"Em 2015-16 recuperaram-se bebés adiados pela crise"

A quebra da natalidade depois de uma subida durante dois anos não surpreende a socióloga especializada em demografia. Foi a recuperação dos nascimentos que não aconteceram durante o período da crise, justifica. As tendências levam anos a verificar-se e por isso defende uma discussão a nível nacional e formação nas escolas para mudar mentalidades.

Nasceram menos bebés, porquê?

Não fico nada surpreendida. Precisamos de nos lembrar que existem cada vez menos mulheres a chegar ao período fértil. Já nasceram num período de diminuição da fecundidade, que vem desde há várias décadas. Entre 1982, quando ficámos abaixo do limiar de substituição das gerações, e 2016 nasceram menos 858 mil mulheres. Mesmo que tivessem o mesmo número de filhos do que as mães, os nascimentos iriam sempre baixar.

Mas em 2015 e 2016 subiram.

Algumas pessoas viram essas subidas como uma inversão da tendência da quebra da natalidade, mas é uma interpretação abusiva. O que pode estar em causa não é uma inversão da tendência mas os nascimentos que não aconteceram durante a crise. Em 2015 e 2016 foi a compensação das crianças que deveriam ter nascido nesses anos, até porque as mulheres têm uma idade para ter filhos.

Significa que em 2017 o comboio da natalidade voltou aos carris?

Sim, só me preocuparia se fosse uma descida em excesso. O que acontece é a manutenção da evolução demográfica em Portugal, cujo saldo é negativo. No ano passado, os nascimentos adiados já aconteceram, o número de mulheres em idade fértil vai continuar a diminuir e é natural que os nascimentos continuem a baixar, com algumas oscilações pelo meio.

O que se poderia fazer para inverter a situação?

Uma parte do saldo negativo poderia ser mitigado pelos fluxos migratórios, o que não acontece. Migram as pessoas em idade ativa e em idade fértil, só que o saldo é negativo para Portugal: emigram mais do que imigram.

Quebras que têm reflexos económicos, como na segurança social.

Essa questão tem de ser resolvida por outras vias. Seria um problema se Portugal fosse um país fechado. Temos de pensar em como nos abrir mais ao exterior e criar condições para as pessoas virem para o país.

Como é que se invertem as quebras contínuas da natalidade?

Para haver uma inversão consistente são precisos muitos anos, é preciso pensar em valores familiares, numa discussão séria e ampla. O país tem os mais baixos níveis de fecundidade da UE, algo que deve ser questionado à escala nacional.

Devemos questionar tudo?

A começar pelas questões de igualdade de género, dos papéis de pai e de mãe na esfera privada. Fiquei altamente surpreendida com o Inquérito à Fecundidade, em 2013, que revelou um grande desequilíbrio em relação às tarefas domésticas e ao cuidar dos filhos em desfavor das mulheres. É preciso uma alteração das mentalidades, trabalho que tem de começar na escola. E a sociedade ainda não resolveu um dilema que se coloca essencialmente às mulheres, o dilema entre ser boa profissional e ser boa mãe

E a questão monetária?

Não é o fator principal. A questão da natalidade é transversal e não se resolve de um dia para o outro. Faltam equipamentos de apoio à primeira infância, por exemplo. Os homens e as mulheres querem o primeiro filho, o que é difícil é ter o segundo.

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