Dupond "hiperativo" e Dupont "hiperotimista" encantam emigrantes

Presidente e primeiro-ministro, em convergência absoluta, prometem lutar pelos lesados do BES
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"Ó António, António, veja quem está aqui!" O "António" é António Costa, primeiro-ministro (PM), e quem chamou por ele assim, informalmente, no meio de toda a gente e cercado de jornalistas, foi, ontem, Marcelo, Presidente da República (PR).

Cenário: uma rotunda de Creteil, nos arredores de Paris, que o PR acabara de inaugurar com o seu novo nome, "rotunda comendador Armando Lopes". Ao chamar pelo "António", Marcelo queria chamar a atenção para a presença entre as dezenas de convidados - que aguentaram a chuva miudinha sem arredar pé - do fadista Carlos do Carmo.

Costa surpreende-se com a sua presença, ainda por cima porque Carlos do Carmo, um notório noctívago, não costuma aceitar compromissos matinais ("de manhã pareço um zombie"). "Isto é que é patriotismo!", brinca o primeiro-ministro. Não passam segundos até que se perceba que hoje os três se voltarão a cruzar na festa da Rádio Alpha, onde se esperam milhares de emigrantes portugueses e frango assado à descrição.

Marcelo diz ao fadista: "[Amanhã] tem de falar [aos emigrantes]!"
António Costa emenda: "Falar, não! Cantar!"
O Presidente sintetiza: "Falar cantando!"
Carlos do Carmo, o próprio, resiste. Não trouxe músicos.

A coabitação corre às mil maravilhas. Na campanha das legislativas António Costa tinha estado numa festa da Rádio Alpha (a rádio dos emigrantes, propriedade de Armando Gomes, o empresário que deu nome à rotunda inaugurada por Marcelo em Creteil) e prometera então que se fosse primeiro-ministro neste Dia de Portugal voltaria. Marcelo associou-se de imediato à ideia, logo que tomou posse. Os dois chegaram anteontem, têm andado sempre juntos de um lado para o outro - ontem à noite foram ter com a seleção portuguesa, depois de homenagearem os portugueses que morreram na I Guerra no cemitério militar de Richebourg - e hoje regressarão a Lisboa, ao fim da tarde. "A coabitação em Portugal faz-se de uma partilha de vontades, mesmo em todos os detalhes", comentaria o primeiro-ministro na sexta-feira. "Compensamo-nos, porque eu sou hiperativo, ele [Costa] é híper otimista", diria ontem Marcelo. Que, mais adiante, num tom mais sério, reforçaria: "Comprometemo-nos [ele e Costa] a fazer o possível e o impossível para convergir por um Portugal mais justo."

O Presidente acha que Costa é "híper otimista" (e ele apenas "otimista") mas foi ele quem ontem fez a apologia do "otimismo português", um pouco à semelhança do que o chefe do Governo tinha feito há uma semana, quando encerrou o congresso do PS.

[citacao: "Sendo a França um grande país, porque é um grande país, verdadeiramente grande país só há um: é Portugal. Os melhores somos nós. A França é excecional, mas nós somos muito melhores, mas muito melhores"]

Aproveitou, para tal, o exemplo do comendador Armando Lopes. Presente na cerimónia, o empresário contou como chegou a França em 1961, construindo a partir de então um grupo empresarial de 15 empresas, da comunicação à construção - e sem pelo meio se esquecer de sublinhar como é difícil darem-se a obras públicas nomes de personalidades vivas (no caso, a autorização demorou quatro anos).


"O otimismo português é fundamental para enfrentar os problemas", disse o Presidente, elogiando ainda o empresário por ter trabalhado a vida toda "com o pensamento na sua comunidade".

De Creteil a comitiva seguiu para Champigny-sur-Marne, comuna nos arredores de Paris onde residem milhares de emigrantes e luso descendentes - e onde Marcelo inaugurou um monumento (que já aguardava pronto há semanas pela sua vinda) de homenagem a Louis Talamoni (1912-1975), um comunista de sempre que enquanto presidente da câmara local, de 1950 até morrer, de destacou na luta pela promoção dos direitos sociais e da qualidade de vida dos portugueses que, a salto, ali procuraram um destino melhor do que o Portugal do Estado Novo.

Entre as muitas dezenas de emigrantes presentes, Marcelo e Costa tinham à sua espera alguns lesados pelo colapso do BES e mais uma vez se revelou aí a convergência entre ambos. "Não compete ao Governo nem ao Presidente da República substituírem-se à justiça, mas sei que o Presidente da República acompanha o Governo na preocupação de criar os mecanismos de diálogo, os mecanismos de negociação, os mecanismos de arbitragem que permitam a todos aqueles que foram lesados verem os seus direitos tão satisfeitos quanto possível", diria primeiro Costa.

Marcelo acrescentaria: "Estaremos atentos aos problemas financeiros, económicos daqueles que apostaram em instituições financeiras portuguesas e que vivem hoje problemas que para muitos são problemas graves de economias perdidas, de poupanças que de repente desapareceram, de angústia, de preocupação relativamente ao futuro."

No mesmo discurso, empolgaria os emigrantes afirmando que "grande país só há um: Portugal": "Sendo a França um grande país, porque é um grande país, verdadeiramente grande país só há um: é Portugal. Os melhores somos nós. A França é excecional, mas nós somos muito melhores, mas muito melhores" - e isto "no futebol, na ciência, nas artes, na cultura, nas empresas, no trabalho".

O remate faria correr algumas lágrimas: "Eu estou orgulhoso dos meus concidadãos, o que é muito mais do que estar contente. Eu tenho orgulho em ser português." E ficou uma promessa: a celebração 10 de Junho fora de Portugal é para repetir e "deve ficar institucional" porque "é bom que os portugueses que vivem no território físico de Portugal se habituem a admirar e a homenagear os que vivem fora desse território".

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