"Os portugueses consomem o dobro da quantidade de açúcar recomendada"

Entrevista a Pedro Graça, diretor do Programa para a Promoção da Alimentação Saudável

O DN sabe que há escolas que continuam a disponibilizar produtos proibidos nas máquinas de venda automática. Tem conhecimento destas irregularidades?

Pontualmente, recebemos observações de pais que nos dizem que se aperceberam de que determinada escola não está a cumprir as normas. As mesmas são encaminhadas para os estabelecimentos de ensino e para o Ministério da Educação. Não consigo dizer o número de escolas que não cumprem. Mas temos noção clara de que há escolas mais amigas da alimentação saudável do que outras. Depende muito do esforço dos diretores e do envolvimento dos pais.

O que fazer para acabar com o problema?

A Direção-Geral da Educação tem um regulamento sobre o que deve ser oferecido, restringido e evitado nas escolas. Temos feito sistematicamente alertas para a necessidade de os diretores das escolas estarem sensibilizados e para as famílias, que devem ir às escolas e ver o que se passa. Infelizmente, há muitos pais que delegam completamente na escola a responsabilidade pela educação alimentar dos filhos. A primeira coisa que as crianças fazem é imitar os pais. A educação começa em casa.

O Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável da DGS publicou, recentemente, um documento sobre a redução do consumo de açúcar em Portugal. Taxar as bebidas açucaradas é uma das soluções?

O relatório é uma espécie de cardápio baseado em evidências científicas, que identifica boas práticas. Em Portugal, consome-se o dobro da quantidade de açúcar recomendada e uma grande parte vai em produtos alimentares, como bolos e sumos. Da literatura científica internacional identificámos duas estratégias. A primeira passa pela educação e sensibilização das pessoas para que tenham consciência de que o açúcar é nefasto para a saúde. Há crianças de 2 e 4 anos que consomem regularmente refrigerantes. É por isso que queremos insistir neste dado. Por outro lado, os ambientes onde são oferecidos açúcares devem ser restritos. Não podemos facilitar acesso ao açúcar.

E de que forma é que isso pode ser feito?

A indústria alimentar tem de ser incentivada a ter produtos com menos açúcar, o que pode ser feito desde a autorregulação até à taxação. Pode, por exemplo, aumentar-se os preços através das taxas e reformular produtos. A indústria portuguesa é cada vez mais exportadora. Ao termos produtos alimentares com menos açúcar, uma tendência que já é seguida em muitos países, tornamos a nossa indústria mais competitiva. Todos podem ganhar. Nós demos um leque de soluções. Os países que quiserem podem usá-las.

A taxação de bebidas açucaradas com reduzido valor nutricional revelou-se eficaz nos países onde foi implementada?

Aparentemente, tem funcionado em alguns países. Mas é uma medida que exige muita reflexão antes de ser posta em prática. É preciso analisar se temos capacidade de fiscalizar, quais os produtos que vale a pena taxar. Iniciámos este processo para que se reflita, porque Portugal consome o dobro do açúcar recomendado, o que tem um impacto gritante nas cáries dentárias e na obesidade.

O dinheiro proveniente das taxas serviria para combater a obesidade?

Os autores que discutem a taxação sugerem a sua aplicação em programas de educação alimentar, de promoção da saúde.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ricardo Paes Mamede

Benefícios fiscais para quê e para quem

São mais de 500 os benefícios fiscais existentes em Portugal. Esta é uma das conclusões do relatório do Grupo de Trabalho para o Estudo dos Benefícios Fiscais (GTEBF), tornado público na semana passada. O número impressiona por uma razão óbvia: um benefício fiscal é uma excepção às regras gerais sobre o pagamento de impostos. Meio milhar de casos soa mais a regra do que a excepção. Mas este é apenas um dos alertas que emergem do documento.

Premium

educação

O que há de fascinante na Matemática que os fez segui-la no ensino superior

Para Henrique e Rafael, os números chegaram antes das letras e, por isso, decidiram que era Matemática que seguiriam na universidade, como alunos do Instituto Superior Técnico de Lisboa. No dia em que milhares de alunos realizam o exame de Matemática A, estes jovens mostram como uma área com tão fracos resultados escolares pode, afinal, ser entusiasmante.