"É uma área em risco. O mar pode causar destruição"

"Se nada for feito e não se tomarem medidas, o mar pode galgar e fazer destruição de património do homem e natural", avisa o especialista em erosão costeira, o investigador José Carlos Ferreira

As recentes tempestades que assolaram a costa portuguesa destruíram cordões dunares e deixaram praias sem areia na Costa de Caparica, expondo uma falta de planeamento a longo prazo e motivando apelos para uma maior proteção do litoral.

"A Costa de Caparica é uma das áreas identificadas pela Agência Portuguesa do Ambiente [APA] como uma área baixa e arenosa, ou seja, uma área que está em risco. Se nada for feito e não se tomarem medidas, o mar pode galgar e fazer destruição de património do homem e natural", afirmou o especialista em erosão costeira José Carlos Ferreira, investigador da Universidade Nova de Lisboa.

O especialista apontou a necessidade de se preparar um cenário de "retirar a cidade" caso se chegue a uma situação de insustentabilidade gerada pela erosão e pela subida do nível do mar

Reconhecendo que a Costa de Caparica (no concelho de Almada, distrito de Setúbal) é uma zona onde as pessoas gostam de viver, o especialista apontou a necessidade de se preparar um cenário de "retirar a cidade" caso se chegue a uma situação de insustentabilidade gerada pela erosão e pela subida do nível do mar.

"Se os planos forem cumpridos, a pouco e pouco nós vamos renaturalizando as áreas e saindo das áreas de risco. Este é o caminho. O outro caminho é sempre atuar de emergência e um dia podemos ter uma tempestade muito grave e aí os bens materiais e vidas humanas podem perder-se", sublinhou.

O chefe da Divisão de Estudos, Gestão Ambiental e Energia da Câmara Municipal de Almada, Nuno Lopes, disse à agência Lusa que uma das medidas pode ser a retirada da população, tendo os planos para relocalização de ser equacionados "num período sempre a 100 anos": "Não estamos a pensar que um assentamento humano se retire rapidamente, não é essa a intenção. A intenção é que possa haver compatibilização entre o uso e o risco".

De acordo com os estudos, na pior das hipóteses em 2050 iremos ter galgamentos que poderão chegar à primeira linha do jardim urbano [ultrapassando toda a linha de apoios de praia, estacionamento e paredão], poderá ser ou não grave

Já o presidente da Junta de Freguesia da Costa de Caparica, José Ricardo Martins (PS), diz que a solução para a zona de risco é "a proteção do litoral e não o recuo".

"De acordo com os estudos, na pior das hipóteses em 2050 iremos ter galgamentos que poderão chegar à primeira linha do jardim urbano [ultrapassando toda a linha de apoios de praia, estacionamento e paredão], poderá ser ou não grave. Tudo dependerá do que está delineado para os próximos tempos para a proteção da linha do litoral", disse.

Um dos efeitos mais visíveis da passagem das tempestades no inverno é a destruição dunar de parte do projeto "ReDuna - Recuperação e Restauração Ecológica do Sistema Dunar de S. João da Caparica", desenvolvido em 2015 e que tem como objetivo "proteger o litoral e limitar o recuo da linha de costa", na zona norte da Caparica.

Nuno Lopes explicou que projetos semelhantes ao "ReDuna" permitem "não são só promover a biodiversidade, mas também constituir organismos de proteção costeira".

Se não tivéssemos uma duna bem estruturada, talvez com uma diferença de quatro metros, entre a base da praia e o topo da duna, alguns dos apoios de praia da Caparica teriam desaparecido e sido destruídos pelas tempestades recentes

Para o investigador José Carlos Ferreira, além do abandono de obras pesadas (construção de esporões e paredões), o caminho que é necessário percorrer para ajudar à recuperação das zonas costeiras é um "caminho de renaturalização e recuperação ecológica", mantendo sempre um "plano a muito longo prazo" que prepare a comunidade para a "insustentabilidade".

Nas imediações da zona dunar reabilitada estão instalados os dois parques de campismo.

A Costapolis - Sociedade para o Desenvolvimento do Programa Polis na Costa da Caparica, S. A, afirma que a área ocupada pelos parques é sua propriedade e que a desocupação "está a ser dirimida judicialmente, em processos judiciais que correm os seus termos nos tribunais".

O plano de pormenor publicado em Diário da República em 2010 previa a desocupação dos terrenos dada a "necessidade de manter a segurança de pessoas e bens" e, segundo a resposta enviada à Lusa, a Costapolis "recorreu a todos os mecanismos que se encontravam ao seu alcance para concluir o plano de pormenor para a zona", mas a ocupação dos terrenos não permitiu cumprir o previsto.

Terminado o processo de liquidação da Costapolis, acrescenta a sociedade, "os terrenos em questão revertem para o Estado, que mantém a incumbência de executar o plano de pormenor, enquanto instrumento de gestão territorial que se encontra em vigor".

Contactada pela agência Lusa a direção do Clube de Campismo de Lisboa, que gere um dos espaços, afirmou que está a proceder a uma "restruturação do parque", uma intervenção que durará dois a três anos e que prevê a "diminuição do número de unidades, ficando o parque com mais áreas livres".

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