Aprovados 60 medicamentos inovadores para cancro, hepatite e coração

A autoridade do medicamento, que hoje faz 25 anos, bateu em 2017 o recorde de novos fármacos aprovados. Despesa hospitalar subiu, sobretudo com a inovação oncológica, mas há ganhos em qualidade de vida e longevidade

O Infarmed - Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde, que hoje assinala 25 anos de existência, aprovou em 2017 um total de 60 medicamentos inovadores, entre 511 processos finalizados, voltando a bater o seu próprio recorde. Nas novidades disponibilizadas aos doentes destacam-se as da área da oncologia, nomeadamente para o cancro do pulmão, melanoma, mieloma e cancro colorretal. Mas também novos medicamentos para a hepatite C e para as áreas da hematologia e cardiovascular.

A centralização de processos - através da criação, em 2016, do Sistema de Avaliação dos Medicamentos e da Comissão de Avaliação das Tecnologias em Saúde - é uma das explicações avançadas por Maria do Céu Machado, presidente do Infarmed, para o volume de novos produtos aprovados. A outra tem que ver com o facto de a indústria viver um momento de grande dinamismo, "prevendo-se o desenvolvimento de 500 novas moléculas nos próximos cinco anos".

Despesa hospitalar sobe 7%

Esta inovação tem um custo. De acordo com a presidente do Infarmed, em 2017, até 1 de dezembro, "houve mais 2,3% de despesa no ambulatório, embora para o utente apenas 0,4% comparativamente ao mesmo período do ano anterior, e mais 7% de despesa hospitalar, na maioria com a inovação oncológica".

Os novos produtos, assumiu, podem ser "muito caros", embora os que têm mais custos nem sequer sejam destas áreas mas os que se destinam às chamadas doenças órfãs, que afetam números muito reduzidos de doentes. "Estamos ainda a negociar um medicamento para uma doença cujo custo proposto pela empresa foi de 430 mil euros por ano por doente", ilustrou, ressalvando que estes são pontos de partida negociais.

Maria do Céu Machado defendeu que "não devíamos pensar apenas no impacto económico" destas novas moléculas e sim, sobretudo, nos ganhos que estas trazem para a saúde pública. "Temos de cruzar com o aumento da esperança de vida. Em Portugal, a média já é de 81 anos, as mulheres um bocadinho mais e os homens um bocadinho menos, e mais de metade desses ganhos em esperança de vida devem-se à inovação terapêutica. Temos mais anos de vida e mais anos de qualidade. E isso, naturalmente, tem um preço", diz.

Por outro lado, acrescentou, os novos produtos têm permitido também poupanças, "que ainda não conseguimos medir com rigor", não só em outros atos médicos, nomeadamente exames e internamentos, como "em termos de baixas médicas e faltas ao trabalho".

Em relação a novidades para o futuro do Infarmed, Maria do Céu Machado - que não quis falar da questão da eventual mudança para o Porto, que será decidida neste ano - destacou a nova "plataforma de farmacovigilância", que permitirá aos cidadãos reportarem pelo telemóvel efeitos inesperados de medicamentos, também uma aplicação que permitirá aos médicos conhecerem de imediato a aprovação de determinados medicamentos ou ainda o trabalho na área de deteção de produtos falsificados que, em 2017, permitiu retirar "cerca de 400 produtos, entre medicamentos, dispositivos médicos e cosméticos".

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