Geração entre os 30 e 40. Os deputados que vão dar cartas

Há vida para lá das contas e défices, mas serão desta área os deputados que mais se destacarão nos próximos meses

Com a economia a mostrar sinais de arrefecimento, Jerónimo de Sousa não perdeu tempo em avisar que o Orçamento do Estado (OE) para 2017 deve manter a linha de devolução de rendimentos e direitos. Se houver regresso à receita da austeridade, os comunistas deixam cair o apoio ao executivo socialista. A líder do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, tem deixado idênticos alertas. Dentro de um mês, a 15 de setembro, arranca a segunda sessão legislativa de uma legislatura cujos prognósticos para a sua duração ninguém arrisca antecipar.

É um lugar comum desta legislatura: o Parlamento ganhou uma nova centralidade no debate político e nos próximos meses não será diferente. O Orçamento do Estado para o próximo ano - cuja discussão e elaboração acelera no mês de setembro - e a comissão parlamentar de inquérito à recapitalização da Caixa Geral de Depósitos e à gestão do banco antecipam um início de sessão legislativa em que os números marcarão esse debate político.

O PSD de Pedro Passos Coelho deu já a tónica, na festa do Pontal, no passado fim de semana, ao desafiar o primeiro-ministro a mudar o rumo do Orçamento. Já o CDS de Assunção Cristas, promete fazer uma "oposição construtiva" mas "firme".

Mesmo havendo vida para lá do défice, serão sobretudo deputados destas áreas que serão chamados a ocupar o palco em cada uma das bancadas parlamentares. Num exercício necessariamente falível, o DN identificou eventuais protagonistas dos próximos meses, uns mais óbvios do que outros, dois deles inevitáveis - os deputados de Os Verdes e do PAN (os ecologistas têm apenas dois parlamentares e André Silva é o deputado único do Pessoas-Animais-Natureza. O social-democrata António Leitão Amaro, o socialista João Paulo Correia, a bloquista Mariana Mortágua, a centrista Ana Rita Bessa e o comunista Miguel Tiago são os outros nomes.

O pivô do PSD no debate do Orçamento

ANTÓNIO LEITÃO AMARO. 36 anos. Licenciado em Direito. É a terceira legislatura que cumpre no Parlamento, agora eleito por Viseu (antes tinha sido por Lisboa).

Chegou ao Parlamento vindo do governo de coligação de direita (de Passos Coelho e Paulo Portas), onde foi secretário de Estado do Poder Local e da Reforma Administrativa, para ser cada vez mais a voz dos sociais-democratas em matérias económicas, mesmo que a sua formação não o antecipasse.

Foi este vice-presidente da bancada parlamentar do PSD, natural de Tondela, que esteve de serviço neste período em que a política foi a banhos, antecipando pedidos de apreciação parlamentar do estatuto de gestor público e do decreto-lei que altera o IMI (imposto municipal sobre imóveis) e criticando os atrasos no pagamento de devoluções do IRS.

Na rentrée parlamentar espera-se que seja António Leitão Amaro um dos principais pivôs no debate do Orçamento - é membro da Comissão de Orçamento, Finanças e Modernização Administrativa (COFMA) - e, apesar de suplente na comissão de inquérito à Caixa Geral de Depósitos, também é expectável que acabe por ter um papel de relevo, como na comissão do Banif.

O rosto da defesa do PS na comissão da CGD

JOÃO PAULO CORREIA. 39 anos. Licenciado em Organização e Gestão de Empresas. Cumpre a terceira legislatura, desde 2009, sempre eleito pelo Porto.

O presidente da Junta de Mafamude e Vilar do Paraíso é um dos seguristas que fez a transição para o costismo e que tem sido, cada vez mais, chamado à linha da frente da bancada socialista. Filiado no PS desde os 17 anos, presidente do Clube de Futebol de Oliveira do Douro, João Paulo Correia é o coordenador socialista na comissão de inquérito à CGD, cuja proposta inicial feita pelo PSD criticou em nome da sua bancada como "mais um ataque" ao banco público. Será este gestor o rosto da defesa dos socialistas na comissão depois de também já ter assumido as despesas de um debate quinzenal, no lugar do presidente do seu grupo parlamentar, Carlos César. Na próxima sessão legislativa, será também por ele que se fará muito da discussão do Orçamento, como coordenador socialista na COFMA.

Voz do Bloco para as finanças

MARIANA MORTÁGUA. 30 anos. Licenciada em Economia. Entrou no Parlamento para o lugar de Ana Drago na legislatura anterior e foi reeleita por Lisboa.

É já um nome incontornável na bancada do Bloco, onde chegou com o aval de Francisco Louçã. Os dois colaboraram em dois livros, um sobre a dívida e outro sobre "mitos do senso comum na era da austeridade". É também figura incontornável na "geringonça": a sua relação de amizade aproxima-a de socialistas como a secretária de Estado adjunta do primeiro-ministro, Mariana Vieira da Silva, ou do secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, Pedro Nuno Santos. O que não a inibe de deixar os alertas que o BE entende deixar no que toca a linhas vermelhas na governação. Já disse que os bloquistas não se oporão às mexidas no IMI se elas trouxerem justiça fiscal. "Outra coisa se dirá se a proposta aumentar de forma generalizada a carga fiscal", avisou. É coordenadora do BE na Comissão de Orçamento, Finanças e Modernização Administrativa.

Centrista toma as rédeas da educação

ANA RITA BESSA. 42 anos. Licenciada em Economia, tem mestrado em Ciências Educativas. É nova no Parlamento, onde chegou em outubro eleita por Lisboa.

O percurso profissional mais recente desta gestora antecipa as duas áreas-chave em que mais se fez notar na primeira sessão legislativa: era diretora da Leya Educação, depois de ter sido diretora de um projeto sobre Escolas de Futuro na EPIS - Empresários pela Inclusão Social. Não admira que a educação tenha sido o campo de atuação desta católica, praticante de pádel nos intervalos dos trabalhos parlamentares e uma das caras novas da bancada do CDS. E com o arranque do novo ano letivo e a guerra ainda surda dos colégios com contratos de associação (a que a deputada se associou) não admira que Ana Rita seja uma das deputadas a seguir. Mas a sua intervenção não se esgota na educação (é a coordenadora do grupo parlamentar na Comissão de Educação e Ciência), sendo também um dos rostos centristas na comissão de Orçamento e na de Economia, Inovação e Obras Públicas.

Motard comunista atento à banca

MIGUEL TIAGO. 36 anos. Licenciado em Geologia Aplicada e do Ambiente, é deputado municipal de Lisboa. Vai no quarto mandato no Parlamento (eleito desde 2005 por Lisboa).

Este deputado motard foi o único parlamentar a receber em junho, nas escadarias da Assembleia da República, um grupo de motociclistas que protestavam contra as inspeções periódicas às motas. Em março, Miguel Tiago alimentou uma polémica ao publicar no seu Facebook - no qual mantém uma intervenção muito assertiva - um comentário em que relacionou o terrorismo com problemas sociais e "políticas de direita". O deputado comunista, que iniciou a sua militância pela jota, não vira a cara a afirmações mais duras e manteve uma avaliação crítica às conclusões nos inquéritos sobre o BES e o Banif. Agora volta a ser o coordenador do grupo parlamentar do PCP na comissão de inquérito à Caixa. Geólogo de profissão, também é um dos nomes comunistas na Comissão de Orçamento e Finanças.

Ecologista de agenda própria e diversificada

HELOÍSA APOLÓNIA. 47 anos. Licenciada em Direito, é a deputada mais velha e com mais anos de Parlamento deste grupo, onde está desde 4 de novembro de 1991.

Deputada do Partido Ecologista "Os Verdes" (PEV), eleita nas listas da CDU (PCP e PEV), não vira as costas ao confronto direto com o executivo, nem mesmo com o de Costa, que ajuda a suportar com os partidos de esquerda. Se a defesa do ambiente está na essência do partido, Heloísa Apolónia - que faz dupla com José Luís Ferreira - está sempre atenta à política económica do país. O PEV, que recusa ser um apêndice do PCP, conseguiu ver aprovadas sete das 14 propostas de alteração ao Orçamento, com destaque para as novas condições de isenção de IMI para idosos que vivam em lares. Para o próximo OE, Apolónia promete manter-se ativa para "garantir mais justiça social e ambiental".

O vegetariano que aposta na eutanásia

ANDRÉ SILVA. 40 anos. Com um mestrado em Património Arquitetónico e Artístico, é engenheiro civil de profissão e a surpresa das últimas eleições.

Com a entrada do PAN na Assembleia, André Silva veio trazer outro discurso ecologista ao trabalho parlamentar. O único deputado do Pessoas-Animais-Natureza, vegetariano, tem apresentado em plenário temas pouco habituais, como os pombais contracetivos com ovos de gesso ou os copos menstruais, mais ecológicos dos que os pensos higiénicos. Discutir e "apresentar a melhor solução" sobre a eutanásia é a grande aposta na próxima sessão legislativa de André Silva, que até ao momento tem procurado consensos com esquerda e direita.

[atualizado com duas correções: Mariana Mortágua entrou para o lugar de Ana Drago no Parlamento, e não de Francisco Louçã como erradamente se escreveu; Miguel Tiago foi sempre eleito por Lisboa, e não por Setúbal nas últimas eleições, como se indicou.]

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