O dia em que os estudantes de Coimbra começaram a revolução de Abril

Nada voltou a ser como dantes depois daquele 17 de abril de 1969. Antigo ministro Alberto Martins recorda ao DN "aquele dia tremendo", que hoje Marcelo Rebelo de Sousa vai evocar

"Bem, mas agora fala o senhor ministro das Obras Públicas". Quando negou a palavra aos estudantes, num tom autoritário, Américo Thomaz não podia adivinhar que estaria a acender o rastilho para a maior revolução estudantil de que há memória em Portugal, dando início à que ficou conhecida como "a crise académica de 69".

Era 17 de abril, como hoje, e no meio das capas negras estava um estudante do 3.º ano de Direito: Alberto Martins, que na idade madura viria a ser tratado por senhor ministro (da Justiça, entre 2009 e 2011) - como aqueles contra quem se levantou, na primavera marcelista - era o presidente da direção geral da Associação Académica de Coimbra. Perante a resposta do presidente da República, o rapaz que nascera premonitoriamente a 25 de abril, numa rua junto ao castelo de Guimarães, encheu-se de coragem: "Tive de vencer o meu próprio medo. Lembro-me bem dos olhares deles, com um ódio de morte, os ministros, os chefes militares, todos eles", conta ao DN, horas antes de rumar a Coimbra outra vez, para várias celebrações da data.

Passam hoje 47 anos daquele "dia tremendo", como lhe chama Alberto Martins. "Naquela época eu era o rosto da Academia, naquele dia era mais do que eu próprio", sublinha o advogado, quando recorda os acontecimentos da inauguração do edifício das Matemáticas. Depois foi o que a História já contou - o ministro não falou, os estudantes abafaram com aplausos e gritos académicos a sessão solene. "Houve um grande alarido, eles saíram abruptamente. Então eu subi para uma cadeira, enchi-me de coragem e falei. A minha fala perseguia a comitiva", continua Alberto Martins, que nessa noite haveria de ser levado pela PIDE. Libertaram-no ao meio dia, mas foi sol de pouca dura: voltou a ser preso, desta vez pela PJ. Mais de 200 estudantes foram alvo da ira da ditadura, 49 incorporados compulsivamente no exército. Foi o caso dele. Primeiro ficou em Mafra, depois seguiu para o Quartel-General do Porto, de onde só o deixaram sair "quatro meses depois do 25 de Abril, pois estava sujeito ao regulamento de disciplina militar". Outros foram enviados para a guerra do Ultramar.

Depois da crise de 69, o Ministro da Educação e o reitor da Universidade de Coimbra acabariam por se demitir. Estava iniciada uma caminhada que nenhuma força política ou militar conseguiria travar, até à Revolução dos Cravos. Alberto Martins e muitos dos amigos (então estudantes) voltam a Coimbra amiúde, como aconteceu ontem e hoje. "É sempre difícil, para mim. Sou muito contra a saudade de memórias passadas", conclui. Mas Coimbra é dada a saudosismos e por isso estes dias são sempre de evocação.

Miguel Cardina, investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, acredita que "as evocações são sempre momentos do presente e, como tal, dependem da capacidade ou do interesse de determinados grupos em refletir sobre um dado acontecimento e em conectá-lo com a atualidade". Este ano a Associação Académica de Coimbra marca a agenda, com a presença de Presidente da República. Miguel Cardina sublinha "o momento de grande mobilização que foi a "crise de 69"", mas lembra que já vinha de trás, atravessando toda a década de 60. A 17 de abril de 1969, "acaba por dar corpo a uma juventude estudantil que se forma na recusa de uma "universidade velha" (feita de exames, sebentas e afastamento dos grandes problemas da época) e na contestação à ditadura. Mais tarde, somar-se-ia também a recusa da guerra colonial". Nascido quase uma década depois, à beira do mar da Nazaré, o investigador acrescenta que, ao contrário do que aconteceu em outras circunstâncias, "o regime foi incapaz de fingir que a crise não tinha acontecido". O Ministro da Educação Nacional, (José Hermano Saraiva, que o país haveria de conhecer melhor como historiador e figura da tv) condena a agitação estudantil na televisão. "E as estratégias criativas de contestação e o empenho individualizado e massivo dos estudantes - a grande maioria dos estudantes adere à difícil proposta da "greve aos exames" - acaba por fazer extravasar a crise em Coimbra para lá da cidade".

Depois, nada voltou a ser como dantes. "Os modos de pensar e agir de uma parte muito importante do corpo estudantil estão irremediavelmente afastadas do diapasão do Estado Novo", diz Cardina, certo de que "o regime perdera a capacidade de mobilizar e influenciar a juventude estudantil. Além disso, o movimento estudantil foi um dos espaços que contribuiu para forjar uma consciência aguda da iniquidade do regime e um conjunto de gente que, em diferentes lugares, iria ter relevo e participação política nos processos de construção da democracia no imediato pós-25 de Abril".

Rui Bebiano está entre esses. O investigador - que dirige o Centro de Documentação 25 de Abril, na universidade de Coimbra, onde se encontra o maior arquivo público sobre o movimento estudantil português - orientou diversos trabalhos sobre o tema. Ativista estudantil, em Coimbra desde 1970, interrompeu os estudos após ser detido pela polícia numa manifestação de estudantes, em 73, regressando quatro anos depois. É ele que introduz uma nota relevante: "foi no período seguinte, sobretudo entre 1971 e 74, que o movimento mais se politizou e radicalizou, perdendo a dimensão associativista, e essencialmente reformista, que ainda tinha em 1969". Bebiano não tem dúvidas: "foi o ano de viragem. E uma escola de democracia".

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