Não é dieta, apesar de ter feito a última operação ao coração há um ano - "a parte óssea custou um bocadinho a recuperar" -, é comida de conforto, "daquela que só se come em casa". Estava ali tão à vontade que houve uma altura em que nem precisava de falar, "fazia uma espécie de mímica e eles já sabiam o que eu queria". Eu opto pela empada de caça e ele acompanha-me num copo de vinho tinto.

Separado de Maude Queiroz Pereira há perto de uma década, João Lagos tem passado mais tempo com os filhos, João e Tomás, e as netas - "são queridíssimas". E com amigos. No último ano, viu um deles subir ao topo e outro ir ao fundo. Diz que foi uma grande alegria ver Marcelo Rebelo de Sousa eleito Presidente. "É um dos meus grandes amigos e sonhou toda a vida chegar ao topo máximo; fez um percurso de vida imaculado para lá chegar. E fico feliz enquanto português, porque acho que é a pessoa certa para este papel - ninguém espere que ele vá fazer o jogo deste ou daquele. Vai ser muito bom para o país. Só posso ficar contente." Quanto a Ricardo Salgado, não hesita, os amigos são para todos os momentos. "Posso ser o primeiro crítico deles, mas essas conversas só se têm a dois." Quando o banqueiro esteve em prisão domiciliária, visitou-o muitas vezes. E para que não restem dúvidas: "Passei o fim de ano com ele em casa dele, com mais um grande amigo comum brasileiro."

João Lagos também sabe o que é ir ao fundo do poço. "Fui ao fundo. Mais falido menos falido, meio reformado e um bocado enxovalhado, mas agora resolvi arrancar de novo." Depois de dois anos parado, consequência da falência de que começa a recuperar, o antigo campeão nacional de ténis que pôs Portugal no ATP Tour com o Estoril Open (que liderou durante 25 anos), no campeonato mundial de surf WCT e trouxe o Dakar e a Volvo Ocean Race a Lisboa não tem sítio certo para trabalhar. "Faço o que tenho a fazer onde estiver; tenho o computador, o iPad, estes telefones modernos. Quando comecei, havia poucas hipóteses de recorrer a outsourcing, nós é que tínhamos de inventar e fazer: os serviços VIP, o vallet parking, coisas que acrescentam estrelas aos eventos. Hoje sou capaz de fazer quase tudo sozinho, contrato o que preciso fora. Há muita miudagem muito querida que cresceu na minha empresa e entretanto criou negócios." É com alguns deles que está a trabalhar num novo projeto no Jamor, a Copa Ibérica Spring Sports Festival. "Quero recomeçar devagar, a pulso e aproveitar a disponibilidade e boa vontade dos colaboradores que entendem estar comigo e ajudar-me a subir, que reconhecem que fui importante para eles, como eles o foram para mim. Vamos tentar pôr este evento de pé."

Das entradas na mesa, só toca no queijo fresco - pimenta a temperar. O evento, o único que não deixou cair, é um upgrade da Copa Ibérica, um torneio de veteranos que o amigo Appleton Figueira lhe pediu que continuasse. "Era ele que me dava as raquetes quando eu era miúdo e eu acabei por aceitar seguir com isto, graças a Deus ainda antes de ele morrer." Decidido a voltar às lides - "porque preciso" -, começou a transformar a prova, uma coisa simples, sem nomes famosos ou potencial para arrastar multidões, num evento. "Fui bater à porta do Jamor e eles ficaram encantados e ofereceram-me ajuda." O resto foi aparecendo com os amigos com quem se foi cruzando. Da falta de meios e sem dinheiro para montar uma estrutura, fez nascer a ideia de ter ali uma dúzia de roulottes de street food. Convidou as modalidades vizinhas (golfe, râguebi, tiro ao arco, hóquei) a juntarem-se à festa - "é o Roberto Durão, olímpico do pentatlo e que nunca me largou que está a servir de embaixador junto destas federações" -, juntou-lhes umas barraquinhas ligadas à saúde, um palco com música para animar e diz que já começam a aparecer alguns sponsors. "Vai ser completamente informal, sem bilhetes. É preciso que o São Pedro ajude nesses quatro dias do fim de semana de Páscoa, para ir muita gente." Tudo está a ser feito com antigos colaboradores, de acordo com a disponibilidade que cada um tem. "Vamos ver o efeito. Pode ser trampolim para outras iniciativas, mas com mais cuidado, sobretudo na gestão financeira." Enquanto vai fazendo desaparecer o bife - uma pausa de vez em quando para se certificar de que acompanha o meu ritmo -, conta as razões dos desaires que o fizeram regressar "ao princípio da estrada". "Tínhamos a empresa bem estruturada, mais de 80 pessoas a trabalhar, fazíamos muitas coisas naquela altura - ténis, golfe, hipismo, a vela veio mais tarde. Quando o Dakar estoirou, em 2008, e foi um estrondo monumental, rebentou com tudo." No 30.º ano do rali, estava tudo montado para uma celebração em grande quando a organização cancelou a prova por ameaças de terrorismo. Era quinta-feira à noite, o Dakar arrancava no sábado. Lagos fez de tudo para tentar impedi-lo, incluindo recorrer a um amigo diplomata para convencer o governo de Marrocos a garantir-lhe apoio de forma a conseguir que, sendo impossível entrar na Mauritânia, o rali fosse de Lisboa a Rabat e depois fizesse o caminho de regresso. Mas nem a garantia da colaboração do rei de Marrocos foi suficiente para convencer os organizadores do Dakar. "Cheguei a imaginar, com as minhas doses cavalares de otimismo, um rali que saía e chegava a Lisboa e transformaria a derrota numa vantagem. Mas isto para os franceses, este improviso português não entra no computador deles."

Já sofrera um azar semelhante em 2001. Viviam-se os primeiros anos do surf profissional e era o terceiro em que Portugal participava no WCT. Com tudo montado na Figueira da Foz e os atletas quase todos no local onde o campeonato começaria no dia seguinte, acontece o 11 de Setembro. Os americanos, entre os quais dois que se sagrariam campeões com aquela prova e outra etapa no Sul de França, foram impedidos de viajar. "E aconteceu o momento mais bonito de solidariedade desportiva que já vi: os outros atletas, alguns até tinham hipótese de ser campeões se os americanos não comparecessem, decidiram por unanimidade cancelar a prova." Nessa altura, porém, foi mais fácil recuperar. "Perdi o que tinha a perder, negociámos com os sponsors compensá-los com outros eventos e recuperei."

No Lisboa-Dakar, além do dinheiro gasto na organização, já investira e contratara novos eventos contando com o financiamento que viria do acordo para organizar a festa de encerramento do rali nos três anos seguintes. "Talvez tenha acelerado de mais, estava a contar com esse cash-flow... e de repente fiquei sem chão. Prejudicou a minha vida toda." O rebentar da crise financeira não ajudou. Com dívidas que não conseguia gerir e a perder sponsors à velocidade da luz - nos últimos três anos de Estoril Open até o BES, sponsor principal, se afastou -, viu-se obrigado a pedir um Processo Especial de Revitalização (PER). "Com o administrador judicial, de quem fiquei amigo, consegui o acordo de 80% dos credores para um perdão de 40% da dívida, que era de oito milhões de euros, sendo o restante pago a sete anos. Até festejámos no escritório dele quando contámos os votos. Mas a juíza que tinha de aprovar, partindo de pressupostos idiotas, chumbou o plano." A justificação, conta: não terem sido incluídos na lista alguns credores a quem entretanto tinha pago as dívidas para garantir que o Estoril Open acontecia. Seria o último. Em novembro desse mesmo ano anunciaria que não tinha condições para continuar a organizar o torneio.

O pastel de nata que não pediu - o empregado já a pousar o prato: "Quer o pastelinho, não é, já tem saudades..." - chega ao mesmo tempo que escolho a papaia, mas há de ficar guardado para acompanhar o café na altura devida. Mais magoado do que irado, reconhece que a ATP esperou até à última antes de entregar aquela semana a outros: "Havia mais candidatos, incluindo um grupo de bandidos que estava à espera que eu me afogasse." Custou-lhe ver o torneio entregue à 3Love - sociedade formada pela empresa alemã U.COM, com a qual trabalhou, pelo empresário holandês Van Veggel, "a quem cheguei a propor sociedade mas não aceitou", pelo diretor do Lisboa Racket Centre e pela Polaris de Jorge Mendes. Mas pior foi ver João Zilhão, diretor do Open desde o ano passado, associado a eles. "Ele começou comigo, a apanhar bolas, eu estava a preparar tudo para ele me suceder... Sou muito amigo da família, do pai dele. Foi uma traição."

Agora, está confiante de que vai levantar-se outra vez. "Desta vez já conheço o caminho e tenho um GPS" - os erros cometidos funcionam como sistema de alerta. E quanto ao resto, "eu sou católico, os castigos é Ele que os dá a quem entender, quando lá chegarem".

Peço o segundo café e a conta. Alguém já o espera no Jamor, para continuar os preparativos da Copa Ibérica Spring Sports Festival. Já faz contas de cabeça: se tudo correr bem, há de repetir o evento em outubro, um Autumn Festival.

Pergunto-lhe se continua a ter muita fé na Nossa Senhora de Fátima. "Muita!" Foi a Ela que recorreu desde o primeiro Estoril Open, em 1990, para garantir que chegava ao fim, apesar da chuva que quase todos os anos ameaçava a prova. O que pede hoje? "Que olhe por mim. Ela sabe melhor do que eu onde estou mais precisado..." Depois ri-se: "Olhe, se uma namorada não é boa para mim, que ponha outra no meu caminho."

Vela Latina

› 2 couvert

› 1 empada de caça

› 1 bife de novilho

› 2 copos de Crasto

› 1 água

› 1 pastel de nata

› 1 papaia

› 3 cafés

Total: 74,5 euros

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