"Geringonça não causa dúvidas aos aliados"

António Martins da Cruz, embaixador da NATO e chefe da diplomacia quando os EUA invadiram o Iraque, saúda as posições do Governo sobre política externa

Levantou dúvidas sobre a geringonça em relação à NATO, dadas as posições de PCP e BE. Passou ano e meio...

Até escrevi um artigo, mas foi antes de se saber qual era a fórmula. O que se dizia é que essas forças políticas entrariam para o Governo e não foi o caso. Não causa hoje dúvidas a ninguém que, para o Governo português, a NATO e as relações transatlânticas continuam a ser um eixo fundamental e um pilar da nossa política externa. Tanto assim que Portugal continua a participar em todos os comités da NATO, mesmo os sensíveis das informações, donde foi expulso em 1975 e só voltou a entrar vários anos depois.

Quem parece levantar agora dúvidas sobre a NATO é o presidente dos EUA, Donald Trump. Como vê isso?

Não sou tão pessimista. Não é obrigatório que um presidente americano reafirme que apoia o artigo 5º, que é mesmo a essência da NATO. Se não apoia, nem vai às reuniões. O que alguns europeus e alguma imprensa não gostaram foi que ele tenha posto o dedo na ferida, de que muitos não estão a cumprir o compromisso assumido na última cimeira de Cardiff de investir 2% do PIB em despesas militares. Também podia não o ter dito, mas não era obrigatório dizer que o artigo 5º é essencial. Claro que querem e a prova é que continuam na NATO.

Um diplomata sabe que as declarações públicas contam...

O que se diz e o que não se diz. Acho que devia ter dito. Não se perdia nada, tanto mais que havia dúvidas pelo que tinha dito na campanha [que a NATO era obsoleta]. Negativo, até porque podia ter sido explicado de outra forma e antes, foi a saída dos EUA do Acordo de Paris sobre o Clima. Até podiam ter feito isso, mas de outra maneira e com outras explicações e propondo soluções alternativas. Não é assim que se faz em diplomacia e não é isso que se espera da primeira potência do mundo.

O sueco Carl Bild escreveu a seguir que essa já não é a doutrina da América Primeiro mas da América Sozinha...

Não é segredo que os EUA estão ou parecem estar num processo de revisão da sua política externa, da maneira como querem encarar as suas responsabilidades em política externa e em defesa perante o resto do mundo, designadamente a Europa e a NATO. As informações não são coincidentes, porque a Casa Branca tuíta umas coisa, o Departamento de Estado diz outras e o Pentágono ainda diz outras. É preciso deixar assentar as coisas, porque é raro os EUA terem um presidente que não tivesse tido cargos políticos antes. Penso que ele próprio está a aprender a fazer política.

Ele contradiz expressamente os seus porta-vozes e ministros...

Há ali alguma descoordenação. Agora, pelo sistema americano, quem tem a última palavra é o presidente. Portanto, voltando atrás: o presidente nunca pôs em causa a NATO mas podia ter ressublinhado o compromisso dos EUA com o artigo 5º... foi aliás o único país que o invocou, com os acontecimentos do 11 de Setembro.

Uma das características da atual Administração Trump é o maior peso dos militares e uma menor influência dos diplomatas. Como vê isso, em matéria de política externa?

Não sei se haverá maior peso de militares nos processos de decisão. Há mais militares que diplomatas mas isso também não é novo. Já não havia há muitos anos militares com cargos políticos no Pentágono... não é normal nos EUA, mas também não é estranho.

Como vê o Médio Oriente [MO], com o bloqueio ao Qatar, os ataques terroristas no Irão e a posição dos EUA, que não parece ser de mediação?

Estive três anos no Egito, quando o presidente Saddat foi a Israel. Continuo a pensar que, nas atuais circunstâncias, o problema do MO não tem solução. É impossível. Tem sido o principal foco de atenção do mundo nos últimos 40 anos ou 50 anos e vai provavelmente continuar a ser nos próximos 40 ou 50. Já se tentou tudo: os acordos de Estocolmo, de Camp David, conferências internacionais, relações bilaterais. Os problemas agravam-se cada vez mais com o Daesh, com a situação no Iraque, com os atentados agora no Irão, com os refugiados na Turquia... agrava-se ou não com a maior interferência da Rússia, que tinha desaparecido há 20 anos do MO. São situações que têm de se tratar separadamente, o que é difícil porque estão todas ligadas. E os EUA regressaram à posição que tinham no tempo de Bill Clinton e não tiveram nos dois mandatos do presidente Obama. O maior falhanço na política externa de Obama foi justamente o MO. E indiretamente provocou as primaveras árabes, que levaram ou a situações trágicas como na Líbia ou a reviravoltas como no Egito e noutros países que podiam ter sido evitadas. Penso que a Administração Trump está a regressar àquilo que existiu no tempo de Reagan, dos Bush pai e filho, de Clinton, que foi privilegiar as relações com a Arábia Saudita como principal aliado dos EUA na região depois de Israel.

Riade financia madrassas que defendem uma visão radical do Islão...

É verdade, mas não se esqueça que, entre os três grandes ramos da religião islâmica, os únicos que não têm hierarquia religiosa são os sunitas. Qualquer responsável de uma mesquita pode interpretar o Livro Sagrado como quiser, interpretar a Sharia como quiser e proclamar aquilo que entender. É muitas vezes o que acontece com responsáveis de mesquitas em França, em Inglaterra, mas também localmente. Se reparar bem, além da Arábia Saudita, onde essas coisas não acontecem porque é a guardiã dos locais sagrados, os dois países árabes onde até agora não houve grandes desvios de interpretação religiosa são a Jordânia e Marrocos, porque os reis são descendentes do profeta. Voltando à política externa: os EUA voltaram a privilegiar a Arábia Saudita. Tinham que ter mais cuidado... uma fórmula de não isolar os xiitas. Não estou a falar do Irão. Houve um acordo, a Administração Trump tem emitido sinais de sentido contrário no que diz respeito ao cumprimento pelos EUA do acordo assinado por causa das instalações nucleares no Irão e levaram a acabar com algumas sanções. Mas os xiitas que vivem no Qatar, no Iraque...

Como vê os atentados no Irão, país que se diz alimentar o terrorismo?

Também já houve atentados na Arábia Saudita, ninguém está livre. É o Daesh a provar que existe, que pode provocar ou mandar provocar atentados não só nas nossas democracias, que em princípio são sociedades abertas, mas também em regimes mais fechados, mais policiais, até isolados sobre eles próprios. Não é de excluir que, ao fazer um atentado no Irão, o Daesh está a pôr em causa os xiitas, a mandar um recado sobre o apoio que o Irão está a dar ao Hezbollah no Líbano e que combate ao lado das forças sírias contra o Daesh. Infelizmente, o Daesh não está tão enfraquecido como supúnhamos após a conquista de Mossul e da ação conjunta dos aliados. Mostra ter capacidade de recrutamento, não apenas nas sociedades ocidentais mas em países da região, porventura com um regime policial ou paramilitar, como são os Guardas da Revolução, que se supunha que controlavam quase totalmente a situação. É preocupante... o Daesh está a aproveitar-se das divisões dos que os estão a combater. Cada um está a combater o Daesh por razões diferentes. A Turquia preocupada com o vizinho mas se puder liquidar os curdos fá-lo de uma penada. A Rússia está lá para apoiar o regime do Assad. O Ocidente não se sabe bem: a França é uns dias contra o Assad e outros a favor, os EUA regressaram a profundas amizades com a Arábia Saudita. Todas as evoluções táticas que registamos nos últimos meses afetam a estratégia e o combate contra o Daesh.

E sobre a Venezuela: o que pode fazer o Governo português?

A situação é altamente preocupante. O Governo está a fazer o que pode fazer. Este problema do Maduro... a situação agravou-se com o desaparecimento do coronel Chávez e a manifesta impreparação do atual presidente mas também, e é muito importante, pelos milhares de cubanos nas polícias, serviços de informações, comissários políticos do Partido Comunista cubano que enquadram os ministérios, as forças militares e de segurança da Venezuela. Esta exportação do sistema cubano só podia levar à miséria que provocou em Cuba. Fala-se pouco da influência negativa e perniciosa de Cuba na Venezuela. Os portugueses não estão habituados a viver num regime comunista e totalitário. Portugal pouco pode fazer a não ser tentar criar condições para os ir buscar se a tragédia se acelerar... pensar em ir buscar os que queiram vir embora e não possam pagar a viagem, ajudar a criar condições, em colaboração com outros governos da região, para os que quiserem ir para o Brasil, Colômbia...

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