Guterres tem o caminho aberto para o topo da ONU

António Guterres aumentou fosso em relação ao segundo mais votado na eleição para secretário-geral das Nações Unidas.

A quinta e clara vitória de António Guterres na votação de ontem do Conselho de Segurança torna quase impossível uma reviravolta política, nos bastidores, que o afaste do cargo de secretário-geral das Nações Unidas, segundo diversas fontes ouvidas ontem pelo DN

"A transparência deste processo atou de certa maneira as mãos" dos membros permanentes do Conselho de Segurança, afirmou o embaixador Francisco Seixas da Costa ao DN. "Neste momento, qualquer resultado que não favoreça António Guterres, à luz dos candidatos que existem, traduzir-se-á num escândalo", assegurou o antigo representante permanente de Portugal junto da ONU.

O embaixador António Monteiro, outro antigo representante permanente junto da ONU, considera que "nesta altura já há uma enorme pressão para o Conselho de Segurança tomar uma decisão" face aos resultados do candidato português: cinco vitórias em cinco votações, o único a nunca ter menos de 10 votos e a aumentar a distância face ao segundo mais votado após uma semana de intensas negociações - envolvendo chefes de Estado e de governo - à margem da abertura da Assembleia Geral da ONU.

"Seria incompreensível que o Conselho de Segurança se perdesse em sucessivas votações" - nesta segunda fase em que os cinco membros permanentes, com direito de veto, tornam conhecida a sua posição - "sem direção definida ou contrariando a política de abertura que o próprio Conselho decidiu" adotar nesta eleição, para melhorar a abalada imagem da ONU, argumentou António Monteiro, que presidiu ao Conselho de Segurança.

Mónica Ferro, professora universitária especializada no tema das Nações Unidas, considerou por sua vez que "não se justifica aparecerem candidatos novos, uma vez que não houve alteração no padrão de voto" face aos resultados anteriores e todos os candidatos - à exceção de Guterres, Susana Malcorra (quarto lugar) e Natalia Gherman (último) - "pioraram os seus resultados".

O exemplo mais evidente é dado pelo sérvio Vuk Jeremic, que subiu da terceira para a segunda posição perdendo um voto favorável e tendo mais dois negativos.

"Esta era a votação em que o Conselho de Segurança podia enviar uma mensagem muito clara, abrindo espaço para um novo candidato ou candidata, [mas] foi claro a dizer que já há um a merecer toda a confiança", frisou Mónica Ferro.

Richard Gowan, outro especialista em Nações Unidas e investigador no Conselho Europeu de Relações Externas, citado ontem pelo jornal britânico Guardian, argumentou que os cinco membros permanentes (P5) - apesar das diferenças que os separam sobre crises como a Síria ou a Ucrânia, por exemplo - vão evitar subverter o atual processo para evitarem o mal-estar daí resultante entre o conjunto dos 193 Estados com assento nas Nações Unidas.

"Apesar de todas as diferenças geopolíticas, a lógica de controlo dos P5 [através do veto] significa que ainda podem chegar a acordo. Os P5 estão um pouco enervados com o impacto que toda a transparência condicionou os resultados", referiu o académico, acrescentando: "O ponto de vista dos P5 é que a Assembleia Geral já teve o seu momento e agora deve regressar à sua caixa."

Seixas da Costa, mostrando-se agora mais otimista com uma vitória de António Guterres, adiantou que "a democraticidade e transparência" do processo de escolha do sucessor de Ban Ki-moon "cria uma situação de difícil reversão" nesta altura. "Há sempre a possibilidade de fatores de natureza geopolítica prevalecerem de forma contrária a este tipo de posicionamento", mas isso "seria escandaloso" nesta altura, declarou.

"A liderança consolidada" do ex-primeiro-ministro "torna-a bastante sustentada e evidente. Não quer dizer que o Conselho de Segurança não possa decidir de outra forma mas o processo, como foi lançado e tem corrido, afasta ou tornaria mais chocante uma solução que não respeitasse a tendência visualizada nas últimas eleições", insistiu o embaixador.

Para Mónica Ferro, "os alinhamentos" resultantes desta quinta votação informal e secreta "foram muito favoráveis" a António Guterres, "porque nas duas últimas semanas houve uma intoxicação da opinião pública em torno da possibilidade de se apresentar outra búlgara", especificamente a da vice-presidente da Comissão Europeia Kristalina Georgieva.

"Houve uma reação global extremamente negativa contra o que seria um recuo da Bulgária, que vinha pôr em causa o processo de transparência que a ONU introduziu e queria manter... seria uma manobra política altamente indesejável!", exclamou Mónica Ferro.

Recorde-se que, após fontes do governo búlgaro terem admitido há dias à imprensa que a candidatura de Irina Bukova iria ser substituída pela de Georgieva, o primeiro-ministro de Sofia disse que essa decisão ficaria condicionada ao resultado de ontem - tendo a diretora-geral da UNESCO de ficar num dos dois primeiros lugares (desceu de quinto para sexto).

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