Jordi Boher: "Turismo deve estar ao serviço de um projeto da cidade"

Para o antigo presidente da Câmara de Barcelona, a aposta do turismo de cidade deve voltar-se para a qualidade e menos para a quantidade. E que os moradores devem ser protegidos através da lei para não saírem dos bairros históricos.

O turismo é uma fonte de desenvolvimento das cidades. Mas há o outro lado da moeda, o do turismo massificado. Como se pode encontrar um equilíbrio?

Sim, o turismo é um dos grandes fenómenos da globalização, é uma atividade económica que tem consequências sociais e culturais, que tem impacto nas cidades. Na maioria dos casos de forma positiva. É preciso lembrar que durante a recente crise económica foi um dos poucos setores que cresceu e que nos ajudou a suportar melhor esse período negativo. Mas claro que surgem desafios nessa relação entre cidade e turismo e é um dos grandes temas da agenda pública. Há uma forma de encarar isto, que é o turismo, como qualquer outra atividade económica, estar ao serviço de uma estratégia e de um projeto de cidade a médio e longo prazo.

Mas estão algumas cidades e os seus moradores a sofrer com o excesso de turismo? Não temos já centros históricos em que os turistas apenas veem outros turistas?

Por isso é tão importante criar bons projetos de cidade, com políticas de habitação, de espaço público, de diversificação espacial e temporal. O que pode ser prejudicial numa parte da cidade pode ser benéfico se for repartido pelo território dessa mesma cidade. Nenhuma cidade ficará melhor se tiver um discurso contra o turismo, mas ao mesmo tempo nenhuma cidade deve receber este fenómeno passivamente, sem nenhum projeto de política pública, sem regras. Precisamos de políticas públicas que governem o impacto do turismo.

Mas há muitos tipos de turismo...

Por isso penso que não podemos sacralizar o crescimento quantitativo sem limite. O grande objetivo deverá ser crescer em qualidade, maior gasto por turista/dia. Ou seja, ter um turismo de qualidade que atraia valor acrescentado.

Isso é o oposto do turismo baseado nas low-cost?

As low-cost são um produto de uma Europa unificada, de mercado único turístico. E isso tem componentes muito positivas: a democratização, a socialização. O que já temos é bom, precisamos de acrescentar. Agora onde devemos colocar o nosso esforço é na captação de turismo intercontinental que traga valor acrescentado às cidades. Um turismo que valorize a nossa personalidade cultural, o nosso espaço público, a nossa gastronomia, o nosso estilo de vida. É isso que nos faz diferentes. Não acabaremos com o outro turismo, que tem um papel. Mas não devemos continuar a apostar nesse turismo mais barato, indiferenciado, em que o baixo preço é a prioridade.

Como proteger os moradores dos centros das cidades, que regras devem existir para não expulsarmos os locais dos bairros históricos?

Ninguém tem uma varinha mágica para esse problema. Mas, para mim, o direito à habitação está acima de outras problemáticas. Eu defendo a proteção, através de leis, do direito dos cidadãos a morarem no local onde sempre viveram. Temos de promover a habitação pública de fácil acesso.

Concordaria na criação de limites por percentagens para cada bairro para arrendamento turístico?

Sim, há que regular. Os bairros históricos não podem ser parques de arrendamento turístico. Um dia que isso aconteça o interesse turístico também baixará. Passaríamos a ter um parque temático. As cidades da Europa têm de fazer o esforço de manterem a sua personalidade e isso faz-se com os seus residentes, com as pessoas que as habitam.

Barcelona já tem 75 mil camas de hotel, mais 50 mil camas em apartamentos para arrendamento turístico legalizado e estima-se que tenha outras 50 mil camas para arrendamento turístico ilegal. O número de camas pode crescer mais?

O crescimento que tivemos foi muito importante para podermos jogar na liga das cidades globais. O número de hotéis existente é vital, por exemplo, para recebermos o Mobile World Congress. Ter uma oferta suficiente é importante.

Mas pode crescer mais?

Penso que pode crescer em locais da cidade onde não haja oferta hoteleira. Temos de ter diversificação espacial dentro da cidade e pela área metropolitana, que tem mais de 35 municípios. Temos de criar novos espaços de interesse turístico. Há que ter uma visão metropolitana.

A atual gestão camarária em Barcelona tem tido um discurso contra o turismo.

Não penso que esse seja o bom caminho. Não devemos fomentar a turismofobia. Mas algumas imagens que passaram não correspondem ao sentimento geral da população. Barcelona é uma cidade aberta ao mundo.

Barcelona sofre com o centralismo de Madrid?

Penso que não. Barcelona teve a sua própria estratégia, que foi passar de uma cidade industrial e local para uma cidade de serviços e global. E fizemos isto sem olhar para Madrid, porque tínhamos um projeto de cidade. E fizemos em conjunto com outros. Bem sei que a conjuntura atual é difícil e o diálogo entre Catalunha e Espanha é complicado. Mas Barcelona fez os Jogos Olímpicos com a Catalunha e com Espanha, fizemos isso juntos. Não tenho um entendimento futebolístico sobre a relação entre cidades. Acredito mais na cooperação do que na competição.

A atual situação política, de relação tensa entre a Catalunha e Espanha, está a prejudicar o turismo de Barcelona?

Ao turismo e a outras coisas, claro. O sucesso de Barcelona deve-se a um projeto de médio e longo prazo baseado num pacto. E isso está suspenso. Temos de recuperar um pacto para ter um novo projeto de médio e longo prazo. E isso só se faz com diálogo.

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