Aumento do turismo na região centro não chegou aos concelhos afetados pelos fogos

Centro registou maior crescimento em número de hóspedes e dormidas do que a média nacional. Mas maioria dos operadores das cidades e aldeias afetadas pelos fogos dizem que ainda não recuperaram

O negro pinta os montes, as planícies e os vales da maioria dos concelhos do Pinhal Interior Norte. Aqui e ali uma aldeia com verde, sinal de que escapou à fúria das chamas do ano passado. Há árvores queimadas, troncos e ramos no chão, destroços e lixo por limpar. Permanecem as placas de sinalização queimadas, algumas que nem deixam adivinhar o nome da localidade. Rapidamente substituídas só as do IC8 e da N236-1, estradas que servem Figueiró dos Vinhos, Pedrógão Grande e Castanheira de Pera, e se ao centro do país os turistas chegaram em números recorde, a maioria das entidades e dos operadores turísticos das regiões mais ardidas dizem ter tido quebras nas no negócio.

Os incêndios de junho e de outubro de 2017 atingiram de forma mais significativa os concelhos de Castanheira de Pera, Figueiró dos Vinhos, Góis, Pampilhosa da Serra, Pedrógão Grande, Penela, Sertã, Arganil, Penacova, Tábua, Viseu, Carregal do Sal, Mortágua, Nelas, Oliveira de Frades, Santa Comba Dão, Tondela, Sever do Vouga, Pinhel, Seia, Lousã e Mira.

O DN pediu aos autarcas um balanço das consequências dos incêndios na procura turística. Remeteram-nos para os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), que não apresenta valores por concelho. Com três exceções: Mira, Góis e Lousã, mas os dois primeiros não têm informação para 2017. Góis responde com os dados do posto de turismo: uma redução de 56,5% na procura em junho, julho e agosto (época alta), em relação ao período homólogo de 2016. Registaram um decréscimo de 30% a nível de hóspedes e dormidas, sendo certo que 85% são nacionais. Já Lousã diz acompanhar a evolução positiva da região: o número de hóspedes aumentou 18%, o de dormidas 15%, e ainda abriram dez novas unidades de alojamento. Têm 35% de estrangeiros.

"O ano de 2017 foi pior do que os outros. Pode ter havido turismo solidário, mas isso nada traz à terra. Vêm à região com a mensagem de que estão a ajudar, usando os nossos recursos, sem gerar negócio. Turismo depende de as pessoas virem porque gostam de cá estar, usando os equipamentos que temos, as unidades hoteleiras ou os restaurantes. É o que a terra precisa, já precisava antes dos fogos." Palavras amargas de Luís Dias, dono da Trilhos do Zêzere, empresa de organização de eventos com sede em Pedrógão Grande.

Turismo de natureza

Luís Dias é o proprietário do bar e do restaurante Fugas na praia fluvial do Mosteiro, que abriu em 2005 e se distingue pelo enquadramento arquitetónico e paisagístico. A aldeia fica num vale, com casas de xisto, por onde corre a ribeira de Pera. O fogo passou-lhes literalmente por cima. A praia tem o equipamento necessário para um dia de descanso bem passado. "Na semana seguinte aos fogos estava tudo limpo, tudo pronto para as pessoas virem. Não vieram. Fazemos um turismo de natureza e perdemos isso. Sei que aumentou o número de hóspedes e de dormidas no centro, mas a região é muito diversificada, não é só a serra da Estrela, Coimbra e Aveiro, que não foram afetados pelos fogos. É preciso criar condições para que as pessoas nos visitem. Nem sequer substituíram as placas de sinalização, portanto, já vê..."

O número de hóspedes e de dormidas na região centro aumentou 14,7% no ano passado em comparação com 2016, quase o dobro do verificado em Portugal (7,5%). E, segundo o INE, manteve a tendência de subida no primeiro trimestre deste ano - crescimento de 11,27%, novamente superior à média do país, de 7,57% (ver entrevista).

O Hotel da Montanha, em Pedrógão Pequeno, fica no alto da monte da Senhora da Conceição, banhado pelo rio Zêzere, com a barragem do Cabril e todos os desportos previsíveis num meio aquático. "Os fogos de junho deram uma facada na taxa de ocupação, com cancelamentos após os incêndios. Quem vem para cá vem pela natureza. Conseguimos recuperar um pouco em agosto, mas não voltámos aos números anteriores. Além de que tivemos de baixar os preços", diz Filipe Marino, diretor do hotel. Abriram em 2008 e o grupo tem mais duas unidades hoteleiras.

Enquadrado pela natureza, o hotel tem quartos e piscina panorâmica que, agora, dá para terra ardida: uma parte em junho, outra em outubro. "Os turistas vêm para se divertirem e, até pela própria situação de tragédia, o ambiente que se vivia não era propício à diversão", reconhece. E o tempo não tem ajudado. Neste mês estão abaixo dos 30% de ocupação.

Ainda assim, houve quem visitasse a zona para ver os efeitos dos incêndios. "Tivemos aqui muita gente, sobretudo ao fim de semana, a perguntar onde era a "estrada da morte" [a N236 -1, onde morrerem 47 pessoas]", conta José Alberto, há 27 anos no restaurante Lago Verde, em Pedrógão Grande.

Na praia das Rocas, com areal e ondas artificiais, 2017 foi, no que ao número de visitantes diz respeito, memorável. "Tivemos o segundo melhor ano e com três semanas fechados. Recebemos cem mil pessoas [124 mil em 2016], a praia é um exemplo de resistência", orgulha-se João Maria, um dos funcionários. Inaugurada em 2005, a praia está aberta entre junho e setembro.

Outra aldeia de xisto, que se ergue pela encosta até ao vale, já no concelho de Penela, Ferraria de São João esteve cercada pelo fogo. Uma associação de moradores, a que todos os 40 residentes estão ligados, reuniu forças para limpar e reflorestar os terrenos e não perder os turistas. Maria Isabel e António Assunção, Isilda Mendes e Benilde Vaz fazem questão de mostrar onde é a sede. "Nasci e criei-me aqui", conta Isilda, descrevendo onde comiam e dormiam. Parece impossível, são duas divisões minúsculas. A aldeia oferece aos visitantes os caminhos de xisto e de BTT. "Vem cá muita gente, com tudo organizado, chegam a vir autocarros cheios", contam os aldeões.

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