Maria João Valente Rosa: "Há indicadores que nos envergonham"

Portugal fez muito caminho no que respeita ao desenvolvimento, mas a discrepância entre homens e mulheres é ainda muito vincada. Sobretudo quando nos comparamos a outros países da União Europeia. Maria João Valente Rosa, diretora da Pordata, aponta como "chocantes" as questões da pobreza e da remuneração, mas também o acesso ao ensino (secundário, pelo menos) nos coloca na cauda da Europa.

O que destaca como mais relevante neste retrato dos homens e das mulheres?
Nós selecionámos um conjunto de indicadores e ninguém escapa a este retrato, que acaba por apresentar a informação numa tripla perspetiva - numa ótica temporal, para percebermos um pouco a dinâmica e algumas mudanças que têm vindo a acontecer na sociedade portuguesa ao longo das últimas décadas; algumas comparações territoriais, ao longo do tempo, e também olhar para Portugal na comparação com outros países da União Europeia. Sempre no prisma do masculino/feminino.

É um retrato completo da sociedade portuguesa?

É um retrato importante da sociedade, que acaba por relevar muita da informação que é relevante conhecermos para depois fazer os nossos juízos e formar uma opinião minimamente sustentada sobre o país que somos. É sempre bom notar que há mais mulheres do que homens em Portugal (53%), mas no entanto, no início da vida, é ao contrário. Nascem mais rapazes do que raparigas. Consoante vamos avançando ao longo da vida - e porque a mortalidade é mais intensa no sexo masculino - as mulheres vão ganhando importância, por comparação aos homens.

Só estão em maioria em número, é isso?

A questão remuneratória é uma questão chocante e a pobreza também. As taxas de pobreza mostram-no bem. Ou quando olhamos para as taxas de subsídio social de desemprego, em que também estão em maioria. Isso revela uma muito maior vulnerabilidade da parte das mulheres. Do ponto de vista demográfico não é uma grande novidade. Mas quando olhamos para este retrato percebemos que os países mais igualitários fazem bem aos homens. Lá eles vivem mais tempo e melhor. Há países (como é o caso da Suécia ou Países Baixos) em que a esperança de vida à nascença é inferior a quatro anos, na diferença entre homens e mulheres. Em Portugal é de 6 anos. Nesses países eles e elas vivem mais do que nós, mas a diferença entre homens e mulheres é menor do que em Portugal. Portanto, concluímos que os países igualitários fazem também bem aos homens e não apenas às mulheres.

Quer dizer que em Portugal precisamos de fazer ainda um longo caminho?

Claramente. Temos muitos caminhos a percorrer. Nas últimas décadas, Portugal teve mudanças muito significativas e, de facto, as grandes protagonistas foram as mulheres. Atualmente estão empregadas tantas mulheres como homens, o que há algumas décadas não acontecia. Veja-se por exemplo que deixaram de ser maioritariamente domésticas. Em 1983, a maioria das mulheres que não estavam no mercado de trabalho eram domésticas... Atualmente ou são reformadas ou estudantes. Elas investiram significativamente nos estudos, as taxas de abandono escolar são bem inferiores às dos homens. É claro que fizemos grandes progressos do ponto de vista da educação, neste momento elas são mais escolarizadas do que eles.

Mas ainda há grandes discrepâncias relativamente à União Europeia...

É um indicador que nos envergonha sempre. 53% das mulheres já têm pelo menos o secundário, e no caso dos homens são 43%. Este é o indicador que nos coloca na cauda da Europa pelo pior motivo. Na globalidade dos países europeus o número é de 77%/78%, para homens e mulheres, respetivamente. Fizemos muito caminho, mas no espaço privado e familiar os papéis das mulheres mantiveram-se intactos. É aí que o problema se coloca: se no passado os papéis de uns e outros eram complementares, neste momento é bem diferente.

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