Uma história que estava por fazer: a da medicina no século XX

João Lobo Antunes, já falecido, contribui com dois capítulos desta história da medicina

O Portugal de 1900 é radicalmente diferente do Portugal de 2000. Como a medicina. Este é o ponto de partida da obra hoje lançada

Em 100 anos, entre 1900 e 2000, Portugal mudou radicalmente: "O país todo teve uma evolução grande, são dois países muito diferentes", aponta ao DN Barros Veloso, médico e coordenador do livro Médicos e Sociedade - Para uma História da Medicina em Portugal no século XX (ed. By The Book), que é lançado hoje às 18.30, na Fundação Gulbenkian. O país como a medicina: em 100 anos tudo mudou e aquilo que este livro conta é essa história de um século - uma história que estava por fazer.

O médico recorda os planos nacionais de vacinação, a assistência médica da população, a proteção materno-infantil, o uso de antibióticos, ou a taxa de mortalidade infantil (que é hoje das mais baixas do mundo) são alguns possíveis exemplos dos avanços da medicina que tiveram reflexos na sociedade portuguesa.

Desde 1980, "houve uma revolução brutal com a tecnologia", com implicações na imagiologia e radiologia, por exemplo, "um conjunto de técnicas que mudaram completamente" o exercício da medicina.

Para Barros Veloso, esta obra, que teve o apoio da José de Mello Saúde, pretende preencher um espaço que estava em aberto, o de uma história da medicina que pudesse ser acessível ao público em geral. Um dos editores do livro, Henrique Leitão, diz na sua apresentação que, como historiador de ciência, logo "não especialista" e "evidentemente não médico", serviu de "contraponto", trazendo "as questões do público geral", "solicitava esclarecimentos sobre aqueles aspetos que o entendimento tácito entre médicos muitas vezes deixa por explicar" e "apontava as dúvidas e as curiosidades de quem vê a profissão médica de fora".

É esse diálogo permanente que percorre as mais de 800 páginas desta história da medicina, contada em 50 capítulos por 38 autores e com quase 3000 notas de pé de página, e que não se confina a hospitais, centros de saúde, universidades ou consultórios - salta para o dia a dia do país, percorrendo a história do Portugal de 1990 até ao Portugal de 2000.

Para contar os "efeitos provocados pela pneumónica em Portugal", por exemplo, Francisco George - que deixou o lugar de diretor-geral da Saúde, em outubro - e Barros Veloso avisam que é preciso "conhecer o que era o país em 1918". Não surpreende que, depois de uma explicação sobre pandemias e epidemias, sejamos transportados para o "país pobre e rural, governado em regime de ditadura por Sidónio Pais", um "Portugal agrícola, pouco industrializado", que estava mergulhado na I Guerra Mundial.

É neste contexto que o médico Ricardo Jorge (e este livro é uma sucessão de nomes que reconhecemos da toponímia das nossas cidades ou dos nomes de hospitais e de estabelecimentos de saúde) é nomeado para controlar a epidemia, "com plenos poderes para intervir nos setores público, social e privado".

O poder médico que decaiu

É um tempo, nota Barros Veloso ao DN, em que o poder médico é forte, ao nível social e até político. Mas também junto dos doentes. "Os médicos tinham um poder enorme no início do século XX", explica o coordenador da obra. Era uma "ação paternal" junto dos doentes, de uma população que se resignava com a frase de que "o senhor doutor é que sabe".

Hoje não é assim, identifica Barros Veloso, o que tem aspetos positivos mas também negativos. "Os médicos são hoje muito mais responsabilizados. Esta ação paternal foi substituída por uma maior autonomia do doente, que tem de ser informado."

Este poder médico também se dilui no contexto da saúde. "Após a Revolução de 25 de Abril de 1974, a classe de enfermagem, claramente subalternizada até então, sofreu também grandes transformações, liderada por um sindicato muito ativo", escreve Barros Veloso no livro. "Claramente, o poder médico estava a perder terreno", conclui.

Esta história da medicina não é exaustiva. "Ficaram coisas de fora, pessoas que deviam estar", admite o coordenador do livro. É uma obra que é feita "não cortando as fatias do salame, mas escolhendo acontecimentos". "Escrever é sempre uma escolha

Para "contar uma história acessível, mas ao mesmo tempo fundamentada", concretizada ao longo de quase três anos, os três editores da obra - A. J. Barros Veloso, Luiz Damas Mora e Henrique Leitão - socorreram-se de mais 35 autores, incluindo João Lobo Antunes, entretanto falecido, que escreve sobre o Prémio Nobel entregue a Egas Moniz e a neurocirurgia; há outros nomes como Francisco George, Poiares Baptista, José Fragata e Walter Osswald, que o público em geral mais facilmente identificará, mas que foram escolhidos por serem "as pessoas mais indicadas para falar destes temas".

Com este livro, é possível ficar "a saber o que se passou nestes 100 anos", feito com uma "preocupação de cultivar a história, preservar a história" portuguesa. Barros Veloso cita Mark Twain: "A história não se repete, mas rima" - e esta rima, que está agora nas livrarias, "representa uma viragem" para quem quiser estudar daqui em diante a medicina em Portugal. "É importante lançar uma semente", aponta. "Este livro são narrativas, bem fundamentadas, que pode ser um ponto de partida" para outros estudos.

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