"Escreveram gay num cartaz meu. Pedi que não o substituíssem, não era mentira"

O vice-presidente do CDS, Adolfo Mesquita Nunes, lembra que a questão da homossexualidade surgiu durante a campanha à câmara da Covilhã

Adolfo Mesquita Nunes assume numa entrevista ao Expresso a sua homossexualidade. "Não me ocorre esconder esse assunto num contexto como este", justifica o vice-presidente do CDS. Tratando-se de uma entrevista de vida, o ex-secretário de estado do Turismo do governo PSD/CDS considera normal abordar a questão. "É algo que faz parte de mim e com que convivo perfeitamente e com naturalidade".

A homossexualidade do dirigente centrista foi abordada durante a campanha eleitoral para as autárquicas. Candidato à câmara da Covilhã, viu alguns cartazes serem rasgados e sempre que isso acontecia estes eram substituídos. Mas isso não sucedeu quando alguém escreveu "gay" num cartaz colocado numa rotunda no centro da cidade. "Não vamos substituir este cartaz, porque eu quero deixar claro - quer para quem vandalizou e para a campanha que motivou essa vandalização, quer para a população da Covilhã - que eu não tenho vergonha, nem tenho qualquer problema em ser quem sou. Pedi que não o substituíssem porque não era mentira", lembra.

Mesquita Nunes recorda ao Expresso que durante a campanha falou deste mesmo episódio durante um comício em que esteve presente a líder centrista, Assunção Cristas. "Não supus que os jornalistas não estivessem a prestar atenção e que só noticiassem o que a Assunção disse", comenta, dizendo que partilhou esse discurso no Facebook e está na Net.

Depois desse, não houve mais incidentes na campanha, garante Adolfo Mesquita Nunes, para quem assumir perante a opinião pública a sua homossexualidade é, mais do que um statement político, não esconder quem é. Tendo sempre recusado dar entrevistas de vida, o dirigente do CDS lembra que não viria a propósito falar do tema no meio de uma conversa sobre turismo ou o memorando da troika. Após tantos anos ligado à política, considera que agora era tempo de o fazer, comentando que acredita que as suas posições mais liberais sobre costumes não são determinadas pela orientação sexual.

"Para eu não precisar de nenhuma coragem para estar aqui a ter esta conversa, houve muita gente que chocou, provocou, correu riscos, desafiou, teve uma coragem infinitamente superior", realça.

A 22 de agosto do ano passado, Graça Fonseca, secretária de Estado da Modernização Administrativa, havia assumido a sua homossexualidade numa entrevista ao DN.

"As pessoas afirmarem publicamente que são homossexuais, não há muito quem o tenha feito. E acho que isso é importante. E há duas razões para eu achar importante dizê-lo", disse, assumindo a sua afirmação como "completamente política" . "E acho que se as pessoas começarem a olhar para políticos, pessoas do cinema, desportistas, sabendo-os homossexuais, como é o meu caso, isso pode fazer que a próxima vez que sai uma notícia sobre pessoas serem mortas por serem homossexuais pensem em alguém por quem até têm simpatia. E se as pessoas perceberem que há um seu semelhante, que não odeiam, que é homossexual, isso pode fazer que a forma como olham para isso seja por um lado menos não querer saber se essas pessoas são perseguidas, por outro lado até defender que assim não seja".

Depois da entrevista, a governante recorreu às redes sociais para agradecer as muitas mensagens que recebeu.

"São mensagens de esperança, de partilha de situações de discriminação, de agradecimento pelas filhas e filhos que recentemente assumiram a sua orientação sexual. E Isto sim é o que me importa, agora e sempre. Porque, acreditem, afirmar publicamente parte da minha identidade privada não é algo fácil ou que faça de forma leviana. Prezo muito a minha privacidade, a minha liberdade, a felicidade das pessoas que me são próximas e que não quero que sejam atingidas por algo que sou ou faço", escreveu.

Já hoje, Graça Fonseca defendeu, também no Facebook, que a entrevista de Adolfo Mesquita Nunes "é extraordinariamente importante". "Para o país, sim. Mas em especial para muitas pessoas que não querem saber de rankings, de tamanhos de direções partidárias ou se são atuais ou ex do governo. O que lhes importa é existirem outras pessoas que dizem, alto e bom som, que são como elas".

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