"Interesses económicos pagam quotas a muita gente"

Antigo líder do governo regional da Madeira apresentou livro de memórias políticas. E foi fiel à veia polémica

O antigo presidente do governo regional da Madeira, Alberto João Jardim, sugeriu que a eventual eleição de uma nova liderança no PSD poderia ser condicionada por interesses externos. "Está na mão dos militantes, embora estejamos hoje a assistir a um fenómeno interessante na Europa: os grandes interesses económicos pagam quotas a muita gente para estarem inscritas dentro dos partidos, justamente para terem os líderes partidários que lhes convêm", acusou. "E tendo os líderes partidários que lhes convêm também têm os governos que lhes convêm".

A afirmação foi feita aos jornalistas, esta tarde, antes do lançamento oficial do livro de memórias políticas "Relatório de Combate". Na obra em causa, à venda há mais de um mês, Jardim não poupa críticas ao governo de Passos Coelho, que acusa de ter protagonizado um "genocídio social". Mas esta quarta-feira garantiu aos jornalistas considerar não ter ofendido ninguém, "até porque ninguém se magoa pela verdade".

Por entre alguns elogios ao atual governo, por ter posto "moeda a circular", Jardim recusou dar a sua opinião sobre eventuais alternativas para a liderança do PSD, nomeadamente o atual líder parlamentar social-democrata, Luís Montenegro: "É o mesmo que dizer: "Diga o nome de duas ou três mulheres bonitas. Há tantas mulheres bonitas, a começar pelas senhoras", disse, dirigindo-se às jornalistas presentes.

Já em relação a um eventual regresso à política, Jardim - que liderou a Madeira durante 37 anos, vencendo dez eleições regionais - garantiu pretender aproveitar a reforma: "Dei tudo o que podia e sabia à política. Agora, com 74 anos, deixe-me gozar o que resta da vida. E acho que, quando se sai, tornar a entrar estraga tudo".

Do Aeroporto a Ronaldo

A apresentação da obra ficou a cargo de Guilherme Silva - identificado por Jardim como um dos deputados "de luxo" que na sua era representaram o PSD Madeira na Assembleia da República. E este assumiu integralmente o papel de elogio que lhe estava reservado.

Perante uma plateia meio preenchida, na Câmara de Comércio, em Lisboa - mas onde não faltaram a deputada madeirense Sara Madruga, o antigo presidente da Casa Civil de Cavaco Silva Nunes Liberato e o Constitucionalista Bacelar Gouveia -, Guilherme Silva enumerou com afinco, e ocasionais murros na mesa, o que definiu como legado político de "um patriota", o qual, considerou, só por "grande desperdício" nunca foi chamado a desempenhar funções de Estado por Portugal.

Jardim, garantiu Guilherme Silva, "esteve para a autonomia como Mário Soares esteve para a democracia em Portugal". Foi um político "não de dimensão nacional" mas "internacional", um "social democrata identificado desde sempre com a linha Sá Carneiro" e que jamais acompanhou "algumas linhas mais recentes".

Com ele, prosseguiu, a Madeira foi líder "a nível europeu" em termos de execução de fundos comunitários. E "essas coisas" relativas ao estado das finanças da Região Autónoma ficaram a dever-se sobretudo a ações ou inações do governo da República. Em particular, considerou, do primeiro governo de José Sócrates, que "desequilibrou as dotações [para a região] com o falso argumento de que os Açores estavam a ser prejudicados".

A Jardim, resumiu Guilherme Silva, quase tudo se deve. Desde o alargamento do Aeroporto da Madeira à carreira de Cristiano Ronaldo, que começou no Andorinha. "Esse clube existiu porque o Alberto João tinha uma política de desporto inteligentemente associada à política de juventude".

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