"Se Deus me escolheu este país, é aqui que tenho de ficar e vencer"

Um grupo de 22 refugiados tiveram a primeiras aulas de português para estrangeiros, organizadas por professores do ISCTE-IUL

Uma das paredes da sala de aulas estava forrada com mapas gigantes do médio oriente e de áfrica. Síria, Iraque e Eritreia foram circundados a marcador. São os países dos 22 refugiados, que concluíam nesse dia, no ISCTE, o seu primeiro curso, lecionado por profissionais, de língua portuguesa. A ação foi fruto de uma parceria entre o Pelouro dos Direitos Sociais da Câmara Municipal de Lisboa e o Centro em Rede de Investigação em Antropologia (CRIA), do ISCTE. Estes refugiados têm em comum um percurso académico, ou completo, ou de frequência. Há estudantes de direito, designers de interiores, engenheiros informáticos, advogados, professores.

O ambiente era notoriamente descontraído e a disponibilidade para falarem ao DN foi imediata (ver fotolegendas). Na última aula do professor Romeu Ornelas, que leciona naquele estabelecimento de ensino superior a disciplina de "português, como língua estrangeira", estavam a ler os TPC. Consistiam numa pequena redação sobre o seu dia a dia, escrita em português, claro. O "gosto de bacalau e gelados", lido no sotaque meio enrolado de Mohamed, um sírio de Damasco, com 21 anos, fez soltar os risos de todos. Mohamed está há oito meses em Portugal e é a primeira vez que está a aprender português. Como ele, os outros.

Para o Conselho Português para os Refugiados o "ensino do português" deve ser "sem dúvida, uma prioridade", constatando que "varia de projeto para projeto" e que é "fundamental" para a integração. Mas Cristina Santinho, do CRIA , doutorada em Antropologia e coordenadora do curso, tem críticas: "não foi preparada uma estrutura profissional para ensinar português a este género de pessoas, com nacionalidade diversas, diferentes origens sociais e vários níveis de escolaridade. E isso é essencial, é o primeiro passo, para uma boa integração", sublinha.

Ao curso foi dado o nome de "Viver numa cultura diferente". Além da língua portuguesa "pretendeu-se transmitir aos estudantes uma visão mais alargada da sociedade e cultura portuguesa, as suas instituições e leis, as vivências urbanas (foram conhecer a cidade) e os processos de integração dos grupos de diferentes origens.

O Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) é a entidade estatal que deveria proporcionar o ensino do português. Fonte oficial disse ao DN que o faz através do "Programa Português para todos", que em 2016 abrangeu 1120 pessoas (nem todos refugiados) . A primeira ação de formação em Lisboa, para refugiados, só se realizou no passado mês de janeiro e Cristina Santinho aponta "falta de preparação especial para esta realidade" dos professores que lecionam naquele instituto.

Todos os refugiados com quem o DN falou (ver fotos) deram nota positiva ao curso. Destes, nenhum revelou vontade de ir embora. "Se Deus escolheu este país para mim, é aqui que devo ficar e vencer", diz o sorridente Isamail Haki, um sírio de Aleppo.

O mesmo balanço faz o professor Romeu Ornelas. "Fiquei surpreendido com o empenho em aprender e a capacidade revelada. Trabalharam muito e parecem-me muito motivados", afirma.

Cristina Santinho revela estar a ser preparada uma segunda edição do curso, onde também todos os professores são voluntários. Para este primeiro grupo há planos: "Vamos ver como podem ser integrados nos cursos do ISCTE e apoiar os seus projetos. Uma coisa é certa, não os vamos abandonar e vamos ajudá-los a vencer", garante.

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