Não há país europeu com tanta área ardida como Portugal

O Governo da Madeira estima em 900 mil euros os gastos para pequenas reparações. A câmara do Funchal precisa de 61 milhões

A sensação é desoladora quando se observa e compara os gráficos da evolução dos incêndios na Europa este ano. Desoladora para Portugal, o único país em que a curva dispara na vertical para o topo, onde a área ardida é já mais de metade da de toda a União Europeia. Os dados são do Sistema Europeu de Informação de Fogos Florestais (EFFIS na sigla original, em inglês) e dão conta que em nenhum outro país, incluindo aqueles com muito maior área florestal, houve tanta área ardida.

De acordo com a última estimativa deste organismo, foram destruídos pelo fogo esta semana em Portugal cerca de 119 mil hectares, que representa 53% da área ardida total da União Europeia. Espanha conseguiu diminuir este ano significativamente a sua área consumida pelas chamas, não ultrapassando os 26 mil hectares (14% da UE) e muito abaixo da media dos últimos anos, ao contrário de Portugal. A EFFIS contabiliza em França cerca de sete mil hectares e em Itália quase 29 mil hectares.

Recorde-se que na semana passada, registaram-se incêndios de grandes dimensões, principalmente no norte e centro do país, como nos distritos de Aveiro e Viseu, e na Madeira, e além da área florestal ardida, o fogo destruiu casas e provocou a morte de três pessoas.

A Associação Portuguesa de Técnicos de Segurança e Proteção Civil (ASPROCIVIL) analisou os dados disponibilizados por este sistema europeu e salienta o facto de a área ardida em Portugal estar " muito acima da média dos últimos oito anos, por esta data, o número é quatro vezes maior do que a média da área ardida entre 2008 e 2015, que rondava os 25 mil hectares". A associação lembra que estas estimativas da EFFIS "são por defeito e posteriormente são confirmadas pelas autoridades nacionais".

Para estes peritos de proteção civil este cenário deve-se a "anos e anos de medidas estratégicas mal tomadas, e decisões políticas de ordenamento florestal erradas, omissas e insuficientes", além de só se falar de incêndios nos meses críticos e "exclusivamente sobre a resposta operacional".

Entretanto, o governo da Madeira fez as contas e concluiu que necessita de 900 mil euros para efetuar pequenas reparações em casas afetadas pelos incêndios. Das 227 habitações inspecionadas, 80 precisam de obras, segundo anunciou a secretária regional da Inclusão e Assuntos Sociais, Rubina Leal. Esta responsável confirmou que o governo regional vai pedir ao governo central um reforço das verbas do fundo de socorro, que neste momento é de apenas 163 mil euros.

Outro balanço foi entretanto feito pela câmara do Funchal, concelho mais atingido pelos fogos. Um relatório municipal também ontem divulgado estimou em 61 milhões de euros os prejuízos. O relatório de levantamento de danos no conjunto edificado privado e público e nas infraestruturas públicas do município refere que 300 edifícios foram afetados pelos fogos - 177 ficaram totalmente destruídos e 123 parcialmente, em oito das dez freguesias que integram este concelho da cidade capital.

A câmara, dirigida pelo socialista Paulo Cafôfo, detetou que 861 moradores foram afetados, 531 das quais estão desalojados, tendo em conta os edifícios totalmente destruídos. A autarquia estima em 35.766 milhões de euros os custos de construção a afetar a todo o conjunto edificado atingido. Com Lusa

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