Guterres aclamado hoje como o nono secretário-geral

Conselho de Segurança formaliza esta quinta-feira recomendação unânime de António Guterres à Assembleia Geral da ONU

António Guterres obteve ontem "uma vitória extraordinária" no Conselho de Segurança (CS) da ONU, onde "prevaleceu o critério da transparência", a manobra de bastidores "foi derrotada" e que "aumenta a visibilidade" de Portugal, além de acontecer "uma vez na história".

Estas foram alguns dos genuínos elogios ouvidos após os resultados da sexta votação do CS para escolher o nono secretário-geral (SG) da ONU - marcada pela entrada à última hora da búlgara Kristalina Georgieva, promovida pela Alemanha e proposta por Sófia, num processo que se quis transparente.

O resultado de Georgieva traduz uma humilhação: oito "nãos" em 15, oitavo lugar entre dez candidatos e, pior, atrás de Irina Bokova (subiu para quarto), a quem a Bulgária deixara de apoiar por causa dos alegados maus resultados.

"Este é um grande dia para Portugal. Tivemos poucos dias como este. É preciso tomarmos consciência de que, pelo menos nos próximos cinco anos, o SG da ONU é um português", enfatizou ao DN o ministro Augusto Santos Silva. "É uma grande vitória" para Guterres, "uma vitória da pessoa, do político, das suas capacidade e qualidades pessoais e políticas". É ainda "uma vitória de Portugal", porque "houve grande unidade do país em torno desta candidatura" e é também "uma grande vitória da diplomacia portuguesa, que demonstra o valor de Portugal no mundo", concluiu.

O resultado surpreendeu pela clareza da quase unanimidade que Guterres teve - uma semana após o bruá da entrada em cena de Georgieva - e repete a sua primeira votação (12 votos a favor e três neutros). A seguir continuaram Vuk Jeremic (Sérvia) e Miroslav Lajcak (Eslováquia), ambos com menos um "sim".

Adiada continuou a eleição de uma mulher para SG, com Bokova a surgir outra vez como melhor candidata e Helen Clark (Nova Zelândia) a ultrapassar Susana Malcorra (Argentina, em 6.º). Porém, como admitido nos bastidores da ONU, a búlgara poderá surgir como SG adjunta - potencial reflexo das negociações de Guterres para obter o apoio ou a não oposição da Rússia.

O embaixador António Monteiro, frisando que "foi derrotada largamente" a manobra de bastidores que levou Georgieva a entrar à última hora na corrida, enfatizou que o resultado de Guterres traduz "o sucesso" do método transparente adotado nesta eleição. "Foi outro passo na forma progressiva" de a ONU se adaptar ao mundo globalizado atual e "mostra que os membros permanentes estão agora muito mais abertos a ouvir as reticências" dos dez membros eleitos do CS e dos restantes 178 países, disse.

"É realmente um caso extraordinário e uma evolução no bom sentido, de que os EUA e a Rússia seguiram a opinião e o julgamento da maioria dos países" do CS, declarou o embaixador Pedro Catarino. Os cinco grandes "aceitaram o consenso e não quiseram impor um candidato seu", pelo que "é uma grande notícia para Portugal. Fantástico!".

O embaixador António Martins da Cruz destacou que o sucessor de Ban Ki-moon "será certamente um SG muito mais assertivo e incisivo, capaz de aproveitar melhor a margem de manobra que lhe dão as resoluções do CS e da Assembleia Geral". A escolha também "é boa para a ONU porque foi respeitado o processo transparente que tinha sido decidido - o que só aumenta a imagem pública da ONU, que tanto precisava de credibilidade", realçou.

"Absolutamente extraordinário. É uma coisa que acontece uma vez na história do país, não é uma vez na vida", exclamou Mónica Ferro, especialista em Nações Unidas. Os membros permanentes "claramente perceberam" que Guterres "era o candidato preferido, pela maioria dos Estados e da sociedade civil organizada, como a pessoa que poderia liderar a ONU num momento de muitos conflitos", acrescentou.

O padre Vítor Melícias, há muito confessor e conselheiro de Guterres, também exultou: "Prevaleceu o critério da transparência, o reconhecimento dos valores e qualidades da pessoa escolhida e não outro tipo de interesses." Acresce que o futuro SG "pode ser um grande instrumento da paz que é tão necessária no mundo de hoje", pois "tem sido um homem compreensivo, tolerante, dialogante e sabendo encontrar pontes", testemunhou o frade.

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