Número de alunos a fazer Inglês como autopropostos dobra em quatro anos

Fazer a prova como aluno externo pode ser o último recurso para tentar concluir o secundário. Mas há quem tenha bons resultados.

Fazer um exame nacional como autoproposto - ou seja: ir à avaliação externa sem ter frequentado a disciplina na escola até ao final do ano letivo - é habitualmente a solução adotada por alunos com dificuldades, que tentam por este meio concluir a disciplina após um insucesso na avaliação interna. E os resultados tendem a refletir essa realidade, com estes estudantes a alcançar médias muito inferiores às dos alunos internos. Mas há exceções. Cerca de 15% dos externos fogem a esta regra, atingindo resultados de excelência. São bons alunos que tentam potenciar as suas hipóteses de acesso aos cursos pretendidos melhorando as médias. Desenho, Matemática e Biologia são dois exemplos. Mas o mais surpreendente, apesar da escala ainda não ser significativa comparada com outras provas, é o Inglês.

Entre 2012 e 2016, o número de alunos que se apresentaram a exame desta disciplina como externos na 1.ª fase das provas praticamente duplicou, de 3325 para 6307, uma tendência de crescimento que deverá manter-se nos exames do próximo mês e que contraria claramente a realidade das restantes disciplinas, em que o peso dos autopropostos tem vindo a baixar.

Na realidade, numa disciplina que é opcional no secundário, os alunos externos são há vários anos quase a totalidade dos que fazem a prova - 99,7% no ano passado. E este não é o único fator que os diferencia dos autopropostos que fazem exames às restantes disciplinas: as médias têm vindo a aumentar e, em 2016, chegaram aos 13,7 valores.

Para Hélder de Sousa, diretor do Instituto de Avaliação Educativa, que fez o levantamento destes dados a pedido do DN, não restam dúvidas de que existe uma estratégia por detrás destes números: "Quem opta por fazer Inglês são alunos que têm essa disciplina como alternativa a uma outra, que têm uma boa base de inglês, vão à procura de um grande resultado e muitas vezes conseguem-no", diz. "A classificação de Inglês dos internos é muito baixa e a classificação externa é mais dentro do género que se imaginaria para os internos", acrescenta.

Tomás Santos, 18 anos, encaixa neste perfil. Com o secundário concluído desde o ano passado, com média de 14,4 valores, vai apresentar-se como autoproposto aos exames de Matemática A e de Inglês a pensar em melhorar a média, no caso da primeira - "acabei com 12 valores" -, e a ter mais uma alternativa no caso da segunda. "Com o sistema de contar 50/50 [exame, que serve de prova de ingresso, e média final], vale a pena apostar numa boa nota num exame", diz. "No meu caso, quero seguir Comunicação Social e provavelmente não precisava de melhorar a nota de Matemática. O curso que pretendo aceita provas de ingresso a Português e Inglês. Tive 18 a Português e acho que iria acabar por se proporcionar. Mas vale a pena fazer o esforço extra", diz. A média interna de 18 valores a Inglês dá-lhe confiança para conseguir um bom resultado.

Mas será que a crescente popularidade das provas de Inglês se explica apenas com a vontade de ter mais um trunfo na altura de concorrer ao superior, ou com a eventual facilidade com que estes estudantes conseguem bons resultados na disciplina? Alberto Gaspar, presidente da Associação Portuguesa de Professores de Inglês (APPI), não acredita nisso. Em entrevista ao DN (ao lado), aponta outra explicação: numa altura em que cada vez mais o domínio desta língua é exigido no mundo do trabalho, muitos destes estudantes podem simplesmente pretender uma certificação, através do resultado da prova, das suas competências a este nível.

Maioria não sai a ganhar

No conjunto das restante disciplinas, em termos médios, 15% dos autopropostos alcançam classificações elevadas. Mas a média é bastante mais baixa. Entre as provas com mais inscritos (em que o Inglês não se inclui) apenas Desenho A, Física e Química e Geografia registaram no ano passado médias positivas entre os alunos externos (acima dos 9,5 valores).

E são estas estatísticas que Rúben Elias e André Sousa, ambos de 19 anos, irão tentar contrariar no próximo mês. O primeiro é autoproposto a Biologia. "Há dois anos tinha 10 valores de nota interna e bastava-me 8,5 para passar", conta. "Mas como esta disciplina é prova de ingresso para o curso que quero seguir - Desporto - decidi anular", diz. André Sousa, que espera entrar para o curso de formação de agentes da PSP, tem mesmo o Português a travar-lhe a indispensável conclusão do secundário: "A verdade é que desde o 10.º ano nunca me tinha esforçado o suficiente, por isso, tive de anular a disciplina no 11.º ano e agora estou como autoproposto", adianta. Mas tem "confiança" de que o trabalho desenvolvido ao longo do último ano, incluindo explicações, lhe valha "pelo menos" a positiva.

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