Incêndios e afeto entre as favoritas a palavra do ano

Os resultados são conhecidos no dia 4. Corrupção, refugiado e geringonça foram as escolhidas nos últimos três anos

Será que os incêndios foram o que mais marcou 2017? Ou terá sido o afeto? A Palavra do Ano só será conhecida no dia 4 de janeiro, numa cerimónia que vai decorrer na Biblioteca Municipal Ary dos Santos, em Loures, mas, no final da semana, incêndios, afeto e floresta eram os vocábulos que ocupavam o pódio da iniciativa da Porto Editora. Na corrida estavam, ainda, vencedor, crescimento, cativação, desertificação, gentrificação, peregrino e independentista.

Nas vésperas do final da votação, que terminou ontem, o DN contactou pessoas de várias áreas, da política ao desporto, para saber qual a palavra que acham que melhor define o ano de 2017. Pelo número de mortes e pela área ardida, a maioria elegeu os incêndios. Seguiu-se afeto, uma escolha justificada pela ação do presidente Marcelo Rebelo de Sousa, mas também de todos os portugueses.

Por considerar que as palavras a concurso estão demasiado "banalizadas", Mário Cordeiro, pediatra, surpreendeu ao escolher um termo que não faz parte da lista: vida. "Frisamos muito, por vezes demasiado, a morte, a tragédia, a parte negativa da existência. Exaltamos pouco, sublinhamos menos, damos escassa importância ao facto de estarmos vivos, mesmo que com problemas de maior ou menor grau. A vida é o primum movens de tudo, e a morte só nos incomoda por ser, exatamente, a finitude da vida e a constatação de que a vida cessou", explica o pediatra.

A vida, prossegue Mário Cordeiro, "não é apenas a existência, é o fruir, contemplar, ter prazer em ver o que existe em redor, desde a natureza às pessoas. Isso passa por estar mais atento ao belo e cultivar as relações humanas com aqueles que, na nossa perspetiva, merecem em termos de terem algo que ver connosco, e não nos incomodarmos com as acrimónias e coisas efémeras e materialistas do dia-a-dia".

Incêndios

"Fogo destruidor, que lavra com intensidade, geralmente assumindo grandes proporções"

"Os sucessivos incêndios em todo o país fizeram de 2017 um dos anos mais trágicos de sempre, pela enorme quantidade de vítimas e pela dimensão da área atingida." Foi esta a justificação dada pela Porto Editora para a escolha da palavra, que o escritor José Luís Peixoto considera a mais representativa de 2017. "Este ano teve aspetos muito positivos, mas a tragédia dos incêndios acaba por suplantá-los todos em termos do que será um marco na nossa memória coletiva", diz ao DN, acrescentando que "quando nos lembrarmos deste ano, o que se vai destacar é a grande perda de vida humanas e o despertar para um problema tão grave e tão cíclico".

Natural de Mação, uma vila do distrito de Santarém afetada pelas chamas, Duarte Marques também escolhe incêndios como palavra do ano. "Quero que esta palavra ganhe para lembrar às pessoas que há concelhos que arderam e que não tiveram praticamente ajuda do Estado. Há um Portugal que ardeu entre Pedrógão e os fogos de outubro", lembra o deputado do PSD, criticando a falta de apoio nos concelhos onde não houve vítimas mortais.

Ao escolher incêndios, Jaime Marta Soares, presidente da Liga dos Bombeiros, curva-se "religiosamente perante todas as famílias e os que pereceram" e assume "uma palavra de respeito pelo esforço e a entrega dos bombeiros portugueses". Muitos ficaram feridos, alguns perderam a vida. "Esta escolha é também uma homenagem aos bombeiros portugueses."

Elegendo o mesmo vocábulo, Miguel Oliveira, piloto português de motociclismo, diz que "colocaria toda a gratidão do mundo no sapatinho dos bombeiros, porque foram, sem dúvida, os heróis nacionais e tentaram proteger ao máximo e combater esta desgraça que aconteceu no país".

Afeto

"Sentimento de apego e ternura; afeição"

Marcelo Rebelo de Sousa já é conhecido como o Presidente dos afetos, tal a proximidade e a afetividade para com os portugueses. E foi precisamente por isso que afeto entrou na corrida a Palavra do Ano 2017. Uma escolha óbvia para Anselmo Borges. "O Presidente deu um exemplo de presença e não meramente institucional, mas humana e afetiva junto das pessoas", diz o padre e professor de Filosofia, destacando que essa atitude "marcou profundamente" as pessoas afetadas, mas também o modo como se faz política. "A população não só sentiu a dimensão afetiva como foi afetiva, manifestando profundíssima solidariedade". Uma opinião partilhada por Marta Soares, que, além de incêndios, escolhe o afeto, um termo no qual inclui "solidariedade, carinho, entrega, a ternura pelos outros".

Floresta

"Terreno extenso onde abundam árvores silvestres e outro tipo de vegetação; bosque; mata"

A palavra floresta foi escolhida porque "a enorme quantidade de área ardida demonstrou a necessidade de adotar novas estratégias para o ordenamento florestal em Portugal". E, diz a Porto Editora, era um dos vocábulos que continuavam, no passado dia 27, a "ocupar as posições do pódio da eleição" para Palavra do Ano 2017.

Vencedor

"Aquele que venceu o(s) adversário(s)"

"Começámos o ano com um português a tomar posse como secretário-geral da ONU (António Guterres); ganhámos o Festival da Eurovisão, coisa que era bastante improvável para não dizer impossível, aos olhos de muitos; recebemos a visita do Santo Papa; conseguimos sair de uma crise económica que também para alguns era uma batalha perdida; assistimos a Cristiano Ronaldo a ser eleito pela quinta vez o melhor futebolista do mundo (versão FIFA) e também a quinta Bola de Ouro atribuída pela revista France Football, feito inédito, que muito nos orgulha". Estas são as razões pelas quais a cientista Elvira Fortunato escolheu vencedor como a Palavra do Ano 2017, um vocábulo escolhido pela Porto Editora com base na vitória no Festival Eurovisão da Canção. Ao DN, a investigadora destaca, ainda, em termos científicos, o facto de "termos tido oito cientistas em Portugal que ganharam bolsas ERC (Conselho Europeu de Investigação) no valor de 16 milhões de euros" e, em termos políticos, "a eleição pela primeira vez do ministro das Finanças do governo de Portugal para presidente do Eurogrupo, facto inimaginável, se nos lembramos da forma dura como fomos tratados durante a crise económica que nos assolou!"

Crescimento

"Ato ou efeito de crescer, de aumentar em número, grandeza, volume, intensidade, etc."

"Há bastante tempo que esta palavra não era usada para definir o comportamento da economia portuguesa, facto que foi notório ao longo do ano", justifica a Porto Editora. Contudo, os portugueses não acham que esta seja uma das palavras que melhor definem aquilo que foi o ano de 2017 em Portugal.

Cativação

"Em contabilidade pública, retenção de parte dos montantes orçamentados para despesa, de que resulta uma diminuição da dotação disponível para determinado(s) serviço(s) ou organismo(s)"

Diz a Porto Editora que "com o objetivo de manter o défice abaixo dos valores definidos com a União Europeia, cativação tornou-se uma palavra muito visível - algo controversa - na estratégia orçamental do governo". Mas não foi relevante para os cibernautas que votaram na Palavra do Ano nem para os entrevistados pelo DN.

Peregrino

"Pessoa que viaja a um lugar santo por devoção ou promessa; romeiro"

O centenário das aparições levou a Fátima um número excecional de pessoas, pelo que peregrino foi uma das palavras mais usadas durante o ano passado. Mas foi, contudo, uma das menos votadas pelos portugueses no âmbito da iniciativa da Porto Editora. "As pessoas vão a Fátima, o Papa veio a Fátima com uma dimensão afetiva", diz Anselmo Borges, que, por essa razão, escolheu afeto e não peregrino.

Desertificação

"Processo de degradação do solo que transforma áreas de terreno fértil em zonas áridas ou semiáridas, com perda total ou parcial da fauna e da flora, resultante de intervenção humana e/ou de fatores naturais (seca, desflorestação, agricultura intensiva, etc.)". Desertificação humana: "Processo de abandono de uma região por parte da população; redução do número de habitantes de um dado lugar; despovoamento"

A Porto Editora justifica a escolha: "Muito por força das circunstâncias, este tema ganhou especial atenção nas discussões públicas e no espaço mediático." Manuel Alegre não hesita na escolha da Palavra do Ano: desertificação. "É o problema número um do país. A desertificação do interior, da história e dos afetos, que não podem ser preenchidos por uma só pessoa", justifica. Na opinião do socialista, a escolha desta palavra prende-se também com o facto de estar "na origem do atraso do país, dos incêndios e de outros problemas".

Gentrificação

"Processo de transformação e valorização imobiliária de uma zona urbana, que acarreta a substituição do tecido socioeconómico existente (geralmente constituído por populações envelhecidas e com pouco poder de compra, comércio tradicional, etc.) por outro mais abastado e sem condutas de pertença ao lugar"

Uma palavra cujo significado era desconhecido para a maioria dos entrevistados pelo DN e que foi escolhida porque "o aumento do turismo tem posto em evidência novos desafios e novas realidades", nomeadamente a gentrificação que "se faz sentir nas principais cidades do país". Apesar de não ter escolhido o vocábulo, Duarte Marques confirma que "o fenómeno existe e é real". "É uma externalidade negativa de uma coisa muito boa. Não podemos viver do turismo e, por outro lado, ficarmos revoltados com isso."

Independentista

"Pessoa que defende ou reivindica a independência política de um povo ou de uma região"

Apesar de ter sido "seguida com particular atenção pelos portugueses" nos últimos tempos, a pretensão de independência da Catalunha não mereceu destaque por parte dos portugueses nem dos entrevistados pelo DN. "É a única palavra que não tem muito que ver com Portugal", justifica o deputado social-democrata Duarte Marques.

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