"Choca ouvir Marcelo dizer que Portugal se sente bem na UE"

Duas semanas depois da X Convenção, João Semedo fala da ideia de referendo, aponta o dedo a Marcelo, Passos e Cristas por causa das sanções e explica os motivos do "adeus" aos órgãos do partido

A convenção do BE ficou marcada pela ideia de referendo sobre a Europa caso haja sanções por incumprimento da meta do défice. Não terá havido alguma precipitação com esse anúncio?

O referendo é uma resposta política à ameaça das sanções e ao que ela significa de chantagem sobre o próximo Orçamento, pressão para fazer regressar a austeridade e a política da troika. É por isso que a Comissão Europeia adia sucessivamente qualquer decisão para que a pressão se intensifique e prolongue até ao tempo do OE 2017. Não é hora de sermos frouxos. O ministro alemão das Finanças até já falou num segundo resgate. O Bloco teve o cuidado de condicionar o referendo à existência das sanções e até de deixar em aberto o próprio conteúdo da consulta popular para que ele possa ser adaptado ao tipo de sanções que venham a ser aplicadas. Alguns mostraram-se mais preocupados em condenar o referendo e o Bloco do que as sanções. Dizem-se contra as sanções mas não os vemos a fazer nada contra elas. Pergunto: se houver sanções o que propõem? Aceitamos, pagamos e seguimos em frente como bons alunos?

Houve uma tentativa de "surfar a onda" do euroceticismo que está a alastrar por todo o continente, sobretudo no pós-brexit?

Seria assim se o BE nunca tivesse contestado e combatido o rumo da política europeia. E, sublinho, o Bloco não propôs replicar em Portugal o referendo do Reino Unido, propusemos uma resposta às sanções. O que choca é ouvir o Presidente Marcelo dizer que "Portugal se sente bem na UE e queremos continuar na UE" no momento em que o país é ameaçado por Bruxelas e em que a União é muito mais o problema do que a solução.

O governo não fica numa posição delicada?

Pelo contrário, todas as posições contra as sanções dão força ao governo para as combater em Bruxelas. Há diferenças de análise e avaliação sobre as questões europeias entre o PS e o Bloco, o que não impediu o acordo político estabelecido. Mas no PS há opiniões bastante críticas dos caminhos da UE, nalguns casos, posições muito convergentes com as do Bloco.

De Marcelo a Costa, passando pelos diversos partidos, todos se opõe às sanções, mas o BE ficou isolado no que toca à consulta popular. O partido pode pagar caro esta posição mais "extremada"?

Não vejo essa unanimidade. Passos Coelho e Cristas estão mais preocupados em sacudir a água do capote e oporem-se ao governo do que oporem-se às sanções. Referendos a questões europeias já todos os partidos admitiram e propuseram nos mais variados modelos e circunstâncias, mas não passaram de promessas. Se são contra as sanções, o que propõem para as impedir? Esse é que é o debate importante, o resto é a politiquice do costume. Isolados? Ouvi há poucos dias a Dra. Manuela Ferreira Leite a defender a reestruturação da dívida e não é a única voz desta área a fazê-lo. Diria que cada vez estamos mais acompanhados em matéria de política europeia.

Nos dias seguintes, abriu-se uma guerra entre Bloco e PCP devido à iniciativa de Catarina Martins. Acha que o PCP só se insurgiu contra a ideia por ter vindo do BE?

Não, não penso isso, tenho o PCP em melhor conta. Surpreender-me-ia se o PCP achasse o referendo bom ou mau em função de quem o propõe. É um exagero falar em guerra, não há qualquer guerra. Nesta questão nem o PCP falou a uma só voz, o que é curioso por não ser frequente. Repare, no mesmo dia em que o BE realizava a sua convenção nacional, o PCP reuniu o seu comité central e certamente que não se reuniram para aprovar o cartaz da Festa do Avante!. Foi para responder à evolução da política nacional e europeia como esclareceu Jerónimo de Sousa. O líder do PCP reclamou uma cimeira intergovernamental para decidir a revogação do Tratado Orçamental e do Tratado de Lisboa e denunciou as sanções que a Comissão Europeia pretende aplicar a Portugal. E sobre o tema mais não disse. Mas pedir a quem aprovou os tratados que agora os vá revogar é demasiado ingénuo, nem parece o PCP. Enfim, é poucochinho. Por mim, confio mais no voto dos portugueses do que na boa vontade ou nos rebates de consciência dos eurocratas. Contra as imposições e arbitrariedades dos líderes europeus só temos uma arma: a voz. Tenho a certeza de que o PCP não ficará fora desta mobilização.

Na convenção as principais figuras e dirigentes do BE quiseram demarcar-se quase em absoluto da governação socialista. É saudável para a maioria parlamentar que BE e PCP pareçam estar "com um pé dentro e outro fora"?

Falo do Bloco. Durante dois dias não ouvi uma só voz a reclamar que o Bloco fizesse cair o governo. Mas este não é um governo do BE, comandado pelo Bloco ou com a participação do Bloco. É natural que se ouçam opiniões críticas, vozes que querem que se vá mais longe e isso mobiliza todo o Bloco. É essa a base da confiança que depositam em nós. Temos os dois pés bem dentro.

No conclave, também foram deixadas pistas sobre o que o BE pretende no OE 2017: descongelamento do indexante de apoios sociais e aumentos reais e mais acentuados das pensões. Em que matérias é preciso ir mais longe?

É preciso ir mais longe na recuperação dos salários - incluindo o aumento do SMN para os 557 euros em 2017 -, fazer crescer as pensões, sobretudo as mais baixas, responder à pobreza e aos problemas dos idosos, mais progressividade no IRS, combater a precariedade, avançar no controlo público da banca e do setor financeiro e na reestruturação da dívida para conseguirmos investir na economia, no emprego, nos serviços públicos e nas políticas sociais.

A convenção marcou o seu adeus aos órgãos deliberativos do partido. Dever cumprido e nova etapa?

Não nos devemos eternizar nos cargos mesmo naqueles para que somos eleitos, acho que isso gera inevitavelmente demasiadas rotinas e dependências. Estive dez anos no Parlamento, deixei de ser deputado, era agora o momento em que fazia sentido prosseguir noutros moldes a minha intervenção política e partidária. É uma decisão sem história, não há nem discordâncias ou cansaço. Tudo tem um final.

O que vai fazer daqui para a frente? Vai continuar a apoiar a direção na construção de programas e na reflexão sobre propostas que estejam na forja?

Tive uma vida política intensa, de que gostei muito. Gostei tanto que vou continuar e há tanto para fazer. Sobretudo agora que o Bloco tem um enorme compromisso com os portugueses, desde logo com as pessoas que contam connosco para melhorar as suas vidas e tirar o país da crise. Estou muito empenhado em contribuir para essa resposta e o que fizer será sempre de forma articulada com a direção do Bloco. Aliás, é o que já faço há uns meses.

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