84% dos alunos do profissional não seguem ensino superior

Lisboa e Porto, os distritos com maior número de alunos a concluir o ensino secundário profissional, têm as taxas mais baixas de transição para o superior

Dos 23 625 alunos que concluíram os estudos secundários no ensino profissional no ano letivo 2015/2016, 84% não ingressaram no ensino superior. São quase 20 mil alunos que deixaram de continuar a estudar.

Os dados constam de um relatório da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência sobre a transição entre o ensino secundário e o superior e confirmam uma tendência já revelada nos últimos anos - a esmagadora maioria dos estudantes dos cursos profissionais não segue para as universidades ou politécnicos. Nos cursos científico-humanísticos, a proporção é a inversa: 80% dos alunos que concluem o secundário inscrevem-se no ensino superior no ano letivo seguinte.

Nem mesmo considerando os dois últimos anos os dados se alteram muito. Tomando o ano letivo de 2014/2015 como referência, constata-se que 6% dos estudantes, não tendo ingressado no superior logo após a conclusão do secundário, acaba por fazê-lo no ano seguinte. As razões para esse adiamento não são explicitadas. Mas, apesar disso, a percentagem dos que ficam fora do ensino mantém-se nos 80%.

Uma das explicações para estes números prender-se-á com o facto de os alunos do profissional, nas provas de ingresso no ensino superior, serem avaliados sobre assuntos que não constam nos seus currículos.

Curiosamente, os dois distritos do país que têm um maior número de alunos a concluir o ensino profissional - Lisboa e Porto - são os que revelam, simultaneamente, as taxas mais baixas de transição para o superior (11%). É nos cursos técnicos superiores profissionais (formações curtas, de dois anos) que se verifica a grande diferença - enquanto em Bragança estes cursos "captaram 28% dos diplomados do ensino profissional", nas duas maiores cidades a percentagem fica-se pelos 6% (sendo de 10% no total nacional).

O relatório avança como possível explicação para esta diferença a "relativa escassez da oferta formativa de cursos técnicos superiores profissionais, em termos proporcionais, no ensino superior politécnico dos dois distritos mais populosos do país". Outra justificação "poderia assentar nas diferentes taxas de desemprego entre as regiões do país, assumindo que, onde há mais emprego disponível, a atratividade do ensino superior poderá ser menor". Mas o próprio documento admite que esta correspondência não é total, pelo que não explica por si a discrepância.

Em termos de áreas de formação, os cursos profissionais de hotelaria e restauração, bem como os de técnicas de diagnóstico e terapêutica, são os que revelam taxas mais baixas de transição para o superior.

O ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Manuel Heitor, já deixou uma garantia: no "final da legislatura, teremos um número completamente distinto de jovens vindos do ensino profissional que entram no superior."

Ciências e Tecnologias lidera

Já entre os alunos que terminaram o ensino secundário científico-humanístico a taxa de ingresso mantém-se estável, ao longo dos últimos anos, a rondar os 80%.

A área das Ciências e Tecnologias é a que apresenta percentagens mais expressivas (84% nos último ano letivo), seguida pelas Ciências Socioeconómicas (83%) enquanto Línguas e Humanidades se fica pelos 69%.

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